PROPRIEDADE PRIVADA:


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Original: Nue Propriété
País: Luxemburgo / Bélgica / França
Direção: Joachim Lafosse
Elenco: Isabelle Huppert, Jérémie Renier, Yannick Renier, Kris Cuppens, Patrick Descamps, Raphaëlle Lubansu
Duração: 95 min.
Estréia: 05/10/07
Ano: 2005


Mas tem Isabelle Huppert


Autor: Cid Nader

Bélgica, tão idealizada e invejada por aqui pelo seu alto padrão de vida, por sua condição de terra civilizada e organizada, país de primeiríssimo mundo, de gente educada e culta e que preserva muito a intimidade – com pessoas de comportamento recatado, introvertido e respeitador das diferenças -, nos vem sendo apresentada, via cinema, como mais um exemplo típico de país primeiro-mundista em fase de recessão material e moral, por onde caminham desajustados sociais, desempregados, e seres perigosos em seu comportamento mimado e egoísta. A boa nova – artisticamente falando – é que tal representação e apresentação de uma sociedade desconhecida ao nosso imaginário chegou primeiro através das lentes e do trabalho maravilhoso e atípico desenvolvido pelos irmãos Dardenne. Já, a não tão boa novidade artística assim, é que "Nue Propriété", dirigido por Joachim Lafosse, representa o antigo – pelo desconhecimento – cinema belga: sem tradição, sem parâmetros de comparação e sem história razoavelmente firmada.

Enquanto os Dardenne realizam um cinema "social", amparado pela novidade estética, pelo "autoralismo", pela excelência na postura discursiva a respeito dos assuntos propostos, esse novo trabalho tem um início assustador, quando pega carona em um tipo de cinema que aposta forte em figuras desajustadas – no caso, a dupla de irmãos, mimada, de comportamento infantil e egoísta, apesar de idade já "razoavelmente" avançada para tal comportamento -, maximizando ao extremo o seu comportamento não padrão, como opção de choque moral; um tanto gratuito. O filme caminha por longo tempo se sustentando com esse pequeno truque – que, não me perguntem o por quê, agrada a um certo tipo de público – mas consegue um a guinada positiva quando abandona o embate de choque mais visual, para adentrar no campo das idéias mais explicitadas, das desavenças colocadas na mesa, das desinteligências com suas motivações fúteis. Isabelle Huppert, consegue criar um personagem um tanto atípico em sua carreira, de mãe medrosa, indecisa, escravizada pelo apego anormal aos filhos; e isso o ponto mais positivo do filme.

O trabalho do diretor passa a ganhar bom ritmo – e mais crível, também -, os personagens começam a ter as nuances comportamentais mais bem delineadas, e o tom seco e "rígido" adotado no modo de edição do filme mostra mais a sua razão "útil" de ser. Só que todo filme tem que ter um final, e Joachim Lafosse é – aparentemente – da corrente que defende a catarse extremada como melhor maneira de fechamento e cria um desfecho, no mínimo, questionável. Apesar de toda uma seqüência - que entremeia esse momento de "clímax" emocional – tremendamente bem imaginada e executada (com a câmera fixa, no rosto de um dos personagens, enquanto toda o resto da ação é observado à direita da tela, ao longe), resta um gosto de: "mas seria mesmo necessário isso?".

Filme visto na Mostra Internacional de São Paulo de 2006
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