PIAF - UM HINO AO AMOR:


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Original: La Môme
País: França/Inglaterra/República Tcheca
Direção: Olivier Dahan
Elenco: Marion Cotillard, Sylvie Testud, Pascal Greggory, Emmanuelle Seigner, Jean-Paul Rouve, Gérard Depardieu, Jean-Pierre Martins.
Duração: 140 Min.
Estréia: 12/10/07
Ano: 2007


"Piaf - Um hino ao amor": pleonástico


Autor: Fernando Watanabe

A imagem mais forte de todo o filme talvez seja uma em que Edith Piaf, já perto do fim, está sentada no jardim. O enquadramento é próximo, e num elegante movimento de câmera para trás, o quadro se abre, diminuindo o tamanho da personagem e revelando o ambiente campestre tranqüilo e desolador. Essa imagem causa uma sensação de melancolia extrema; momento que resvala o sublime. E é justamente a sublimação que parece ser uma das necessidades motriz da personagem, seja via a arte, seja pelo amor. Ao final, claro, a mensagem é para que todos acreditem no amor. Ainda sobre essa imagem em questão, além dela ser plasticamente bela, porque ela é tão forte? O que ela nos diz? Ou, será que extrai sua força do sentido que comunica intelectualmente ou seu efeito se dá de forma sensorial? Porque diabos está-se gastando (quase) todo um texto para se falar de um único plano?

Ele é belo em função da montagem operada ali. A cena anterior é uma festa de virada de ano, onde, em meio ao clima de euforia generalizada, Piaf trava – no filme - o primeiro contato sexual/romântico significativo com um homem. O volume da festa é reduzido, e planos e contraplanos da troca de olhares entre ela e ele se alternam. Aberta a brecha para o “amor”, ela volta à “normalidade” da situação, para a comemoração tresloucada. Ótima cena que remete ao futuro: é virada de ano, o que simboliza perspectivas em vista, e o desenrolar da relação dela com aquele homem também está por vir. Corte para a imagem que aqui está em questão, e o resultado é um looping sensorial. Sai-se da expectativa de luz direto para o fim do túnel escuro. Racionalmente, podemos entender: não importa o que passou ou passará, o final é o mesmo, a morte. No final, a solidão humana impera. Em termos de idéia é um raciocínio fácil e apelativo, mas sensorialmente a imagem traz impacto, ainda mais por ser a primeira vez que se mostra Piaf naquele estado decrépito.

No entanto, após esse momento a montagem insiste em ir incluindo cada vez mais doses da Piaf em fim de vida, contrapondo sua vida de jovem ao final melancólico. O fim da vida dela encontra-se banalizado e, pior, essa montagem alternada nem sempre evolui segundo um desenvolvimento emocional, mas, parece se contentar em dar “uma variada”entre presente e passado, passado do passado, futuro do presente e demais variações cronológicas. Já que tudo é passado mesmo e a vida da cantora já é conhecida (?) então em tese se estaria livre para se sambar desse jeito. Mas esse painel parece deixar o filme longo, longuíssimo, uma vez que perde-se toda a oportunidade de explorar mais as situações sempre montadas de maneira um pouco ligeira demais, cortadas no ponto em que alcançam significado narrativo quando apenas estão iniciando imersão, para depois serem atropeladas por um letreiro “20 anos depois”. Num filme ancorado em uma personagem, difícil se contentar com pontuações sobre sua vida, a não ser que estejamos lendo um resumo biográfico na Internet.

O filme parece, mas não chega a formar um mosaico. Cada cena é muito bem encaixada narrativamente, cada uma delas está relacionada de maneira obviamente causal ao que veio antes ou depois. Está-se construindo uma narrativa clássica que tenta embaralhar as coisas um pouco apenas para que uma suposta linearidade da vida não se torne tediosa.

Pensando assim, o melhor de do filme está na sua galeria de personagens secundários e nos fragmentos não-narrativos que, aliás, podem ser vistos como a mesma coisa: fragmentos. Os momentos mais instigantes são aqueles mais soltos, onde a sugestão impera sobre a narração conclusiva. Por exemplo, quando Piaf se prepara para sair acompanhada de Jean Cocteau, que não aparece mas tem seu nome falado, diz-se que ele a aguarda, mas um contratempo faz com que ela tenha que se atrasar um pouco. Um homem qualquer surge na tela e fala para fora do quadro “teremos que esperar ela mais um pouco”. É Jean Cocteau que estaria ali fora de quadro, nunca mostrado, mas com forte presença na narrativa, pelo peso de seu nome. Assim como na véspera de uma apresentação é dito para Piaf que Cocteau e o músico Azvanour, entre outros, estão na platéia para vê-la cantar. Naturalmente nenhum deles é mostrado quando a apresentação começa. Piaf é o centro do mundo, e em volta dela circulam os “outros”, fantasmas, quase todos sem identidade e abafados pela personagem hiper forte protagonizada em tom alto por Marion Cottilard. Também a prostituta (Emanuelle Seigner) que ajuda a criar a pequena Edith e a fiel escudeira Momine (Sylvie Testud) se somam às “presenças” espectrais dos citados, formando assim uma galeria de fantasmas altamente atraentes. Eles são fragmentos dispersos, eles nos instigam. São eles que criam um novo imaginário. Já de Piaf, por mais contraditório que isso possa parecer, não nos é fornecido nada além daquilo que já esperávamos de uma personalidade famosa que, quando retratada na tela com alta dose de condescendência, corre sério risco de se anular pela caricatura. Reiteração do imaginário.

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