AMOR EM JOGO:


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Original: Fever Pitch
País: EUA
Direção: Peter Farrelly, Bobby Farrelly
Elenco: Drew Barrymore, Jimmy Fallon e Miranda Black.
Duração: 104 min
Estréia: 02/09/2005
Ano: 2005


"Amor em Jogo" - Uma nova Drew Barrymore


Autor: Cid Nader

Se perguntarmos a qualquer cinéfilo mais "engajado", qual a grande dupla de irmãos cineastas da atualidade? A resposta, invariavelmente, recairá no nome dos Dardenne - nada mais justo! Se a questão for optativa, e colocarmos na disputa com os belgas o nome dos irmãos americanos, Farrelly, além da quase unanimidade de respostas se manter na mesma dupla, provavelmente receberemos, de quebra, alguns muxoxos, um outro tanto de risos, além de negativos "meneares" de cabeça - acompanhados por sorrisos irônicos de canto de boca - e, provavelmente, ameaças de manifestações fisiológicas que não valeria aqui explicitarmos.

Mas quem, por força de seu posicionamento "xiita", se recusa ao menos tentar observar com um pouco mais de critério e lucidez o trabalho da dupla yankee, está perdendo a oportunidade aproveitar um cinema que transita por caminhos não ortodoxos, mal comportado, um tanto quanto anárquico, que sapateia sobre o bom comportamento careta, moralista e "politicamente correto", que é cartilha do pensamento retrógrado vigente em boa parte dos USA.

“Débi e Lóide”, seu primeiro grande sucesso de bilheteria, não me arrancou suspiros à época de seu lançamento. Muito pelo contrário, causou-me repulsa pelo tipo de trabalho que "se pretendia cinema" e não "passava de mais uma estupidez", imposta a nós pela máquina de massificação representada pelo cinema norte-americano.

Com seu outro grande sucesso, "Quem Vai Ficar com Mary?", estourando em arrecadação, de um humor escatológico a toda prova, onde não se respeitava, sequer, a amizade e fidelidade um simples cachorrinho, consegui começar a me livrar de arraigados preconceitos, passando a compreender o verdadeiro significado da proposta desses dois amalucados e inconformados realizadores.

Vários trabalhos depois, e já devidamente classificados no ranking de grandes diretores, na avaliação de apreciadores e críticos, surgem agora com um novo filme, "Amor em Jogo", feito sob encomenda pela Flower Films, de propriedade de Nancy Juvonen e Drew Barrymore, que é também a atriz principal da história e que escolheu para parceiro na trama, Jimmy Fallon - ator mais conhecido por seu trabalho no programa de tv, "Saturday Night Live". Trabalhos feitos sob encomenda, dão sempre um certo medo quanto a seu resultado - possibilidade de ingerência por parte dos produtores, por exemplo. Mas no caso de "Amor em Jogo", o resultado ficou pra lá de satisfatório - apesar de alguns o considerarem um filme menor. Não é!

É, com certeza - ou não -, um trabalho atípico na carreira dos Farrelly, que enfatiza o lado romântico da obra - já não era assim em "Quem Vai Ficar com Mary?". Conta a história de um professor, Ben Wrightman, fanático e aficcionado torcedor do "Boston Red Sox" - equipe de beisebol, para quem não sabe - que se apaixona, e vê tal sentimento correspondido, por uma consultora de negócios, Lindsey Meeks.

Naturalmente, sua ligação de pele com o time de coração, gerará conflitos e típicas manifestações de ciúme por parte de Lindsey -situação que será o fio condutor da história -, mas que trará grandes e emocionantes momentos, inclusive ao nos brindar com uma frase de teor quase filosófico, num momento de contemporização: "o esporte é algo exato, com regras definidas, meio que matemático; não ambíguo como a vida".

O humor escatológico e non-sense comparece também, como no momento do primeiro encontro ( não contarei ), definitivo para selar o encantamento entre o casal; ou no momento em que se reúnem para abrir a correspondência que traz os ingressos de toda a temporada, quando um dos companheiros de torcida comparece devidamente paramentado, recém fugido do trabalho. Tem também os 60 anos do pai de Lindsey com "marco psicológico", uma comemoração desembestada em frente às câmeras da ESPN etc.

Os diretores investem também, e aí um diferencial em relação aos trabalhos anteriores, num certo caráter antropológico - com todo o respeito pela liberdade que tomo ao usar o termo científico - ao nos mostrar com extremo carinho e cuidado, os seres que habitam as arquibancadas de um estádio, com suas superstições, história e paixão pelo time; os que sobrevivem vendendo hot-dogs e, numa comovente cena de comemoração, com torcedores extasiados, bêbados e felizes, à margem e nos vãos da ponte de um rio - provavelmente "Mystic River".

Lindo e tocante o momento em que todos cantam, no estádio, "Sweet Caroline" de Neil Diamond. Os "Red Sox" talvez estejam devendo uma à equipe do filme: "Bye bye bambino".

Drew Barrymore surge alguns quilos mais magra, causando um certo estranhamento a nós, fãs apaixonados, já acostumados com suas lindas e delicadas curvinhas. Mas no decorrer do filme nos acostumamos, e conseguimos ver o quão linda continua, com sua beleza à antiga - olhos grandes e tristes - explodindo na tela, numa festa em que usa uma peruca de cabelos curtos e negros, ou num momento, perto do final, em que transgride a regra dos esportes numa graciosa corrida.

Vale lembrar, que na comparação com os irmãos Dardenne, os Farrelly levam a vantagem de terem filmado outras duas deusas do cinema: Gwyneth Paltrow e Camerón Diaz.

Para terminar: não levante e saia correndo da sala de cinema após o término do filme. Aguarde mais um pouco; converse baixo com seu acompanhante, ouça as músicas - muito legais - que acompanham a apresentação dos créditos finais. No final, bem no finzinho, você será recompensado por 4, 5, 10 segundos da mais autêntica e singela manifestação de felicidade.
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