O HOMEM QUE DESAFIOU O DIABO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Moacyr Góes
Elenco: Marcos Palmeira, Helder Vasconcelos, Flávia Alessandra, Fernanda Paes Leme, Lívia Falcão, Leandro Firmino da Hora, Otto e Giselle Lima.
Duração: 106 min.
Estréia: 28/09/07
Ano: 2007


"O Homem que desafiou o diabo": um filme de... Moacyr Góes?!


Autor: Marcelo Miranda

A comédia-regionalista-popularesca pode acabar se tornando um subgênero dentro do audiovisual brasileiro. Curioso é que isso se deve menos à quantidade de filmes no estilo do que o impacto causado no espectador. Fiquemos com "O Auto da Compadecida" e se terá a noção plena do que falamos aqui. O filme de Guel Arraes conjuga as características que se imagina ter uma comédia-regionalista-popularesca: cortes e diálogos rápidos, situações fora da lógica, malandragem dos personagens, "jeitinho" brasileiro e um efervescente caldo de cultura popular regional. Acrescente atores em estado de graça com roteiros cheios de surpresas e aventuras e tem-se a receita de sucesso. O contra-exemplo? "A Pedra do Reino", minissérie de Luiz Fernando Carvalho que fracassou em audiência – e coincidentemente ou não, ela não seguia todos os "preceitos" levantados anteriormente para o sucesso. Ainda que contivesse os tais atores em estado de graça, a linguagem era absolutamente entrecortada, não havia um eixo a ser seguido e o humor das situações dividia espaço com profundas discussões sobre o próprio fazer artístico.

Eis que nos vem, para contrabalançar, este "O Homem que Desafiou o Diabo". De cara, duas diferenças com seus primos anteriores: nasceu diretamente para o cinema (enquanto os outros dois foram feitos para a TV) e não é inspirado em Ariano Suassuna. Se isso pesa no resultado que nos vem da tela eu não saberia dizer com exatidão, mas que o filme fica bastante atrás dos supracitados, ah, isso dá para falar sem muita apreensão. O que não significa que seja destituído de interesses. Até pelo contrário: "O Homem que Desafiou o Diabo" tem capacidade de cativar muito por conta do manancial de personagens que surgem em profusão, ao longo da saga de Ojuara, personagem-título interpretado por Marcos Palmeira. Ele representa muito do que se imagina de um aventureiro tipicamente brasileiro: é movido a cachaça, não recusa um rabo-de-saia e tem como maior de seus sonhos chegar a uma espécie de paraíso em que as cachoeiras são de leite, a comida dá em árvore e o trabalho é desnecessário. E não é isso que todos queremos?

Pois Ojuara vai atrás, e essa a saga que o filme nos narra. Um road movie repleto de encontros com figuras sempre muito estranhas – de prostitutas covardes a bruxas taradas, de corcundas simpáticos ao capeta em pessoa – que parecem representar caricaturalmente a região do norte do país onde a ação se passa. "O Homem que Desafiou o Diabo" consegue dar razoável conta de todos esses núcleos que se abrem ao longo da trajetória do protagonista, ainda que o filme careça de ritmo. Em especial nas cenas de humor, isso fica patente – está tudo lá, todos os elementos necessários para o riso. E ele não vem. Ou, se vem, é mais pela própria esquisitice do que é mostrado, e não necessariamente pela forma como isso nos aporta no olhar.

Aí chegamos ao momento mais adiado. "O Homem que Desafiou o Diabo" é um filme dirigido por Moacyr Góes. Ele mesmo, o operário-padrão do cinema industrial brasileiro que, num único ano (2003), colocou no circuito quatro longas-metragens. Ato supostamente louvável em se tratando da pindaíba dos produtores nacionais, mas basta olhar os títulos para a ilusão desabar: "Maria – Mãe do Filho de Deus" (com o padre Marcelo Rossi), "Um Show de Verão" (com Angélica e Luciano Huck), "Xuxa Abracadabra" (dispensa apresentações) e "Dom" (malfada adaptação do maior clássico de Machado de Assis). Góes ainda teve o despautério de realizar "Trair e Coçar é Só Começar" no ano passado, fora outro filme com o padre-pop ("Irmãos de Fé") e mais dois com a Xuxa.

Em vista de um currículo desses, como levar a sério um projeto de Góes? Mais que isso: o que esperar da adaptação de um romance regionalista que tenha Marcos Palmeira no papel principal? Pois aí mora a maior e mais grata surpresa de "O Homem que Desafiou o Diabo": o filme não é um desastre dispensável. É claro que estão lá alguns maus hábitos de Góes, entre eles a já comentada falta de ritmo interno das cenas e o jeito por vezes despreocupado e pouco caprichoso para o enquadramento. Mas inexistem momentos de absoluto constrangimento ou mesmo a falta total de um mote a ser seguido. Por mais falhas que possua, e não são poucas, a narrativa do filme é costurada de maneira harmônica e há um frescor que permite ao espectador respirar e aproveitar os acertos.

Obviamente que, admitamos, a sensação de se divertir num filme de Moacyr Góes não é das mais confortáveis. Estaremos nós mudados ou mudou ele? Eis que, nos créditos finais, ao som de Gilberto Gil, surge o nome de Guel Arraes como "produtor associado". Associação que seja, fica claro que o filme tem muito das mãos (e pensamentos) de Guel. É como se Moacyr Góes tivesse dirigido tudo e depois pedido a Guel para dar uma olhada com liberdade absoluta. E este tirou todas as "barrigas" e deixou o que de melhor Góes conseguiu fazer. Claro que é pura fantasia da cabeça do crítico, mas seja lá como o processo aconteceu, é preciso dar algum crédito: "O Homem que Desafiou o Diabo" vai entrar para o imaginário do cinema brasileiro como o momento em que Moacyr Góes fez um filme acima do sofrível, ainda que abaixo do excelente. Já não é pouca coisa.
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