SEM CONTROLE:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Cris D´Amato
Elenco: Eduardo Moscovis, Milena Toscano, Dirce Migliaccio
Duração: 96 min.
Estréia: 02/11/07
Ano: 2007


Características brasileiras


Autor: Fernando Watanabe

Chegando ao circuito credenciado como “raro filme de gênero” brasileiro, Sem Controle causa um estranhamento para quem vem acompanhando filmes nacionais recentes, especialmente os do período pós-retomada (de 95 pra cá). Entre reconstituições de época, comédias “populares” regionais, dramas urbanos de teor social e arroubos “autorais”, sem duvida é bem saudável a chegada de um filme de suspense, mesmo que de forma evidente, essa aproximação com o gênero seja toda calcada (o vampirismo) no cinema norte-americano atual médio. Saudável, se tivermos assimilado o conceito de que a diversidade, para qualquer cinematografia, é positiva.

Então difícil não ter a impressão de que o filme é uma experiência. Mas, não no sentido experimental do cinema de criação, longe disso. A experiência, no caso, fica não só por conta de seu aspecto um tanto alienígena, mas também por sua proposta não atingir plenamente o melhor resultado na tela. Na tela, isso talvez seja o mais importante, mesmo nesse caso.

A narrativa é frouxa. Não por que o argumento seja um tanto banal, jamais, até porque exigir originalidade de um produto que pretende mimetizar um certo modelo é covardia. O problema está na maneira como o roteiro é transposto em imagens. Sendo um suspense, é consenso que o filme de possuir “clima”. Este fica por conta, de forma quase exclusiva, da trilha sonora competente, daquelas que ocupam provavelmente 85% do filme, a fim de não deixar a peteca cair – recurso que parcialmente mascara as fragilidades do filme enquanto construção cinematográfica. As imagens, em si, não chegam a ser ruins, uma vez que a filmagem “descontrolada” (sem senso estético), de decupagem primária que por vezes beira o “vale-tudo”, ao menos é justificável por tentar construir a sensação de um universo de loucura mental.

O problema principal é a maneira com que o tempo é trabalhado. A montagem adotada é aquela do “ganhemos meio segundo onde der”, eliminando tudo o que não seja funcional à história. Cortando quando as imagens cumprem o papel de informar, sem proporcionar a imersão do espectador nestas imagens. E, não se está aqui exigindo a chamada “imersão” que filmes de tempos mais largos e conhecidos como “artísticos” propiciam. Mas, é fato que mesmo o espectador atual de cinema, aquele que possui o olho mais rápido e apressado (e por vezes afoito), tem sempre sua relação com o filme potencializada para melhor quando não lhe é negada a experiência de se instalar nas cenas. Assim, se o roteiro passa a impressão de não convencer, isso se deve em grande parte não pelo que conta, mas pela maneira apressada com que conta. Cada cena dá um novo rumo à história, uma atrás da outra: acúmulo de informação, como um caderno de notas breves. Também, por vezes a montagem adota o método do estilhaço visual, planos curtíssimos, salpicados com uma trilha sonora de impacto, com a intenção de construir mais a impressão advinda dos cortes do que das imagens em si. Por vezes, funciona, como no início, quando o bombardeio audiovisual da introdução nos dá a chave do personagem e também a do filme, que é a da confusão mental; mas, há momentos em que tal recurso possui mais potencial para distanciar o espectador do que para capturá-lo, momentos esses nos quais o filme parece parar, pois interrompido por estilhaços ultra-sônicos de dar inveja aos mais modernos videoclipes. O que é crucial para que entendamos a ausência completa de clima na cena do julgamento, na qual os cortes e a câmera aparecem mais do que a ação da cena propriamente dita.

Agora, um ponto extremamente crítico do trabalho. Um letreiro final justifica o filme, ou tenta, ao menos, fazê-lo pela suposta importância histórico-cultural que o tema da pena de morte possui. Pensemos. Durante 90 minutos, nada nos indica que a questão do filme é a pena de morte, e seria necessário que o espectador tivesse conhecimento anterior da peça que Eduardo Moscovis e seus alunos ensaiam durante boa parte da projeção. Sem essa informação, acaba-se criando expectativas acerca de tudo (as relações entre Moscovis e suas duas mulheres, a empreitada dele com seus alunos, o tema da loucura clínica, sua reabilitação pessoal), menos sobre a pena de morte, que chega de maneira abrupta demais em um filme que se desenvolve de maneira clássica. Esse sentido “nobre” soa forçado. E um letreiro final automaticamente reduz todo o filme para dentro de seu significado, esvaziando todos os outros sugeridos anteriormente.

Um filme genuinamente de gênero tem como sua primeira obrigação contar uma boa história de maneira competente, com a função primordial de entreter o espectador. No entanto, se o filme ambiciona dar um salto maior pela chave da alegoria, no mínimo, a primeira tarefa básica deveria estar muito bem cumprida. E não está. Lembremos de alguns filmes de M. Night Shyamalan (“Sinais” e a “A Vila”), por exemplo, que apesar dos sentidos políticos que sempre remetem ao exterior do filme em si, são quase impecáveis no quesito “contar a história”, satisfazendo assim plenamente algum espectador que porventura não capte os significados metafóricos. Sendo assim, “Sem Controle” acaba por ambicionar dar um salto maior do que a perna sem ter o domínio exato de como fazer isso. Ainda, se durante boa parte do tempo, o filme exala o cheiro altamente interessante de “vampirização de um cinema industrial norte-americano”, ao final ele nos lembra tristemente de um cinema brasileiro culpado, aquele que está sempre em dívida e precisa compensar isso com mensagens “culturais”, onde a nobreza da intenção para o fora do filme vale mais do que as imagens que estão na tela e a história que está sendo contada. “Sem Controle” fica aí em cima do muro, com o desejo genuinamente brasileiro de parasitar o cinema estrangeiro sendo bloqueado pela culpa por fazê-lo.
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