PRETO E BRANCO:


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Original: PRETO E BRANCO
País: Brasil
Direção: Carlos Nader
Elenco: Documentário
Duração: 97 min
Estréia: 26-08-2005
Ano: 2004


“Preto e branco”: uma discussão pertinente


Autor: Cid Nader

Nunca é demais discutir a questão do racismo, e é nesse filão que investe o cineasta Carlos Nader, hábil e fluente no mundo das realizações em digital. Usa a cidade de São Paulo com sua barreira de prédios como cenário e de seu âmago multirracial consegue extrair - pela diversidade, obviamente - manifestações advindas desde um discurso mais intelectualizado e embasado nos estudos das ciências sociais, ao falar espontâneo proferido pelo “cidadão comum".

No que concerne ao resultado obtido, após depuração do debate virtual apresentado na tela, deu-se bem o cineasta, pois conseguiu expor diversidade de idéias, opiniões e verdades proferidas, ora em tom professoral, ora de maneira sentida e insegura. O debate acabou por se fixar, principalmente, sobre dois pontos: primeiro, se o preconceito no Brasil seria mais de origem social ou racial; segundo, se o preconceito, "meio mascarado", praticado por aqui, basicamente racial, seria mais danoso e perigoso do que o praticado nos Estados Unidos, que divide grupos étnicos de maneira muito mais visível e exteriorizada.

A figura de Eduardo Amaral de Lima, cego, filho de Hitler de Lima, dá um tom todo especial ao início do documentário, quando demonstra seu preconceito contra orientais, e outros, à melhor maneira de um personagem surgido de "Faça a Coisa Certa", de Spike Lee, acabando por ter de encarar, sem querer acreditar, o resultado desagradável de um exame solicitado. As dúvidas e colocações de Marilena Felinto e Antônio Cícero, quase sempre antagonizam as opiniões do antropólogo João Batista Félix, do economista Hélio dos Santos e Regina Casé, dentre outros, de "pegada" mais radical e que funciona mais como contra-veneno.

Já no resultado da realização da obra - edição, idéias, finalização - o trabalho de Carlos Nader alcança em boa parte dela um resultado satisfatório, deixando, porém, dúvidas em dois momentos que me pareceram como julgamento de atitudes, por parte dele: quando fotografa Mário de Oliveira, advogado bem sucedido, em situações posadas, que parecem querer nos induzir e julgá-lo, e ao mostrar, de maneira um tanto pitoresca, um concurso de miss do carnaval paulistano.

Tais momentos "a mim" pareceram um tanto estranhos, no conjunto e pela proposta do trabalho, mas não desmerecem o resultado final, que merece ser prestigiado.

P.S.: incrível o "ato-falho" de uma apresentadora de Tv quando, ao noticiar o assassinato do rapper e ator Sabotage, nascido na favela das Águas Espraiadas, encerra seu comentário com a constatação de que, pelo fato de ele ter alcançado certa notoriedade por seu trabalho na música , havia abandonado a possibilidade da marginalidade e passado ao lado "claro” da vida.
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