CIDADE DOS HOMENS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Paulo Morelli
Elenco: Darlan Cunha, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Rodrigo dos Santos, Camila Monteiro
Duração: 113 min.
Estréia: 31/08/07
Ano: 2007


"Cidade dos Homens": Cidade de Deus zero caloria


Autor: Érico Fuks

O uso de trocadilhos como recurso lingüístico tende a enfraquecer um texto, mas neste caso uma idéia parece inevitável: “Cidade dos Homens” é um filme de Morelles. Aqui fica difícil determinar onde acaba a veia autoral e as liberdades poéticas de Paulo Morelli e onde começam as intervenções de gênero de Fernando Meirelles. Ambos os diretores têm em sua carreira algumas semelhanças que ultrapassam o campo da coincidência e da escolaridade unívoca. Meirelles começou com “Domésticas”, um filme classe-média de condomínio fechado que incita, de maneira ingênua, porém leviana, a exploração do baixo assalariado por parte dos emergentes. Muito mais competente e esperto que seu discípulo, Meirelles concluiu um trabalho superior em linguagem, porém mais sacana em conceitos. “Domésticas” é um filme que apropria para si a cultura pueril e matuta dos desabonados e transforma esse legado em produto de consumo fácil e riso mais fácil ainda para o que se pode chamar de espectador médio. Qualquer indício de crise social e de conflito de classes encontra-se ainda muito latente diante dessa comédia de repertório alheio. Numa metrópole onde o convívio de diferentes camadas econômicas é quase que compulsório, o retrato sarcasticamente comedido do lado mais fraco da corda não chega a ser ofensivo e ultrajante. Afinal, denominar bares de consumação mínima exorbitante de Favela virou modinha nesses redutos urbanos. Já Paulo Morelli também iniciou seu mestrado usando-se de uma fatia cômica parecida, porém com um resultado muito mais trôpego. “Viva Voz”, um filme igualmente claustrofóbico no que se refere aos equipamentos de vigilância e de segurança de uma sociedade distópica, não tem a mesma leveza e a ensaiada espontaneidade das tiradinhas de “Domésticas”. É uma comédia de erros com muito mais erros do que comédia. Se fosse comparado ao objeto central do filme, seria equivalente aos chiados e às intervenções de sinais de antenas das confusas operadoras de telefonia móvel, com a densidade e a sutileza tijolares dos aparelhos fabricados nos primórdios.

Trazer “Cidade de Deus” à luz da questão é encerrar o parágrafo anterior e introduzir um novo conceito de cinema nacional. O filme foi um divisor de águas, para o bem e para o mal. De um lado, conseguiu a façanha de trazer de volta o público às salas de cinema oferecendo um produto que, ora vem recheado de preconceitos, ora não desperta interesse algum. Qualquer bloco do Jornal Nacional consegue ser mais violento e sem-saída do que um roteiro de ficção. Se a idéia, preconizada nos ensaios anteriores, de que ficar em casa é mais seguro e mais divertido, fazer o espectador entrar em contato cara a cara com seu Brasil-verdade longe de seu presídio domiciliar foi um mérito paradoxal. Por outro lado, “Cidade de Deus” despertou uma chama semi apagada, plantada no Cinema Novo, e trouxe uma série de debates acalorados, com desfeitas e xingamentos em igual proporção. Uma das vertentes remodelou uma linha de pensamento e batizou o filme de ícone da cosmética da fome. Por trás de toda uma realidade nua, crua e podre, essa obra recebeu todos os caprichos detalhistas embelezadores dignos das mais ostensivas campanhas publicitárias, berço de produção da O2 Filmes. Transformar o naturalmente feio em algo cuidadosamente bonito a uma determinada estética chama-atenção não seria um artifício perverso e contraditório? Com que direito os realizadores usam de sua alquimia cinematográfica para deixar as favelas, os morros e os becos de tráfico de drogas em algo mercadologicamente rentável? Até que ponto a mão mais do que divina que monta a sujeira como se fosse um quebra-cabeças coloca o fato em discussão? Estampar a feiúra da pobreza como algo ainda mais feio do que realmente é desperta a atenção das autoridades ou apenas deixa o aparato visual pronto para um desfile das escolas de samba?

Se “Cidade de Deus” foi inconsistente nas respostas ou incompleto na defesa de seus argumentos, uma coisa é certa: o filme foi ousado pra caramba. Não é qualquer um do universo de fora que entra na favela e reproduz, ainda que com toques e artifícios vindos do imaginário hiperbólico, algo que os traficantes não querem mostrar e a classe média urbana não quer ver. Se não foi o precursor, “Cidade de Deus” foi o que conseguiu diluir com maior profundidade e estratégia o conceito estético de ultra-realismo. Tudo é demasiadamente crível e verossímil, até porque os elementos cênicos de fato existem. Mas ao mesmo tempo tudo é tão farsesco e teatralizado, com cenas e ângulos que lembram vagamente os faroestes e os filmes de gladiadores. A violência é transformada num espetáculo: o show da morte.

Em comparação com “Viva Voz”, “Cidade dos Homens” é infinitamente superior em todos os sentidos. A construção de personagens, os entornos cênicos, as motivações psicológicas e todos os demais aparelhos cinematográficos são muito mais elaborados. O filme começa com uma visão bem rousseauniana da realidade, onde todos os seres humanos são bons por natureza. Acerola e Laranjinha, os protagonistas da película, frutas de pomares diferentes mas com as mesmas características gustativas, carregam ambições dignas dentro de um ambiente deteriorado. Tá certo que estão adocicados demais, mas isso é um pormenor. À medida que avança, “Cidade dos Homens” vai se deixando levar por um ambiente mais perverso e, com isso, tornando-se um filme mais coerente e mais consistente. Morelli não tem a obrigação moral de fazer de seu trabalho um cartão postal do Rio de Janeiro, nem a de levar esses rolos a salas de debates sociológicos. “Cidade dos Homens” não é um filme neutro nem apartidário, mas também não procura elevar o grau de importância das questões sociais a um nível maior do que o do filme propriamente dito.

Se Morelli é percebido como um diretor mais amadurecido, e o trabalho que carrega debaixo do braço está redondinho, qual é então o problema de “Cidade dos Homens”? Talvez porque, diferentemente dos filmes aprisionados em apartamentos de luxo, as favelas dispõem de apenas um andar. Uma vez mostrada com todos os exageros possíveis, qualquer exibição multiangular torna-se irrelevante. Ninguém quer ver seqüências, preqüências e construção narrativa familiar de uma realidade que não lhe pertence. Ainda que colocado à exaustão dentro de uma única ótica, “Cidade de Deus” parece ter esgotado o tema, do ponto de vista cinematográfico. “Cidade dos Homens” nada mais é do que uma releitura dietética e descafeinada do filme-inspiração. Serve mais para mostrar que a produtora O2 tem capacidade produtiva e unidade profissional do que para abrir campos perceptivos distintos de todos os envolvidos no projeto. Ainda que viesse uma terceira parte, ou uma “Cidade das Mulheres”, todo o material acabado final ficaria com a cara de Fernando Meirelles. Claro que há diversos acertos que tornam este filme diferente do predecessor, mas no conjunto parece uma cópia restaurada do original, acrescidos alguns tons de ocre. E outro fator agravante está no final da saga. Nos créditos de fechamento, a primeira palavra que vem é que o filme é uma “estória” (com “e” inicial, verbete muitas vezes questionado pelos filólogos) de Paulo Morelli. Se existe do intróito ao cabo uma preocupação de imprimir um tom realista à enésima potenciação, não há motivos para se desmistificar essa construção de universo confidenciando ao espectador que se trata de uma mentirinha. A essa altura do campeonato, o público já deve ter entendido muito bem o que é a verdade do Rio de Janeiro e o que é a verdade de Paulo Morelli.

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