O PASSADO:


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Original: El Pasado
País: Argentina/Brasil
Direção: Hector Babenco
Elenco: Gael García Bernal, Analía Couceyro, Moro Anghileri, Ana Celentano, Paulo Autran
Duração: 114 min.
Estréia: 26/10/07
Ano: 2007


"O Passado": bom tecnicamente, mas...


Autor: Cid Nader

Nunca neguei a qualidade do cinema de Hector Babenco. Nunca misturei sua capacidade de cineasta capaz com as acusações sobre uma personalidade egocêntrica e dominadora – meio tirânico, chegaram a chamá-lo alguns -, ou sobre o "abandono" que deu como ajuda a Fernando Ramos, após resgatá-lo da pobreza e quase marginalidade, para protagonizar o garoto que deu nome a seu mais famoso filme, deixando-o, após a carreira do filme, novamente à mercê da própria má sorte; uma história real que resultou o pior dos resultados, após muito sofrimento, pedido de ajuda... Não acho muito justo associar a imagem de um bom artista, a supostas interpretações – pior, julgamento - de personalidades, e continuei a ver o diretor realizado alguns bons trabalhos.

Após uma razoável estiagem, o diretor argentino radicado na cidade de São Paulo ressurge com uma nova produção praticamente bi-nacional – sua Argentina de origem, e seu Brasil de adoção. Bi-nacional em variados aspectos: história baseada em livro de escritor argentino, rodada quase na totalidade como se fosse lá – apesar de nos créditos notarmos que o Uruguai serviu de "dublê" em diversas ocasiões -, com passagem por São Paulo, equipe e assistentes em boa quantidade daqui também, atores de lá (com, um grande pé no México, já que o personagem masculino é interpretado pelo neo-astro, Gael Garcia Bernal), idas e vindas, atrizes de língua espanhola, idas e vindas.

Não há como negar que Babenco continua sabendo como filmar e editar com muita classe. "O Passado", é finamente fotografado, dignamente editado, e não dá brechas a serem questionadas nos quesitos relacionadas à técnica de confecção. Mas, se o diretor continua a mandar bem nesse particular da realização, me pareceu ratear bastante em outras questões de extrema pertinência. Um susto: duas das três atrizes do filme não conseguem um desempenho digno da fama de exigente de Hector - ele é reconhecido por ser meio tirânico com seus atores, o que fazia com que conseguisse (idéia defendida por alguns), normalmente, desempenhos acima da média comum, cá por em nossas paragens. Nesse filme ninguém vai extremamente bem em frente das lentes – certo, Gael não vai mal, mas também titubeia quando seu personagem passa a viver outras "realidades" que não a do homem comum, assediado e apaixonado; e isso passa pelo famoso crivo de qualidade Babenco. Para mim, a ponto de surpreender.

Outra faceta não tão desgastada nos momentos de "acusação" ao cineasta – a de ser machista, à pior maneira Argentina; generalizadamente falando -, parece se intrometer nos destinos e caracterizações das personagens femininas. Dizem que no livro elas já são bastante estereotipadas – como loucas, ou carentes, ou histéricas, ou dependentes. Mas no filme, isso – que poderia ter sido "relativizado" (sei, lógico que é opção de obra, aceitamos e malhamos ou elogiamos; sei) – parece ter-se tornado uma má muleta para a fluidez da narrativa. Conforme o filem avança, a primeira mulher de Rimini, Sofia, vai-se desfigurando da imagem de pessoa apenas carente por um ex e longo casamento, para transformar-se – inclusive com maquiagem das mais pendengas – em uma pobre coitada, pouco dona de seu juízo, capaz de coisas das quais somente uma "mulher mal-amada" é capaz. O desvio óbvio que o filme toma na perda da lógica dos personagens que pelos maus tratos da vida, é muito mais cruel com as mulheres – para Gael sobra a tentativa, o "não enlouquecimento de cartilha".

E creio que tal maneira de observar e caracterizar a alma feminina sejam o suficiente para fazer com que um filme bem filmado e editado perca pontos. As situações, que tomam cores fortes e cara de caricatura, maculam a obra. Babenco não se mostra tão feliz ao final, e as impressionantes elipses citadas por alguns me pareceram colocar mais o filme numa não lógica temporal que incomoda bastante, por aspectos até plásticos – envelhecer, por exemplo - pouco críveis.

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