MARIA BETHANIA - PEDRINHA DE ARUANDA:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Andrucha Waddington
Elenco: Documentário
Duração: 60 min.
Estréia: 14/09/07
Ano: 2006


Uma câmera que observa


Autor: Anahí Borges

Pode ser sempre um risco escrevermos sobre um documentário que aborda algum artista de quem somos fiéis admiradores. Mas justamente por isso, creio, há um aspecto positivo nessa relação documentário biográfico e espectador-admirador do artista retratado: consiste na possibilidade de imersão emocional no registro documental aliada ao distanciamento crítico que busca coerência no discurso da obra. Sendo assim, ao assistir “Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda” confesso ter tido momentos de epifanias emocionais, de derramamento de lágrimas, mas também de um constante senso racional e crítico, buscando entender e refletir a construção do discurso de Andrucha Waddington. Presente à sessão, o diretor apresentou seu filme em poucas palavras - Maria Bethânia lhe havia telefonado fazendo-lhe uma proposta: no dia seguinte se apresentaria num show em Salvador e no outro seria o dia do seu aniversário de sessenta anos. Queria que Andrucha a filmasse no show e no dia do seu aniversário, a missa e a festa, realizados na cidade de Santo Amaro, sua terra natal. Foi assim, tudo muito improvisado e Waddington disse à artista que não queria fazer um documentário de perguntas e respostas, mas que Bethânia o guiasse como bem entendesse. E o documentário é isso: um olhar simples, uma câmera que observa gestos, sons, olhares de Maria Bethânia, de Caetano, de Dona Canô, um olhar sobre a fé da artista, sua arte, seu amor pela música, literatura, natureza e família. Realizado em digital, sem grandes preocupações com iluminação, foco e enquadramento, o filme transmite uma sensação de registro doméstico. As situações íntimas das personagens, imagens que várias vezes saem de foco, a entrada do boom no quadro em diversos momentos, a câmera instável, são elementos que conjugados adquirem essa forma de filmagem caseira e, por isso mesmo, uma poética coerente com o universo de representação escolhido: o ambiente de intimidade de Maria Bethânia. Certamente não creio que esses elementos amadorísticos eram previamente planejados. Não. Acredito que tenham ocorrido devido às condições improvisadas da filmagem, mas, a partir do instante em que existiram, tomaram forma e foram incorporados ao corpo do filme, colaborando para sua proposta temática. Esse olhar íntimo, de alguém que teve a autorização de entrar nos ambientes particulares de Bethânia é a força do documentário. Fato divisor de águas entre “Maria Bethânia-Pedrinha de Aruanda” e “Música e Perfume”, documentário do diretor francês Georges Gachot.

“Música e Perfume” é um olhar estrangeiro sobre o Brasil e sobre a artista e sua obra. Tem alguma coisa de estéril que me incomoda profundamente. Um olhar acadêmico, fruto de cinco anos de pesquisa sobre a música popular brasileira. Um filme que busca através de depoimentos tanto de Bethânia como de outros artistas da música popular brasileira – Nana Caymmi, Chico Buarque, Miúcha, Caetano Veloso – construir um registro da cantora que, na verdade, corresponde ao interesse maior de retratação da música popular brasileira. De íntimo e particular se tem muito pouco. Tudo é muito verbal e os espaços privados se restringem a camarins de shows e ensaios. As imagens escolhidas para ilustrar canções da artista são um pouco equivocadas com o sentido de sua arte. O filme contextualiza o universo criativo de Bethânia no imaginário nacional de praias, pobreza, singeleza, um Brasil simples, tropical, desigual, melancólico, pitoresco. Evidentemente a política e a antropologia existem em Bethânia, mas de uma maneira bem peculiar, não panfletária. A intérprete de “Roda Viva” assim como de “Gente Humilde” tem uma trajetória significativa dentro do universo de representação social e cultural do Brasil: da seca, do Nordeste, de um país agrário, desigual e familiar, da luta popular, da dignidade de seu povo. Mas o cerne de sua obra é além. Está nos Mistérios. Na vida, nas paixões, na existência, no ser humano e em Deus. Dessa forma, falando ainda de “Música e Perfume”, acho equivocadas as imagens sobrepostas sobre suas canções: cenas de um Brasil pitoresco, de catadores de lixo, de trabalhadores dentro dos ônibus, andando pelas ruas, nas praias, o sol, o mar, os coqueiros, enfim, um repertório estrangeiro e banalizado de significação de um Brasil tido como tal, mas que não ecoa na arte de Bethânia, ou melhor, ecoa muito modestamente.

“Pedrinha de Aruanda”, ao contrário, possui uma introspecção e singeleza que são de outra ordem. Constrói Bethânia a partir de seus ambientes privados e das figuras que valoriza na vida. Não é um filme de depoimentos, mas de gestos. As temáticas da família, religião, poesia e música se apresentam como elementos centrais de sua obra e de sua vida. É um documentário de afetividades que se debruça sobre o amor de Bethânia por aquilo que faz e como o faz. Seja no papel de artista, seja no papel social de irmã e filha, os seus gestos distribuem amor e verdade: quando conversa com as águas da cachoeira se referindo à mãe Oxum, quando relembra seu encanto com o circo, quando está sobre o palco e mesmo nos bastidores do show, quando está com sua família em Santo Amaro. Aliás, as cenas mais bonitas do documentário são as que Bethânia, Caetano e Dona Canô estão cantando em roda. A afetividade, espontaneidade e serenidade presentes nesse encontro familiar se constrõem através de gestos, músicas e olhares entre as personagens, e não por palavras.

Durante o “É Tudo Verdade”, quando assisti ao filme pela primeira vez, Andrucha disse que entraria em cartaz nos cinemas no meio do ano e seria lançado depois em dvd. Agora que “Pedrinha de Aruanda” estreou não sei se essa trajetória compete ao formato e à proposta do filme. Não sei se tem o perfil de um produto para entrar em cartaz ou se cabe a exibições especiais, em caráter de homenagem, por exemplo. Sem dúvida o lançamento será uma vitrine para o dvd que virá em seguida, mas acredito que “Maria Bethânia – Pedrinha de Aruanda” é um filme para um público específico: admiradores e fãs da artista. Como disse no início, sou suspeita de opinar sobre ele, mas o fato é que gostei, e muito, do que vi.

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