GAIJIN – AMA-ME COMO SOU:


Fonte: [+] [-]
Original: idem
País: Brasil
Direção: Tizuka Yamazaki
Elenco: Tamlyn Tomita, Jorge Perrugoría, Nobu McCarthy e Zezé Polessa
Duração: 131 min
Estréia: 01/09/2005
Ano: 2005


Gaijin – Ama-me Como Sou: Sushi com feijoada indigesto


Autor: Érico Fuks

O 33º Festival de Gramado vem confirmar, de maneira mais incisiva e gritante que os anos anteriores, que a cidade serrana gaúcha é ótima pra acolher turistas, mas ainda não tem olho clínico pra abrigar o cinema brasileiro. Seus vinhos e chocolates podem até representar uma safra inquestionável de qualidade; já não se pode dizer o mesmo sobre aquilo que é exibido para uma população mista de cinéfilos, jornalistas e, principalmente, celebridades.

Cada vez mais repudiado pelos críticos e cada vez mais badalado por aspirantes a notáveis, o Festival firma-se progressivamente como um projeto turístico da cidade, ao invés de se preocupar com questões fundamentais sobre os rumos do nosso cinema. Que, diga-se de passagem, está muito mais afinado com Fernando Meirelles e Lírio Ferreira do que com Paulo Nascimento.

Esticando seus tapetes vermelhos a personalidades, rostos globais conhecidos mas, por outro lado, oferecendo a profissionais sérios, porém incógnitos uma infra-estrutura que deixa a desejar, é nítido que o que está em primeiro plano é a paridade ao modelo televisivo de dramaturgia, não a análise crítica e imparcial de um panorama atual do cinema brasileiro. Para a organização do Festival, o que importa são os holofotes, os tititis, a conquista de terreno na mídia. Nesse aspecto, tudo indica que os passos que tal evento toma são a construção de um modelo reduzido e brazuca do Oscar, a partir de seus defeitos e não de seus méritos.

Por conta da repercussão no mínimo discutível dos últimos resultados dessa competição, corre a boca pequena que certos diretores “guardam” seus filmes recém-finalizados para outros festivais de maior credibilidade, como Brasília e Ceará. Para estes cineastas, submeter seus filmes à apreciação de um público noveleiro e de um júri relativamente pouco qualificado é, literalmente, “queimar o filme”.

Com a diminuta oferta de bons trabalhos a ser contemplados, é comum se fazer uma espécie de distribuição de troféus a todos os concorrentes. Cada um leva seu quinhão, todos voltam felizes pra casa. Entretanto, apesar da falta de consenso dos jurados, que teve nessa edição Jayme Monjardim como um dos integrantes da bancada, Gaijin – Ama-me como Sou, novo filme de Tizuka Yamasaki, levou muito mais estatuetas do que se poderia justificar por aquilo que passa nas telas. Ganhou quatro Kikitos: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Música e Melhor Atriz Coadjuvante (a estreante e simpática Aya Ono, único prêmio verdadeiramente merecido). Essa esmagadora e pouco criteriosa consagração mostra que quem ganha Gramado é a mesmice, o conservadorismo artístico, as soap operas tupiniquins com cara de megaprodução.

Gaijin deve ser, ao que tudo indica, uma saga familiar. Percorre várias gerações, mas não deixa muito claro qual o foco narrativo que está querendo trabalhar. É contada aos pulos em flashback através do personagem paraplégico Kazumi, que está escrevendo um livro na tentativa de resgatar e preservar as memórias de sua família de imigrantes. Em 1908, após um incêndio que destrói sua casa, a jovem Titoe (apelidada de batyan, que quer dizer “avozinha”) viaja do Japão para o Brasil com uma promessa: enriquecer e voltar em cinco anos. Acaba ficando: constrói sua casa, funda uma escola e trabalha de parteira. Ao contrário da mãe, sua filha Shinobu se mantém fiel aos ideais japoneses. Casa-se com um professor e tem dois filhos, Maria e Kazumi. Shinobu não aceita o casamento da filha Maria (Tamlyn Tomita) com Gabriel (Jorge Perugorria), um gaijin (estrangeiro) que está prestes a fechar um grande negócio quando o Governo Collor confisca suas economias. Shinobu decide então ajudar a família da filha fazendo o caminho contrário e segue para o Japão. Sem alternativa de sobrevivência, Gabriel vai atrás. Mas em 1995, quando a cidade de Kobe é devastada por um terremoto, Gabriel é dado como desaparecido. Inconformada com a notícia, Yoko (neta de Titoe) convence a mãe, Maria, a irem procurá-lo, enfrentando os preconceitos dos japoneses.

Essa tentativa grandiloqüente de abraçar todas as décadas do Século XX é muito mais confusa do que didática. Gaijin tenta dar conta de episódios que nenhum fascículo de História consegue abranger numa leva só. Começa com os pioneiros da imigração japonesa que vieram a bordo do vapor Kasato-Maru, em 18 de junho de 1908. Concentra-se na expansão agrária do país com sua plantação de café, menciona as conseqüências da Segunda Guerra Mundial, passa raspando pelo milagre econômico, até bater na crise econômica atual. Nem mesmo o terremoto japonês e o Plano Collor foram poupados. Se fosse um pouquinho mais pretensioso em sua linha temporal, esticando a saga folhetinesca aos dias de hoje, quem sabe até botaria o 11 de Setembro, os tsunamis e os mensalões nesse saco de referências aleatórias.

Mas, acima dos excessos bibliográficos, o grande problema do filme é não chegar a lugar algum. Sua narrativa fragmentada contempla uma sensibilidade nula. Não dá pra se saber se o filme trata de um percurso familiar pelas suas terras em busca de sua verdadeira identidade, ou se a questão é provar que, em tempos de guerra, só o amor vence. Há determinados momentos em que a gente esquece que o fio condutor é batyan. Em tese, de acordo com a visão megalomaníaca da diretora, todos os terráqueos são gaijins, e de alguma forma sofrem com as discriminações em territórios alheios. “Não sou brasileiro / Não sou estrangeiro / Sou de qualquer lugar / Sou de lugar nenhum”, refrão de música dos Titãs que toca de fundo em uma cena, é o que melhor expressa a visão de mundo tizukiana. Mas também não precisava exagerar. Botar ator brasileiro fazendo papel de personagem mexicano (Luís Melo), que se casa com personagem italiana interpretada por atriz brasileira (Louise Cardoso), mais atriz americana fazendo papel de sansei ou “não sei” que se casa com empresário paulista vivido por ator cubano, é fruto dos mais problemáticos da globalização. Até mesmo o idioma, fator cognitivo de relação de convívio entre os homens, é expressado de maneira risível. Tanto os sotaques quanto as dublagens estão sofríveis. Claro que a língua é um elemento móvel que ao mesmo tempo conserva e transforma as raízes culturais. Mas, da maneira como está, ressalta os problemas desse complicado gagaku do nissei doido.

Com orçamento estimado na casa dos R$ 10 milhões, Gaijin faz questão de ostentar o rótulo de superprodução aos parâmetros nacionais. Há muito mais desperdício de recursos do que impacto visual. Longos travellings ao invés de planos fixos e fechados não trazem, em si, nenhum ganho no significado da imagem dentro do conteúdo narrativo. O filme dá voltas e voltas em torno do objeto filmado, mas em nenhum momento consegue extrair beleza deles. Pelo contrário, há momentos em que esse exagero de chantilis beira a cafonice. Ao invés de justificar o valor investido, a obra alonga-se em trechos cansativos e desnecessários. Gaijin não é um filme bem produzido; é um filme caro. Não há qualquer preocupação em reduzir esteticamente a mensagem aos valores mínimos de significação. Pelo contrário, esbalda-se em paetês na tentativa de maquiar a essência de sua coluna vertebral. E, com isso, agradar um tipo de público que vê em Olga o ápice de qualidade no cinema nacional.

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