ANJOS EXTERMINADORES:


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Original: Les Anges exterminateurs
País: França
Direção: Jean-Claude Brisseau
Elenco: Frederic Van Den Driessche, Maroussia Dubreuil, Lise Bellynck, Marie Allan, Raphaële Godin, Margaret Zenou, Sophie Bonnet, Jeanne Cellard, Virginie Legeay, Estelle Galarme, Marine Danaux, Apolline Louis, François Négret
Duração: 100 min.
Estréia: 14/09/07
Ano: 2006


"Anjos Exterminadores": trabalhar com a morte


Autor: Fernando Watanabe

“Os Anjos Exterminadores” não deve ser exaltado pelo seu lado escandaloso. Primeiro porque essa definição de “escândalo” é sempre relativa, ela vem sempre comparada a um padrão estabelecido – no caso, os padrões com que freqüentemente o sexo e a realização cinematográfica são tratados em muitos outros filmes.

Sexo e realização cinematográfica, os dois temas explícitos deste filme. Prazer e dor, seus dois pilares de sustentação (o filme os coloca como talvez sendo a mesma coisa). Narrativa distendida, com especial entrega aos momentos menos narrativos e mais sensoriais (as cenas de sexo, as conversas que discutem assuntos, mas não necessariamente movem o enredo adiante) e uma displicência pelos momentos nos quais há fatos que são funcionais à trama (o mini entrecho dos capangas que vão espancá-lo ao final é contado de maneira hiper rápida e com tratamento que beira a auto-paródia, como rir de si próprio).

Não há porque analisar em palavras a questão do sexo no filme, pois ela não está em pauta, não está a serviço de tramas de casos amorosos e ciúmes, simplesmente está lá como um fato da existência humana. As três beldades existem por meio do prazer, e isso é algo já dado. A sensualidade, a lascívia, o jogo erótico contido em cada pequeno gesto, o prazer feminino no ato sexual e o prazer daquele que as observa: o personagem do cineasta, François. O gosto pelo ato de simplesmente ver; o prazer do olhar. Portanto, nada mais coerente que a construção das longas cenas de sexo em quartos ou em locais público que, mais do que serem gratuitas ou provocativas, estendem esse prazer que François e Jean Claude Brisseau (o realizador de “Anjos Exterminadores”) sentem até os espectadores. Para isso, há planos de longa duração encadeados com poucos cortes o que favorece a nossa imersão. A câmera é sempre contida e funcional aos acontecimentos, ela ou está fixa em um plano médio–aberto ou flutua. Talvez pela duração dilatada desses momentos ou pela pouca variedade de ângulos de enquadramentos, as cenas lembram um pouco os filmes pornôs “softs” (ou chiques) hoje encontrados em canais de tv à cabo ou mesmo na tv aberta. Programas que em tese não se encaixam exatamente numa definição de “cultura de bom gosto”.

“Os Anjos Exterminadores” reitera que, de vez em quando, uma fuga aos moldes do “bom gosto” tende a levar a um grau maior de honestidade pelo fato de trazer verdades de sentimentos com uma ausência total de justificativas “nobres”; ou de qualquer espécie de justificativa. O filme já nasce aprovado, sem necessidade de uma premissa palatável. Percebe-se que Brisseau não faz mea culpa de nada, e podemos intuir que chega a ser impiedoso consigo próprio. Ele não pede desculpas por estar fazendo o que gosta, mas não devemos admirar o filme por isso, mas, sim, pela generosidade do cineasta em compartilhar seu prazer e sua dor conosco, o que impede o trabalho de ser apenas um “filme de expiação”, visto que a motivação do projeto foi um fato real acontecido na vida do próprio Brisseau após a execução de seu filme “Coisas Secretas”. Se comparado àquele filme, “Os Anjos Exterminadores” parece ser um luto sereno. A câmera não faz tantos malabarismos quanto lá fazia, a quantidade de discussões reflexivas e de papo furado é nitidamente maior, e as cores são mais austeras.

Porque em Anjos, além do prazer, existe a dor que alcança um outro grau de discussão, que ainda continua sendo a da existência, ou a dor sexual, mas alçada também a um novo nível que é o da realização cinematográfica. François é um diretor de cinema obstinado, guiado pela fé de que experiências pessoais da vida dele possam ser estendidas a um filme. Ele pesquisa o prazer feminino, é algo que o fascina e mais do que estar “pesquisando para se embasar e disso tirar um filme”, ele espera que o filme seja uma extensão de seu próprio eu. Que o filme, mais do que utilizar a vida a seu favor, seja também parte integrante dela. E é aí que residem as questões com as quais o cineasta vai lidar. O filme é conseqüência da vida sim, mas, no ato de fazer um filme não se está cometendo uma prática de utilitarismo um tanto oportunista para concretizar algo que, no fundo, está sempre destinado a se tornar um produto (não em termos comerciais, mas no sentido de algo concreto e material)? O que será mais importante na realização cinematográfica: as motivações da vida ou o filme objeto em si? Como ser fiel à vida quando a película e a imagem possuem vocação inerente à morte de algo? Acredito que fazer um filme é fazer um filme, seja ele feito de forma apaixonada e visceral ou de forma impessoal, está-se fazendo um filme acima de tudo! Fazer um filme: parasitar a própria vida.

Então, após um longo tempo se relacionando com as três moças, tendo sua vida afetada por esse encontro (o casamento fica abalado), influindo radicalmente em três vidas alheias que confiam cegamente nele (as três jovens ainda não “acertadas na vida”, tentando se descobrir como atrizes), eis que chega o momento da filmagem. Há uma equipe que nada tem a ver com o processo anterior, há produtores pragmáticos com os pés no chão, há um cronograma, há compromissos com outros interesses, e François em determinado momento se acha numa sinuca de bico: Charlotte causa problemas no set (ela tem um surto) e, para que as filmagens possam prosseguir, François obedece ao produtor que a dispensa. Julie cospe na cara de François e também abandona o filme. Ele as traiu, pois sua responsabilidade maior não é com elas, é com seu filme. A cuspida de Julie em François é de uma crueldade que parece conter todo o filme em si e o discurso parece ter atingido o lugar onde pretendia chegar. Na seqüência, a trama que se desenrola é mais um epílogo com ares de filme B – e isso é um elogio, pois inesperadamente um humor não sério toma conta nos minutos finais do filme - e, uma vez encerrada a discussão, na cena do cuspe, em vez de um epílogo vazio, temos uma parte ainda interessante de assistir, exceção feita ao reencontro de François com Julie num bar, pouco interessante à essa altura do filme.

Os momentos de convívio e de troca entre ele e as três garotas ficaram no passado, acabou. O som de relógio “tic tac” insiste durante todo o filme que as conseqüências não tardariam a vir. Ao final, resta para ele (após ser espancado por comparsas das meninas) continuar trabalhando, então ele aparece no set dirigindo de novo, agora numa cadeira de rodas, a câmera flutua pelo cenário em plano geral e o abandona, deixando-o soterrado em meio a outras atrizes, outras vidas em volta de si, trabalhando, enfim. Para François, fazer um filme é uma tarefa dolorosa, porém necessária à existência, assim como o sexo o é. Para Jean Claude Brisseau, a morte está no cinema por definição.

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