PLANETA TERROR:


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Original: Planet Terror
País: EUA
Direção: Robert Rodriguez
Elenco: Marley Shelton, Rose McGowan, Freddy Rodriguez, Naveen Andrews, Tom Savini, Michael Parks, Josh Brolin, Carlos Gallardo, Bruce Willis, Quentin Tarantino, Stacy Ferguson
Duração: 106 min.
Estréia: 09/11/07
Ano: 2007


Sin Planet


Autor: Érico Fuks

Robert Rodriguez e Quentin Tarantino formam mais do que uma dupla. A parceria entre ambos é quase citoplasmática, não se resumindo apenas a participações especiais e pontas um no filme do outro, tampouco se limitando à divisão de custos orçamentários. Apesar das referências explícitas às artes marciais e à cultura pop enlatada que se perdeu em algum lugar da história norte-americana, Tarantino costuma dar uma roupagem mais complexa aos seus trabalhos, levando seus personagens ao divã. Já o mexicano abre mão de psicologismos e deixa todo seu universo regido por uma lógica mais clara e menos escrupulosa. Rodriguez é profético; não coloca sua visão de fim de mundo em formato de tese, mas sim dentro de um mecanismo lógico de artifícios que dispensa a dialética. Esse espectro apocalíptico não se propõe a contestar o atual estado das coisas nem aceitar os dogmas sociais. Rodriguez está acima disso. Sua construção de mundo é quase aritmética. A sociedade está desabastecida, confinada. A meia-noite deixa de ser um índice obrigatório de se virar a página do relógio e da história para se tornar apenas um espaço de tempo que permite todas as arbitrariedades possíveis. O homem-lobo-do-homem é trazido de forma quase literal, e a carne humana é sua última refeição. “Um Drink no Inferno” foi um dos precursores dessa regência mais visceral, mas não dá para descartar as semelhanças entre “Planeta Terror” e “Sin City”, a começar pelo próprio título. As duas únicas palavras que compõem ambos os nomes resumem todas as alegorias levantadas pelo diretor. Tanto a imensidão de um planeta quanto o aprisionamento de uma cidade estão condenados a sucumbir não pelas garras e dentes de monstros e zumbis, mas por todos os alicerces comportamentais que regem o ser humano.

Rodriguez normalmente é confundido com uma filmografia mão-pesada e leviana, que não se deixa levar a sério. Essa é uma impressão primeira, mais cutânea. Não é porque ele exagera nas gosmas e na inverossimilhança, entretanto, que faz com que ele possa ser colocado como um autor autista. Ele até pode ser alienígena, mas jamais alienado. Há uma mistura capciosa de falta de valores, num jogo nostradâmico que preza o vale-tudo, isso sim. Mas todas as crenças estão muito marcadas em seus trabalhos. Mensagens religiosas e agnósticas se misturam num jogo de cena organizado. Embora o processo destrutivo tenha lá sua veia cômica, o diretor traz seus princípios dogmáticos com muito rigor. É justamente o contrário: Rodriguez conduz seu mundo com um excesso de verdades. Seria injusto classificá-lo como o amigo bobo de Tarantino. Ele apenas finge ser niilista e iconoclasta num mundo em que a violência ganhou um recapeamento plástico. A mulher substituindo sua perna-de-pau por uma metralhadora pode até transparecer uma falta de critérios cênicos, mas não é nada disso. Rodriguez não atira pra tudo quanto é lado quando organiza seu cosmo. Ele apenas procura entender e traduzir, pela simplicidade e não pelo simplismo, a complexidade do ser humano e biológico. Uma massa composta por bilhões de células mortas e por um pacote de bastonetes químicos e códigos estruturais, metaforizados por uma cidade inteira de pecados religiosos e por um planeta inteiro de temores, terrores e pavores psicológicos.

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