MEMÓRIA DO SAQUEIO:


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Original: Memória Del Saqueo
País: Argentina / França
Direção: Fernando Solanas
Elenco: Documentário
Duração: 120 Min
Estréia: 26-08-2005
Ano: 2004


“Memória do saqueio” um retrato da triste história recente da Argentina


Autor: Cesar Zamberlan

“Memórias do Saqueio”, documentário de Fernando Solanas, é o sexto filme argentino a entrar em cartaz em São Paulo este ano e pode repetir o êxito de “O Cachorro”, “Conversando com Mamãe” e “Menina Santa”. Mais do que isso irá explicitar questões que os outros filmes tangenciavam poeticamente: como o desemprego, a falência do estado argentino, a crise de identidade, a desagregação social e familiar, a miséria. Aquilo que Solanas chama de “genocídio social”.

Obrigatório não só para entender a Argentina, mas a relação dos paises periféricos com os paises ricos em tempos de globalização, “Memórias do Saqueio” examina a história recente da Argentina, os governos Alphonsin, Menen, De la Rua até a eleição de Kirchner. O filme começa com o panelaço que derrubou De La Rua em 2001 - “a insurreição de um país que parecia paralisado pela apatia” como narra Solanas - e procura responder algumas perguntas: o que havia acontecido com a Argentina? Como um país tão rico, passava fome? Como explicar uma época que registrou um número de imigrações e mortes maior que a época do regime militar e a Guerra das Malvinas?

Solana começa a responder estas questões, analisando o surgimento da divida externa Argentina: o primeiro empréstimo contraído em 1824, a política de endividamento que se agrava com a ditadura nos anos 70 e com a crise do Petróleo em 73 que eleva os juros a taxas exorbitantes, gerando burocratas e tecnólogos mais comprometidos com os bancos internacionais credores do que com as instituições e população do próprio país. Mais do que procurar na história as causas da divida, Solanas denuncia que governo argentino, graças ao super-ministro Cavallo, nas eras Menem e De La Rua, teria assumido a dívida de varias instituições privadas como se fossem dívidas públicas.

Didático ao buscar explicações históricas, “Memórias do Saqueio” não é, no entanto, cansativo. E quando denuncia, consegue ser pungente e engajado sem cair no show exibicionista, cujo exemplo inevitável é Michael Moore, com o seu necessário, mas pouco cinematográfico discurso contra Bush e a globalização. Solanas é bem sucedido nessa complicada equação entre cinema e engajamento, algo hoje tão difícil e tão desprezado por uma “arte” que dá mais valor a industria, ao dinheiro, que a mensagem política.

Voltando ao filme, Solanas usa a questão da divida externa como um nó do qual outras questões partem. E algumas tão caras e tristes a nós brasileiros também, como a relação dos governantes locais - carnais como ele diz - com os organismos internacionais, grandes corporações e bancos; a traição dos políticos e sindicatos a teses que defenderam; o não cumprimento das promessas feitas em campanha à população; a esperança messiânica na eleição de um líder popular; a desarticulação do legislativo e judiciário, condescendentes às “ambições” do Executivo; além da questão das privatizações que lá, mais do que aqui, ou de forma mais escancarada que aqui, torrou boa parte do patrimônio público sem que isso fosse revertido em algum benefício aos argentinos.

Se o nó é o endividamento; as privatizações e a dolarização da economia são os melhores exemplos da equivocada política econômica da argentina pré-Kirchner. Modelo que aliada à corrupção e a impunidade entregou poderosas e lucrativas indústrias, como a petrolífera e de gás, a preço de banana para companhias estrangeiras; que decretou a falência de indústrias e setores produtivos que já não tinham como competir com empresas estrangeiras num câmbio 1 para 1; que desarticulou o sistema ferroviário e acabou com boa parte da economia regional, criando um cenário desolador com várias cidades fantasma. Política que gerou também o retrocesso no que tange a política de direitos sociais. Com o desemprego, os trabalhadores argentinos que tinha o mais avançado sistema trabalhista das Américas, passaram a aceitar qualquer condição de trabalho. O desemprego em proporções jamais imaginadas e a austeridade do novo modelo econômico acabaram também por gerar um cenário onde a fome, a miséria e as altas taxas de mortalidade infantil, levaram o povo a mais cruel indigência.

“Memória do Saqueio” não é um filme fácil, é doloroso, ainda mais no momento político em que vivemos. Um filme indispensável que termina com uma mensagem otimista e até um pouco forçada. Solanas, depois de mostrar tantas tragédias, procura terminar o filme com uma mensagem de otimismo: o panelaço na Plaza de Mayo e o movimento piquetero que estourou em todo país, símbolos da manifestação contra De La Rua e todo regime que o precedeu, marcavam, segundo ele, a “primeira vitória argentina contra a globalização”. Será? Talvez esse seja o único momento discutível do filme, infelizmente.

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