VIA LÁCTEA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Lina Chamie
Elenco: Marco Ricca, Alice Braga, Fernando Alves Pinto
Duração: 88 min.
Estréia: 02/11/07
Ano: 2007


"A Via Láctea": caminhando no limite


Autor: Cid Nader

De diretores bissextos é justo esperar mais complexidade quando do momento da constatação de uma nova obra concluída. Mais do que justo, creio que deva ser uma cobrança. Lina Chamie é um exemplo de autor bissexto. Seu primeiro e único longa-metragem foi realizado no ano de 2001, "Tônica Dominante", e o espaço de seis anos já se faz justo para classificá-la como tal; ao menos por enquanto. Se digo que é justo esperar e cobrar complexidade, justo também é dizer que a diretora foi fundo nessa tentativa de alcançá-la, e, visto por esse aspecto, "A Via Láctea" é um digno exemplo de trabalho que tenta fazer jus a espaços de tempos longos para a conclusão de obras.

O filme é complexo em sua proposta de narrativa e, principalmente, de construção. Aí, poderia se dizer que recaem os méritos e possíveis senões. Lina ousa o tempo todo nesse seu trabalho. Ousa muito e faz com que o filme corra riscos. Adoro isso, pra falar a verdade. Ao contar a velha e boa história de amor que inicia e acaba – a mais utilizada pelo cinema desde seu início -, o filme se nega a percorrer os tradicionais e manjados caminhos lacrimosos e investe num vai-e-vem que também escapa de ousadias já propostas em trabalhos não conformados.

Só para constar: Heitor (Marco Ricca, também produtor do filme) um professor quarentão, se apaixona por Júlia (Alice Braga), uma jovem atriz teatral. Júlia, obviamente tem mais gás para enfrentar uma vida mais urbana. Mas acaba ocorrendo a conjunção, que vem com alegrias, medos e ciúmes. Uma história de amor, medo da perda e de recordações começa a ser contada.

Lina Chamie faz com que seu trabalho demonstre ostensivamente do que o cinema é feito, na realidade: uma conjunção de obras mais antigas, como o teatro, a literatura e a música. Mas não faz isso da maneira tradicional – e sempre louvada por todos nós –, que consiste em imiscuir essas outras artes de maneira disfarçada dentro do processo de confecção. Lina explicita as diferenças e quase que as isola em setores rígidos por boa parte do filme. Há o teatro – e há mesmo, com gravação feita dentro do mundo de "As Bacantes" -; há explícitas manifestações – leituras ou quase que - de belos textos literários, onde são citados, de maneira emocionante, trechos do grande Carlos Drumont de Andrade e do necessário Mário Chamie; e há a música de Sattie e Mozart, com trechos de obras que são eternamente utilizadas e reutilizadas pelo cinema, como ícones sonoros chavões da arte, mas que ganha aqui essa estranheza proporcionada por tal ousar o tempo todo da diretora, que não inclui tais trechos – como não o fez com os escritos, nem com os atuados teatralmente - de modo camuflado e "natural" na película.

Para ficar dentro do que mais chama a atenção - que é esse pé no acelerador em busca de um distanciamento do comum -, é impressionante a maneira como e cidade São Paulo se faz fotografada. Impressiona por conta da delicadeza na busca de detalhes que, num todo, aparecem de modo grandioso e "agressivo". Muito nítido que a cidade é um terceiro vértice da história, e sua importância se coaduna com as do casal "gente" de protagonistas por conta de abraçá-los em alguns recantos particulares e só reconhecidos por quem mora nela, explodindo num momento seguinte em grandeza e até opressão de imagens e luzes. A diretora de fotografia Kátia Coelho consegue fazer perceber que a relação entre duas pessoas talvez seja algo que dependa essencialmente da intimidade, mas que não é possível exercê-la sem ser observado pela grandiosidade do horizonte das luzes e dos prédios. Incomoda um pouco o trabalho de fotografia quando a câmera resolve "tremer" em busca de alguns momentos de tensão – um modismo que poderia ser evitado, ainda mais dentro de um filme que tenta ousar a ponto de diferenciar-se em relação à mesmice -, mas isso se dá em poucos momentos, sendo que nos mais imprescindíveis não nega fogo.

Como trabalho com esse grau de aposta, de busca, o filme corre o tempo todo em cima do fio da navalha, e o medo de um escorregão fatal me sobressaltava. Como todo trabalho que não tem medo de ousar e apostar o tempo todo, ao final não se percebe um trabalho perfeito e zerado. Por momentos pensei: isso poderia ter sido evitado; ou, esse outro teria sido melhor com uma outra solução. Mas muito melhor assim. O cinema necessita de coragem para não se deixar ser capturado.

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