TROPA DE ELITE:


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Original: IDEM
País: Brasil
Direção: José Padilha
Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Fernanda Machado, Fernanda de Freitas, Maria Ribeiro, Milhem Cortaz
Duração: 110 min.
Estréia: 05/10/07
Ano: 2007


"Tropa de Elite": Matias é o seqüestrador do ônibus 174


Autor: Cesar Zamberlan

“Tropa de Elite” é o filme brasileiro do ano. É o mais polêmico, o mais visto – mesmo que dificilmente alguém consiga precisar quantas pessoas viram a cópia pirata antes da estréia – e também o mais “eficiente” em termos narrativos - daí seu sucesso. Chamo de eficiência narrativa, a união de todos os dispositivos narrativos envolvidos no filme: o contar a história. Porém, não confundamos eficiência narrativa com excelência narrativa ou a qualidade artística, mesmo porque não parece essa a intenção do diretor. E nesse sentido, e não pelo tema, obviamente, “Tropa de Elite” aproxima-se muito de “Dois Filhos de Francisco” de Breno Silveira, outro grande sucesso do cinema brasileiro recente, cujo maior mérito era justamente esse certeiro diálogo com o público.

“Tropa de Elite” como “Dois Filhos” é muito bom naquilo que se propõe: roteiro justinho, atores bons e bem escalados, um certo humor nos diálogos, fluência narrativa e aquele jeitão de filme norte-americano que tanto agrada aqueles que nasceram e cresceram vendo os filmes vindos da terra de Bruce Willys. O roteiro parece seguir a risca muito dos mandamentos de Syd Field: tem a tensão certa na hora certa, a piada certa na hora certa e uma narrativa em primeira pessoa que, além de criar uma forte empatia entre narrador e público, é de um didatismo ímpar. A narração está ali sempre, onipresente mesmo, ilustrando e comentando as cenas, falando por elas, significando, muitas vezes, aquilo que as imagens por si só não dizem. Não há em “Tropa de Elite” uma imagem ou cena marcante, nenhum plano ou seqüência espetacular. Há, sim, uma história sendo narrada, um depoimento sendo ilustrado. Talvez uma ou outra cena até atinja estômagos mais sensíveis, por mais atenuadas e maquiadas que sejam, mas nenhuma delas permanece na retina por mais tempo.

A imagem mais destoante - que possibilita algum rendimento além da história narrada e a partir da qual pretendo construir esse texto – é a cena que a câmera recebe respingos de sangue lá pro final do filme. Há ali uma quebra no funcionamento do dispositivo, pois olhar da câmera não incorpora o olhar do personagem, não é uma câmera subjetiva. O sangue ali ao pingar na câmera, nos faz lembrar que aquilo é um filme, uma representação. Essa imagem aparece apenas alguns planos antes da cena que vai determinar outra quebra: o rompimento ou não do “ethos” do único personagem que, até então, conseguia se manter na corda bamba entre a selvageria que a profissão exige e a humanidade cristã que lhe fez escapar dessa selvageria. Há ali uma ruptura, um corte, um filme interessante. O tiro de misericórdia, o tiro no rosto, imagem abafada pelo fade in, representa o retorno ao ponto de partida, a volta ao mesmo. Não por acaso – e sem querer fazer trocadilho com outro filme brasileiro que fala de ciclos – ali, na substituição do líder, o fim marca um novo início. O início do reinado de Matias é a sua morte e o fim da liderança de Nascimento, que, aliás, acabara de gerar um filho, é o seu nascimento, pois a partir dali ele estará livre. Ele, sim, conseguiu, escapar.

No seu trabalho anterior, o documentário “Ônibus 174”, José Padilha já trabalhava esse tema, colocando o indivíduo como peça de um sistema que o engole. Uma visão de certa forma determinista que é recolocada num outro contexto pela citação de Stanley Milgram no início de “Tropa de Elite”. Milgram publicou um estudo na década de 60, em Yale, no qual afirmava que pessoas comuns podem agir de forma sádica ou violenta quando tem que se submeter a uma autoridade. No ônibus 174, o seqüestrador, seqüestrado por uma conjuntura social que lhe tirava a possibilidade de escolher seu destino, é cercado e ao se entregar, recebe o “tiro de misericórdia”. Em “Tropa” é Matias que se vê obrigado a atirar, mas ele poderia muito bem estar na posição do traficante. De uma forma ou de outra, Padilha parece querer dizer que Matias, devido a sua origem, não tem como escapar. Ao dar o tiro no lugar de Nascimento e "obrigado" por este, ele atira em si mesmo e "morre".

Esse espelhamento está também representado pela doação dos óculos que “farão” com que o garoto enxergue e possa estudar, gesto que Matias faz questão de retribuir. A atitude, altruísta, é o elemento desencadeador da própria tragédia de Matias. O erro tão fundamental a estrutura da tragédia. Porém, não é ele que vai levar os óculos ao menino. Devido a uma entrevista com o advogado que pode lhe tirar daquele “seqüestro”, vai o amigo. Mas, morto o amigo, “é preciso vingá-lo”. Vingando-o, é ele que está preso àquela situação e não poderá mais aceitar a oportunidade de emprego como advogado. Fuga que seria, em tese, a sua libertação. Voltamos, portanto, de novo, ao início. A esse jogo de duplos entre nascimento e morte que no caso de Matias, do traficante, do seqüestrador do ônibus 174 e do menino que recebeu os óculos é praticamente a mesma coisa.

Esse tipo de leitura, determinista, reacionária - como queiram - incomoda como o sangue que suja a câmera e nos faz voltar à realidade que aquilo ali é apenas um filme. Até porque não é apenas um filme, ainda que muitos queiram apenas se divertir e se entreter com um filme que em tese é igual e eficiente como tantos outros, ou queiram participar com camisetas brancas de passeatas contra a violência ou de desfiles como o “cansei”. Se em “Cidade de Deus” o castigo era o tiro não mão, aqui o tiro é no rosto.

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