NAÇÃO FAST FOOD :


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Original: Fast Food Nation
País: EUA/ Inglaterra
Direção: Richard Linklater
Elenco: Greg Kinnear, Catalina Sandino Moreno, Ethan Hawke, Luis Guzman, Patricia Arquette, Kris Kristofferson, Esai Morales, Paul Dano, Wilmer Valderrama, Bruce Willis, Avril Lavigne.
Duração: 113 min.
Estréia: 28/09/07
Ano: 2006


Nação sem noção


Autor: Érico Fuks

Avril Lavigne, uma das mais festejadas cantoras pop do universo teen, nada mais é do que uma patricinha fazendo caras e bocas para parecer rebelde. Canta meio gritado, usa piercings e maquiagem carregada, mas veste as mais milimetricamente rasgadas roupas de shopping. Se estivéssemos nos anos 80, diríamos que a diva pop, um dos cachês mais bem pagos do mainstream musical, é punk de butique. Numa rápida aparição de coadjuvante, fazendo o papel de uma ativista ecologicamente correta, ela está reunida com o grupo para discutir como eles vão transformar o mundo. Numa das cenas desse contexto, aparece um pôster quase subliminar, ao lado de Avril, tentando dividir as atenções. O material é da Merge Records, selo independente do cenário musical norte-americano. Esse recorte diz muito das proposições de “Nação Fast Food” e da visão de mundo de Linklater. A cantora se faz de agressiva, contra tudo e contra todos, mas sua voz de protesto foi engolida pelo sistema. E a Merge, não fosse desenhada como artigo de luxo no filme, seria a representação da pedrinha no sapato que tenta a qualquer custo ter vida própria dentro desse sistema esmagador e massificante.

“Nação Fast Food” é, no máximo, uma parábola do modo capitalista moderno. Não serve de denúncia, pois tudo o que se mostra e o que se esconde já se tornou conhecido do público. Livremente inspirado no Mc Donald’s, o maior e mais apedrejado conglomerado de rápido-a-comer do planeta, o filme se inicia com um dúbio paralelismo à la Iñarritu. De um lado está o conforto. O otimista Don Henderson (Greg Kinnear), executivo de marketing da rede de lanches Mickey, está numa reunião para comemorar os resultados de vendas do carro-chefe, Big One. Recebe a dupla tarefa de criar um upgrade para este sanduíche e ao mesmo tempo averiguar de perto os fatos que levaram a uma boataria de que haveria uma quantidade muito grande de coliformes fecais na carne bovina dos sandubas da rede. Nos entrecortes do longa aparece a miséria: uma horda de mexicanos tentando entrar ilegalmente nos Estados Unidos, submetendo-se a sub-empregos e a receber um tratamento indigno. O cartão-postal dessa visita inóspita é o personagem de Luiz Guzmán, motorista do cata-louco incumbido de levar os semi-indigentes ao sonho e aos dólares da Terra do Tio Sam. Guzmán é por si só uma figura emblemática. Igualmente clandestino, entende o aperto dessa população invisível, mas é nela que vê a possibilidade de ganhos ilícitos. Não se comove com a causa nem se sensibiliza com as mulheres e crianças, mas também não os maltrata como os outros o fazem. Conversa calmamente com os imigrantes assustados dizendo que está ali para ajudar mas, junto com o bom-mocismo desse discurso benfeitor, ele carrega uma arma e adverte que irá matar quem trair sua confiança.

Linklater, um diretor que tem mostrado uma trajetória irregular, parece que ainda está procurando sua veia. Em “Waking Life” e “O Homem Duplo” expõe uma profusão de idéias que parecem ter saído de sua cabeça. Além das semelhanças estéticas entre ambos, que partem do real fotográfico para se atingir o “artístico” do pictórico, existe também uma similaridade de construção narrativa. Os dois falseiam um ineditismo que nada mais é do que compilações confusas de frases feitas. No primeiro, jorra intermináveis solilóquios de orelha de livros de Filosofia. No segundo, um pouco mais solto, coloca voz a textos que, pela sonoridade, parecem extraídos de romances noir policialescos. Já em “Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol”, trabalhos muito mais vivos e orgânicos e com um mise-en-scène muito mais motivado, o diretor dá livre espaço aos seus personagens. Tudo flui com muito mais clareza dentro de uma fórmula simples e eficiente: ator contracenando com ator. Ethan Hawke e Julie Delpy não estão ali para provar visões de mundo alheias nem para envernizar tratados científicos pesados, muito menos reproduzir discursos impressos em outras praias. O que eles têm a dizer um ao outro é o que eles têm vontade de dizer um ao outro, e ponto final. Se nos primeiros exemplos citados se estabelece um diálogo do diretor consigo mesmo, e nos exemplos seguintes o diálogo é entre os interlocutores do passeio de um só dia, então com quem se pretende conversar em “Nação Fast Food”? Até que ponto o que se extrai das falas dos personagens é a visão irônica e pessimista de Linklater e onde começam as crenças dos próprios protagonistas? Quem seria e onde está o mediador dessa sátira crítica do mundo em que vivemos e da carne que comemos?

Ainda é cedo pra dizer se esse caminho menos autocentrado é um avanço para o cinema de Linklater, mas ao menos mostra um diretor mais amadurecido. Aqui se peca em dar menos intensidade aos protagonistas, que surgem e se esvaem a todo instante, numa tentativa precária de se copiar o estilo de Altman e do cinema mais autoral de Soderbergh. Entretanto, o modo tosco e hilário de apresentar as soluções cinematográficas para a falta de soluções ideológicas compensa essa falha. Bruce Willis, a melhor fatia do guisado, dá um show de bola em sua canastrice inerente. Para seu personagem, o fornecedor das carnes, o verdadeiro culpado da investigação de Henderson, os americanos andam encanados demais com medidas higiênicas tão politicamente corretas quanto gastricamente hipócritas. Para se acabar com toda a merda do mundo, basta fritar um pouco mais o hambúrguer.

Se acreditasse mais no cinismo de seu cinema laissez-faire não levado a sério (ninguém mais precisa de acompanhamentos médicos e de panfletarismos vegetarianos de um “Supersize Me” da vida), Linklater seria capaz de produzir um filme mais cáustico. Perde a mão quando começa a ficar literal demais. Que o sistema é maior que as pessoas, que a máquina produtiva engole o indivíduo, isso está bem claro em seu trabalho. Mas mostrar uma cena de acidente de trabalho em que uma perna é degolada já é um exagero. Ainda assim, “Nação Fast Food” é um filme mais propenso a incomodar do que se acomodar. Sinal de que a chapa de Linklater está em alta temperatura pra combater a podridão das gororobas cinematográficas medíocres e mal-passadas.

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