HARMADA:


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Original: HARMADA
País: Brasil
Direção: Maurice Capovilla
Elenco: Paulo César Pereio, Joana Medeiros e Malu Galli
Duração: 91 min
Estréia: 26-08-2005
Ano: 2003


“Harmada”: que belo filme.


Autor: Cesar Zamberlan

Para quem anda meio triste com os rumos do cinema brasileiro, sua falta de ousadia e com a idéia que um bom filme precisa ser feito com milhões e mais milhões e para milhões, “Harmada”, a volta de Maurice Capovilla ao cinema, é mais que um alento.

Autoral, pequeno e grande, “Harmada” não tem medo de ousar, de buscar soluções narrativas, de errar e essa coragem faz com que mesmo quando erra - ou melhor quando não é tão feliz nas suas buscas - “Harmada” seja muito simpático.

Imagino que para uma pessoa que vá ao cinema em busca de uma história, de verossimilhança, “Harmada” não seja um filme fácil. De fato, Capovilla vai na contramão desse cinema que, na maioria das vezes, é excessivamente narrado, sem espaços para o espectador se projetar ou para qualquer outro tipo de fuga. Portanto, se você é daqueles que vai ao cinema só para divertir, se é esse o perfil de filme que procura, veja, ou tente ver, “Harmada” com outros olhos. Se abra para ele, sem preconceito. Veja o filme com o descomprometimento de quem lê uma poesia, ou seja, se abra a possibilidade de não entendê-lo por inteiro, mas curta e saboreie o cinema/teatro/poesia, a luz, a insolência e malemolência de Peréio e muitas outras coisas que o filme traz.

“Harmada” é um filme de amor ao teatro, de amor ao ator - Peréio, no caso - e de amor também à Paraty. Como é bela a cidade emoldurada pelas janelas dos casarões antigos sem precisar em que época o filme se passa, o quê de fato, pouco importa já que Capovilla fala de todos os tempos, do abandono que é a nossa condição, do abandonar-se, do entregar-se, do perder-se e achar-se. Dessa entrega cheia de amor e dor que é a própria vida, própria ao teatro.

O filme, para aqueles que querem mesmo que minimamente um fio de história, tem como personagem central um ator sem nome, vivido por Peréio, um mambembe, às vezes, inteligente; às vezes, amoroso; às vezes, indigente e sempre errante que se recolhe numa cidade sem data: Paraty, e se envolve com as mais diferentes e porque não encantadoras criaturas: um trio de atores mambembes, uma maluca imbuída de um desejo de vingança, um grupo de indigentes que como ele desistiram, temporariamente ou não, de buscar sentidos; e com a filha de uma das atrizes do trio, Cris(e) que ele chegou a carregar no colo, no início do filme. Mas a história, também importa menos. O que importa é a forma, a poesia, o personagem de Peréio, num filme feito à sua medida.

Por falar em forma, adoro a opção do cineasta em embaralhar teatro e cinema, fazendo não um teatro-filmado, mas um cinema teatralizado. Certas seqüências são oníricas de uma beleza gritante, se superado o choque que essa dramatização das falas causa. Em poucos, raros momentos, você tem diálogos naturalistas, cuja encenação busca retratar a realidade. Quase sempre as falas são teatrais, os diálogos carregados da energia do teatro, da poesia de Brecht e Hilda Hist, só para citar dois autores que aparecem no belo texto de “Harmada”.

Foi muito bom ver “Harmada” e espero que fique algum tempo em cartaz para que possa revê-lo. O bom cinema: ousado, criativo e poético revigora e uma cinematografia precisa tanto desses filmes como dos comerciais e porquê não muito competentes “Cidade de Deus”, Central do Brasil” e “2 Filhos de Francisco”. Há espaço para todos, desde que com sinceridade e qualidade.

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