QUERÔ:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Carlos Cortez
Elenco: Maxwel Nascimento, Maria Luisa Mendonça e Ângela Leal
Duração: 90 min.
Estréia: 14/09/07
Ano: 2006


"Querô" – grande trabalho de estréia


Autor: Cid Nader

Trabalho de cineasta pouco conhecido no Brasil invariavelmente acaba ganhando ares de odisséia, por vezes, por conta da demora em sua conclusão. O diretor Carlos Cortez – estreante no mundo da ficção, mas já com alguns trabalhos no mundo dos curtas e dos documentários – já vinha trabalhando há alguns anos em cima do texto de Plínio Marcos que emprestou alma a essa produção, com seguidas pesquisas de campo realizadas na zona portuária da cidade de Santos. Mas estamos no Brasil e tudo aparece como empecilho para atravessar os caminhos de diretores "estreantes", principalmente a falta de investimento nacional (nota-se ostensivamente nos créditos iniciais que França e Itália acabaram por participar da empreitada). Trabalho demorado para ser concretizado, expectativa se multiplicando a cada esquina. E eis que surge o filme, após ter causado um certo alvoroço no já distante Festival de Brasília do ano passado, onde arrebatou o prêmio de ator para o moleque , ator não profissional, Maxwell Nascimento. Por conta da longa demora para ser lançado no circuito comercial, o trabalho continuou percorrendo diversos festivais, já nesse ano de 2007, e angariando premiações diversas – além do ator, a turma de atores reunida levou prêmios, o diretor, o filme -, mas, principalmente, o que foi ficando cada vez mais nítido, é a incrível cumplicidade que o filme acaba por sacramentar com o público. Sem ter cedido a modismos ou regras televisas – um fato que tem se tornado corriqueiro na produção nacional que ambiciona sucesso nos últimos tempos.

Quando tive a oportunidade de ver o filme, algumas sensações antagônicas restaram de maneira muito contundente ao término da exibição. Cortez mostrou-se bastante ousado na crueza das imagens, secura das seqüências e frieza emprestada aos personagens – aliás, os personagens de boa parte da película têm a alma e o caráter sujo/perdido com os quais o escritor Plínio Marcos sempre dadivou seus seres desgarrados, e aí já se nota nitidamente o quanto diretor estudou o dramaturgo, a ponto de fazer com muita correção o seu dever. A "verdade" se faz presente já desde os primeiros momentos no bordel, com Carlos Cortez mostrando ter optado por uma edição de cortes secos, ritmo frenético pela força dos personagens – mais do que pela velocidade na captação das imagens -, cores fortes e atuações beirando os extremos; quase adeqüadamente "over". Quando o moleque cresce e se constitui o personagem que se apresentará durante a trama, o filme já tem bem definida a sua maneira, seus caminhos, seus ritmos, e a possibilidade de adolescentes marginais agirem em ritmo compatível com sua realidade mostra-se tremendamente bem coadunada com as opções "estéticas" e técnicas desde sempre adotadas pelo realizador.

A música de André Abujamra é forte – pancada -, e compõem bem os momentos de emenda, os cortes, a visceralidade. Mas aí, como se fosse matemática, a partir de seu último terço o filme começa a evidenciar alguns problemas que haviam somente ameaçado o trabalho por um maneirismo da câmera, um tanto trêmula a mais do que o necessário – parece que Cortez ainda se rendeu a esse modismo (que já nem é tão modismo assim), que não tem razão prática de ter surgido na história do cinema e que não lhe empresta nada de bonito ou interessante esteticamente. Outro problema se dá quando ele usa duas ou três vezes momentos de flashblack movidos a slow-motion – e essa "câmera lenta recordativa" vem justamente para deixar às claras uma situação extrema que acontece num momento do filme, e que havia sido muito bem idealizada e concretizada, alguns momentos antes, quando a opção do corte nessa seqüência, afastava o sensacionalismo e indicava que a opção de não explicitá-la era opção adulta, sensata e com grande ganho artístico (além de que, revelar situações passadas em flashback e slow se constitui um truque ruim e bastante desgastado) - ; carrega um pouco a mais em algumas interpretações de adultos que surgem mais no final da história e aperta um pouco o nó melodramático (nesse caso, não a ponto de se perder, arriscando bastante com um final que trisca a complicação, mas que sobrevive belamente). Aliás, vale lembrar que essa final é dos mais emocionantes de nosso cinema recente. Poderia ser um filmaço se ele não tivesse caído em algumas tentações fáceis que o cinema insiste em insinuar a quem com ele mexe.

P.S.: acho que vale uma citação ao trabalho social no qual se intrometeram definitivamente Carlos e sua mulher e produtora, Débora Ivanov, antes e após a conclusão da obra filmada. Por terem trabalhado com garotos de uma região muito carente, tiveram o extremo cuidado de não abandoná-los à própria sorte após a fama que pode ser fugaz e traidora – temos grandes exemplos disso no história de nosso cinema. Têm "carregado" a trupe mirim para lá e para cá, nos festivais em que o filme é apresentado, mas sempre com um discurso muito sincero que evidencia os trabalhos de oficina que têm realizado, com mais garotos, e com cronograma e objetivos concretos definidos. Não sei até que ponto essa deveria ser função do cinema, mas estamos falando de seres humanos tratando com seres humanos – dignidade e atenção -; e isso é muito mais importante.
Leia também: