SANTIAGO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: João Moreira Salles
Elenco: Documentário
Duração: 79 min.
Estréia: 24/08/07
Ano: 2007


"Santiago" - Uma obra-prima


Autor: Cid Nader

Parece que existe um fenômeno em andamento no Brasil, dentro do qual cineastas já consagrados, exercendo seus estilos, resolveram dar uma freada na livre disparada que suas carreiras deram por conta de suas próprias e reconhecidas qualidades. Só para citar um exemplo mais ostensivo: Beto Brant – como diretor de ficções, inclusive apontado como o cineasta dos últimos dez anos, criador de filmes muito particulares e voltados ao uso das técnicas e narrativas mais pertinentes com seu momento de criação –, que num ato de ousadia e amadurecimento enorme resolveu dar uma guinada na já, de caminhos facilitados, carreira de sucesso e qualidade, enveredando fortemente na busca de um cinema mais autoral (com "Crime Delicado", primeiramente), chegando ao máximo da ousadia com um quase nada a dizer, quase nada a filmar, quase nada de recursos e genialidade plena, total, na constatação final de sua última obra, "Cão Sem Dono".

No caso de João Moreira Salles, tal freada – brusca e de teor muito mais pessoal (afinal, estamos falando de um diretor de documentários) – vem não somente para redirecionar uma carreira das mais sólidas de alguém que transita com os melhores trabalhos que tem sido realizados por aqui (nem sempre como diretor), mas para dar tempo de uma "olhada" corajosa para trás e, com algumas constatações sobre si próprio que poderiam ter sido jogadas no lixo em benefício próprio, fazer do que conseguiu reconhecer como um momento de sua vida, um exemplar em película da condição humana; em vários níveis. Existe um certo "preconceito rancoroso" de alguns setores de nossa "inteligência" que não consegue admitir um filho de banqueiro fazendo trabalhos de qualidade artística superior, principalmente com teor de preocupação e discussão social fortemente vinculado. Um pensamento um tanto tacanho e exclusivista que não consegue imaginar as possibilidades da transformação humana em busca de outras verdades, com um certo jeito de exclusividade, de domínio, sobre a pobreza e a miséria – mesmo que seja para discuti-las em mesas de botecos e com discursos inflamados (tanto quanto superficiais, pela falta de um verdadeiro engajamento), movidos a conhaque e cerveja.

Quando citei "condição humana, em vários níveis", quis me referir ao que fica mais ostensivamente nítido quando termina a apresentação de "Santiago", esse seu novo trabalho: resultam várias constatações sobre o diretor, sobre o retratado, sobre a maneira de relação entre o "bom rico" e o eterno criado. João Moreira Salles revisita arquivos seus – e nesse caminho de busca de documentos descobrirá coisas muito mais importantes do que simples possibilidades sólidas e palpáveis – para tentar reiniciar um trabalho que havia imaginado em 1992, quando teve a primeira intenção de fazer um filme contando a vida de um personagem um tanto fora dos padrões: Santiago, nascido na Argentina, foi mordomo de sua casa de criação por algumas dezenas de anos e chamava a atenção pela cultura ampla, gosto pela música clássica, por obras de arte (Gioto era o seu preferido), grande conhecimento de sua profissão (por vezes superava patrões ricos quando o assunto era como agir com as regras de etiqueta), opiniões contundentes e grande facilidade de comunicação. Para os ricos Moreira Salles, uma dádiva; para seus filhos curiosos e jovens, uma figura ímpar que merecia admiração, mas que também caia ao bem seu gosto, como se fosse um elefante branco numa gaiola dourada; digno de ser apresentado à curiosidade como uma peça mais rara de um circo de excentricidades.

A partir de então poderia-se passar a entender a razão da qualidade superior (cada vez estou seguro de que se trata de uma verdadeira obra-prima) desse novo trabalho de João. Quando o diretor resolveu que iria retomar o projeto abandonado próximo dos momentos iniciais da primeira intenção, resgatou filmagens feitas à época com o ex-mordomo (cerca de nove horas de trabalho) e tentou pensar em como seria possível utilizar parte dele nessa nova empreitada. Só que João percebeu – implicitamente, sem fazer alarde – o quão diferentes são os seres humanos dentro se suas separações por castas. Descobriu-se ainda um jovem impetuoso e arrogante no tratamento que dedicava a Santiago naqueles distantes momentos em que colheu os depoimentos. O diretor deve ter percebido – pelo tom de urgência que utilizava, juntamente com sua assistente no momento – que não importava tanto a figura humana atípica por sua cultura e jeito de entender o mundo para a confecção de seu documentário, e sim a figura a ser mostrada como peça de curiosidade, que seria seu eterno subalterno, e que, portanto, tinha poderes que o "legitimavam" soberano sobre os destino pretendido para o trabalho documental.

Daí surge o momento da verdade e da coragem. Por que fazer um trabalho novo, deformando as informações resultadas daquele longínquo 1992 em cima da mesa de edição? O momento da verdade pode significar o momento da coragem, e João encheu-se dela quando resolveu que tinha um material à mão que mereceria ir ao conhecimento do público. Construiu, então, seu novo documentário, botando a sua cara para bater, mostrando-se com toda a arrogância do patrão que "respeita" e "considera" o seu empregado dentro de seus parâmetros de necessidade; como se estivesse "cometendo" um grande ato de humanidade, e abrindo as portas do paraíso para si. Não se poupou o João. Fez de seu filme uma espécie de "meá-culpa". Mas acontece que não é só isso – o que por si só já justificaria reconhecimento. "Santiago" é figura ímpar, e o filme consegue passar essa mensagem – só que agora não como elefante engaiolado. Dá para entender a vontade que despertou num jovem realizador sua (a de Santiago) vida. Suas opiniões são interessantes. No mínimo, cheias de interpretações muito particulares do viver. Seu "relacionamento" com algumas personalidades, seu modo de compreender e de entender, suas manifestações espontâneas, sua postura artificial para interpretar alguns momentos. Santiago era uma figura over, realmente.

Quando, com a câmera desligada – mas captando os sons – o ex-mordomo chama o diretor de Joãozinho, um amontoado de "condição humana" despenca sobre nossas cabeças. Quando ele aguarda pacientemente "ordens" sentado num banquinho, novamente. Quando percebemos que João passa a narração de seu filme – que é na primeira pessoa, afinal – para seu irmão mais novo, Fernando, cai a ficha que indica que as pessoas podem aprender com a vida, e que isso pode vir em conjunto (entre irmãos, grupos...), talvez como fruto de uma criação mais sensível ou por buscas; novamente em conjunto. Quando um trecho de "A Roda da Fortuna" é inserido no documentário e nos permite ver o momento preferido do mordomo no cinema (dançam Fred Astaire e Cyd Charisse), fica difícil controlar a emoção. E quando João Moreira Salles coloca um " p.s." no final do filme para explicar que em sua intenção inicial tudo foi fotografado próximo ao chão como uma homenagem ao mestre Yasujiro Ozu, fica nítido que só pede desculpas quem tem a sensibilidade aflorada, quem tem o dom de entender a "arte", por exemplo, e consegue perceber os "pecados" da época de juventude. Vi um dos melhores filmes de minha vida, com certeza.
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