JOGO DE CENA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Eduardo Coutinho
Elenco: Aleta Gomes Vieira, Andréa Beltrão, Claudiléa Cerqueira de Lemos, Débora Almeida, Fernanda Torres, Gisele Alves Moura, Jeckie Brown, Lana Guelero, Maria de Fátima Barbosa, Marília Pêra, Marina D’Elia
Duração: 105 min.
Estréia: 09/11/07
Ano: 2007


"Jogo de Cena": existe fronteira entre realidade e ficção?


Autor: Marcelo Lyra

Jogo de Cena, décimo longa metragem de Eduardo Coutinho, foi um dos emlhores filmes da recente Mostra Internacional de São Paulo. Seu argumento parece tão simplório que a simples leitura do release desinteressaria o cinéfilo que não conhecesse o diretor: convocadas por intermédio de um anúncio de jornal, diversas mulheres dirigiram-se a um teatro para contar uma história marcante de sua vida. Todas se relacionam com a afetividade familiar, a maioria sobre pais (mães) e filhos. As histórias são contadas duas vezes, uma pela protagonista e outra por uma atriz, sempre sentadas diante das cadeiras de um teatro vazio. O cenário não poderia ser mais significativo.

A idéia lembra o belíssimo livro Pensei que Meu Pai Fosse Deus, do americano Paul Auster, mas o resultado na tela surpreende até os fãs mais empedernidos (que não são poucos) do diretor. O que parecia uma encenação repetitiva torna-se um genial experimento sobre a fronteira entre realidade e ficção. As possibilidades de interpretação abertas por Coutinho são muitas e o filme está mais interessado em levantar questões do que em responder.

Ao misturar atrizes famosas com mulheres comuns, entende-se melhor o processo de criação da ficção a partir de fatos reais (há fatos irreais?), bem como o fato que a emoção pode vir tanto da interpretação quanto do relato vivido. Mesmo este não deixa de ser uma ficção, não apenas porque diante da câmera tendemos todos à interpretação, mas porque muitas histórias podem ter sido aumentadas para garantir o interesse do diretor-ouvinte. Algumas podem ser invenção.

Se ficasse apenas no simples dueto atriz-contadora, Jogo de Cena já teria seu valor. Mas como um velho alquimista diante da possibilidade de transformar metal em ouro, Coutinho experimenta mais, e em algumas histórias utiliza atrizes desconhecidas interpretando a mesma história contada antes (ou depois?) por quem a vivenciou. À saída da sessão para os jornalistas, o amigo e crítico famoso Rubens Ewald Filho perguntou-me, sobre uma dessas histórias: “Você sabe qual daquelas duas era atriz?” Eu não estava seguro para responder, mas disse (e acredito) que a grande sacada do filme estava justamente em não termos certeza. É nessa dúvida que paira a fronteira entre ficção e realidade. Talvez nem haja mesmo fronteira.

Os experimentos prosseguem, num turbilhão criativo que parece não ter fim. Uma única narradora não tem sua história repetida. Trata-se da negra magra, que transou com um motorista de ônibus na guarita. Mas na última frase de seu longo e divertido (mas também triste) relato, ela afirma: “Foi isso que ela disse”. Assim, num mesmo personagem, Coutinho criou o efeito de dúvida para o qual até então eram necessárias duas mulheres.

Mesmo com o processo de filmagem escancarado, com as personagens subindo escadas, passando por câmeras, microfones e cumprimentando a equipe de Coutinho, há espaço para a sensação de real, para a emoção pura da identificação (ou repúdio) com as histórias. Há também uma interessante presença extra-cena do diretor, quando a descendente de turcos rompida com a filha diz a Coutinho “Você está rindo é? Mas é triste”. Sem querer, nos lembra que o diretor também está sujeito às emoções provocadas pelo relato. Naquele momento, nós também estávamos rindo. De certa forma lembra o diretor puxado para diante das câmeras pelo entrevistado no curta Casa de Cachorro, analisado por Jean-Claude Bernardet na nova edição de seu clássico livro Cineastas e Imagens do Povo.

A mistura entre personagem e ator chega ao ponto de Coutinho se transformar em ator. Diante das pessoas que viveram os fatos, ele faz as perguntas como qualquer documentarista. E elas nem são especialmente brilhantes, algumas até banais. Mas diante das atrizes, ele repete as mesmas perguntas, com a mesma entonação curiosa da primeira vez, mostrando ter algum talento dramatúrgico. Mesmo fora de cena, ele também está no jogo.

Enquanto outras atrizes choraram ao interpretar a história contada, Marília Pêra preferiu conter suas lágrimas. E, atenta ao processo de desconstrução real-ficção em curso, mostrou uma espécie de batom, chamado pelos atores de cristal japonês, utilizado para provocar lágrimas. Um truque simples: antes da cena, o ator passa um pouco do produto na ponta dos dedos, como se fosse mesmo um batom. Na hora de chorar, esfrega os olhos fingindo limpar uma lágrima e elas passam a brotar naturalmente. Para quem achava que o ator precisava vivenciar a emoção ou entrar em algum transe para chorar em cena, foi mais uma ruptura entre realidade e ficção. Não é à toa que qualquer atorzinho de Malhação consegue chorar.

Não satisfeito, Coutinho nos reserva lágrimas reais no final. A turca rompida com a filha citada acima volta ao jogo de cena, reclamando insatisfação com o depoimento inicial. É a única vez que isso acontece no filme. Consumida pela saudade da filha que a ignora desde que a mãe a agrediu, e que mora nos EUA, ela canta “Se Essa Rua Fosse Minha”, clássica canção de ninar. À maneira do personagem que canta Sinatra em Edifício Master, é difícil conter as lágrimas. Cada estrofe da velha canção ganha novos contornos, como se escritas especialmente para retratar os dois lados da difícil relação de amor entre mãe e filha, onde não há espaço para a compreensão mútua: “Se eu roubei teu coração, foi porque tu também roubaste o meu”. A filha também deve sofrer.

Desde Nanook do Norte e alguns filmes de Jean Rouch, ninguém mexia tanto com a fronteira entre realidade e ficção. Ao final de tanto experimento, Coutinho conseguiu um desses raros filmes que não terminam nos letreiros, mas saem conosco para os bares, restaurantes, sofá da sala, hall do cinema ou qualquer lugar onde dois ou mais cinéfilos possam conversar por muito tempo. Jogo de Cena é ouro puro.

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