O GRANDE CHEFE:


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Original: The Boss of It All
País: Dinamarca
Direção: Lars Von Trier
Elenco: Jens Albinus, Peter Gantzler, Iben Hjejle, Friðrik Þór Friðriksson
Duração: 100 min.
Estréia: 24/08/07
Ano: 2006


O engenhoso Lars Von Trier


Autor: Cesar Zamberlan

Lars Von Trier não é muito querido por uma parte da crítica, é reduzido a um cineasta cínico e arrogante e no campo mais estético, é criticado “por não fazer um cinema mais elaborado”, ou até mesmo, como já ouvi dizer, “por não saber filmar”. A queixa se acentuou depois do melodramático “Dançando no Escuro” com suas inúmeras câmeras, do lançamento dos mandamentos do Dogma e de “Idiotas” e, sobretudo, com a “trilogia” antiamericana e brechtiana “Dogville” e “Manderlay”, cujo terceiro filme, aliás, talvez não saia do papel - bem como “Anticristo”, filme de terror que Von Trier deveria estar filmando, mas desistiu, pelo menos temporariamente, devido a uma depressão.

Pois bem, Lars Von Trier volta à cena no circuito paulistano com mais um filme provocador - não diria cínico. O alvo agora é o mundo coorporativo. Toda ação do filme se passa dentro de um escritório que lembra bem a série “The Office”, sobretudo, sua versão britânica que é muito mais interessante que a norte-americana.

O filme parte de uma idéia muito interessante: um ator é contratado por um executivo para fazer o papel de grande chefe de uma empresa e intermediar a venda da mesma para um grupo islandês. Esse chefe que nunca teria dado as caras no escritório, pois vive nos Estados Unidos, é, na verdade, uma construção desse executivo – este, de fato, o dono da empresa. O ator no papel do grande chefe acaba sendo então um bode expiatório para toda a ira dos empregados cujo emprego corre sério risco, mais que isso, ele terá que lidar com a imagem que os empregados criaram a seu respeito a partir de e-mails e informações que o Executivo passou ao grupo.

A situação dá margem a uma série de situações bem engraçadas e também a uma série de metáforas que dão conta de algumas situações bem presentes da sociedade atual, relacionadas ou não ao mundo coorporativo. Entre elas, uma inquietação do próprio Lars Von Trier que é a da imposição por parte da América de uma cultura e conduta a todos os povos, mesmo os mais distantes, caso dos dinamarqueses. Essa questão se não está no cerne de “O Grande Chefe”, permeia o filme na referência ao fato do chefe, ou melhor, suposto chefe, coordenar tudo dos EUA. A criação dessa personagem distante que detém todo o poder, máscara uma situação de dominação - algo como as imagens projetadas na caverna de Platão - tornando mais confortável e hábil ao Executivo, o manejo da situação e de seu gado. Tal situação e a recusa do ator, depois de conhecer melhor a situação, a exercer seu papel, tal qual estipula o contrato feito entre ele e o Executivo, rende ao filme, além de boas piadas, uma boa discussão. Estamos, de novo, no terreno dos duplos, sempre presentes no obra do cineasta dinamarquês: personagens que são ou se fazem passar por idiotas, bondosos, piedosos, pacifistas, mas que nunca se deixam ver com certeza ou se apreender na inteireza de suas ações.

Se no terreno da fábula ou trama, o filme é rico e aberto; no campo mais estético, algumas opções do diretor são bem questionáveis. O uso de enquadramentos aleatórios, escolhidos por um computador, e os cortes igualmente estranhos chegam a desnortear e cansar, e, dependendo da adesão do espectador ao filme, podem até invalidar a proposta do diretor. Outro recurso usado por Lars Von Trier bastante questionável é o da narração em off. Neste filme, ela é feita pelo próprio diretor e sobre as imagens da fachada do prédio, num lento movimento de câmera numa grua. Esse texto em off que serve de guia do filme e que assume um tom irônico, tenho receio de usar o termo cínico e sua conotação mais pejorativa, incomoda muitos que o vêm como um olhar de cima para baixo - crítica, aliás, comum também e redutora ao trabalho do brasileiro Sérgio Bianchi que usa esse mesmo recurso sem a mesma desenvoltura de Lars Von Trier.

Todos esses estratagemas de Von Trier, essa negação do fazer cinema, seja pela eliminação do cenário caso de “Dogville” e “Manderlay”; seja pela automatização dos planos e cortes, caso de “O Grande Chefe”; seja pelo uso de uma narração acentuadamente antiilusionista, distanciada, mas onisciente de boa parte dos seus filmes, apontam para uma ruptura, brechtiana, entre o espetáculo, entretenimento, e o cinema que se permite, ingenuamente ou não, querer ser transformador. Todo o antiilusionismo presente nos filmes recentes de Von Trier privilegiam o discurso engajado e notadamente político à forma, ao plano bem elaborado, à montagem ilusionista. È uma opção assumida do diretor. Não há outra forma de pensar o seu cinema. Reduzi-lo a cínico ou arrogante, mais que uma recusa ao seu “não-cinema”, é uma forma de ignorar aspectos interessantes e inteligentes da obra de um cineasta que construiu uma trajetória bastante singular nos últimos 20 anos, fazendo do cinema um meio de recusa a padrões dominantes, inclusive cinematográficos.
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