MAROCK:


Fonte: [+] [-]
Original: Marock
País: França/Marrocos
Direção: Laïla Marrakchi
Elenco: Morjana Alaoui, Matthieu Boujenah, Assaad Bouab
Duração: 100 min.
Estréia: 07/09/07
Ano: 2005


Marroquinos mauricinhos


Autor: Érico Fuks

Via de regra, o cinema islâmico apresentado ao público brasileiro coloca o povo árabe em nível de inferioridade, do ponto de vista sócio-econômico: desempregados, rejeitados, marginalizados. São, na maioria dos casos, elementos isolados tentando se enquadrar num sistema maior e globalizado. Em outras palavras, uma faca de dois gumes. Se por um lado a exacerbação do problema pode ajudar na reflexão sobre os preconceitos, por outro a repetição do modelo pode contribuir ainda mais para a sedimentação desses mesmos preconceitos. Os árabes um dia na História conquistaram quase que o Mediterrâneo inteiro. Hoje, no contexto cinematográfico, são apresentados como reflexo de uma política governamental excludente e um movimento religioso extremista e arcaico. Em considerável parte dessa safra de filmes, essas questões políticas generalizadoras são metonimicamente transferidas para o indivíduo. Difícil trazer à mente algum exemplo fílmico que coloca a nação vinda do Oriente Médio como vencedora.

“Marock”, de Laila Marrakchi, apresenta alguns conflitos religiosos e sociais, mas não coloca a discriminação econômica como uma questão. Até chega a assustar o espectador com essa premissa: no começo, um jovem é barrado de entrar numa boate. Ponto para o filme, que, mesmo antes de apresentar seus personagens e seu âmbito cênico, já faz o público refletir se o preconceito está na tela ou se já vem antes.

Embora apresente uma parcela da população relativamente alheia, “Marock” não é um filme alienado, muito pelo contrário. Todas as suas passagens estão inseridas em situações de conflito. Não só é um filme que se passa na atualidade, mas é também um trabalho atual. Não esconde paradigmas modernos como o uso abusivo de celulares para mostrar uma sociedade tentando se comunicar. “Marock” não se perdeu no tempo e no espaço. Tudo parece ter sido extraído de acontecimentos ocorridos minutos atrás. “Marock” está em sintonia com sua época e com suas pessoas.

Desvincular-se de um engajamento desgastado é um mérito deste trabalho. “Marock” também segue o modelo de personalização, de retratação individual de questões maiores e mais coletivas. Mas deixa de lado o panfletarsimo e busca se apoiar nos dilemas mais intrínsecos. Do ponto de vista ideológico, estabelece diálogos com “bollywood”. Esconde-se em apartamentos de luxo, em redutos ostensivamente afastados da maioria da população. E acrescenta a esse cenário uma comunidade com hábitos igualmente afastados da pobreza: passeios de carro, patuscadas, compras e mais compras. Todavia, não carrega nas tintas e não se apóia em uma estética hiperbólica. Há muita naturalidade e fluência nas relações. Marrakchi parece conhecer bem o seu universo. Se passa longe de ser um filme realista, ao menos nada carrega das representações farsescas e teatralizadas.

O forte de “Marock” é sua displicência. Não tem medo de assumir uma postura materialista influenciada por americanismos. Carros de marca são sonhos de consumo. Jovens, baladas, bebedeiras, alta velocidade, dúvidas em relação ao futuro profissional. Pilares que, extraídos do contexto lingüístico, poderiam se encaixar na sinopse de “American Pie”. Marrakchi preocupa-se em trabalhar pessoas. Nesse sentido, filtrar o cenário político parece uma ousadia.

Essa cadência gramatical e esse desprendimento sociológico vão muito bem. O problema é Marrakchi querer enxergar a falta de algo que não existe. Assumir uma visão mais hedonista da coisa é uma questão de coragem, algo que a diretora não leva até o fim. E aí surgem as questões mais shakespearianas, como o amor proibido clonado de Romeu e Julieta. Afinal estamos na Casablanca de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Nesse caso a diretora traz o conflito, ainda que bem de levezinho, de um romance escondido entre uma muçulmana e um judeu. Mostrar uma sociedade vazia não significa ter um filme vazio em mãos, e isso a diretora parece não ter percebido. É justamente a tautologia fincada em downloads e shopping centers que deixaria a coisa mais irônica e mais visceral. Complicado é querer entender o porquê dessa falta de perspectivas. E tentar deixar o roteiro amarradinho mais parece insegurança do que volúpia narrativa. “Marock” é um filme morno, que se inicia com o calor marroquino de uma sociedade com dinheiro e sem propostas. Faltou o niilismo de Van Sant pra manter a temperatura cáustica até o seu desfecho.

Leia também: