ENCONTRO COM MILTON SANTOS OU: O MUNDO GLOBAL VISTO DO LADO DE CÁ:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Silvio Tendler
Elenco: Documentário
Duração: 89 min.
Estréia: 17/08/07
Ano: 2006


Controverso


Autor: Marcelo Miranda

Quando exibido no festival de Brasília, no ano passado, o documentário “Encontro com Milton Santos ou O Mundo Global Visto do Lado de Cá” do carioca Silvio Tendler foi o único dos seis longas do festival a ser aplaudido de pé pelas mais de 800 pessoas presentes no Cine Brasília. E não só isso: ao longo dos 90 minutos de filme, palmas eram puxadas a cada declaração de cunho nacionalista ou anti-globalização.

Tendler não documenta Milton Santos. Ele parte do geógrafo baiano morto em 2001 para desenvolver uma série de idéias sobre o estado econômico e social de um mundo quase sem fronteiras. Só que “Encontro com Milton Santos” parece esquecer estar no cinema e dá total guinada para o didatismo mais puro e simplório. Letreiros, narrações em off, trechos de entrevistas, tudo está lá, montadinho e ajeitado para causar frisson em cima dos absurdos do subdesenvolvimento e da concentração de renda. A certa altura, e sendo aqui um pouco cruel, tem-se a noção de se estar assistindo a algum programa Telecurso.

Longe de esgotar o tema principal, mas louvável por colocá-lo em pauta, o filme não tem preocupação alguma com construção cinematográfica e muito menos com o fazer documental. As idéias pré-concebidas de Tendler, muito bem inspiradas por Milton Santos, são lançadas na tela e confirmadas com imagens e falas de intelectuais do mundo inteiro. Revoltas populares no Equador, Bolívia e Argentina são apresentadas, enquanto o Brasil é pintado como país passivo em relação aos vizinhos – olhar de certa forma semelhante a “Baixio das Bestas”, de Cláudio Assis, que também foi exibido no mesmo festival Brasília.

O filme respira bem quando deixa a câmera trabalhar por sua própria conta. Exemplo disso está no registro dos moradores da região de Ceilândia, próximo a Brasília, ou nas declarações tanto de Milton quanto de colegas de opinião semelhante – o escritor José Saramago dá o melhor depoimento, quando diz que os órgãos mundiais responsáveis pelos rumos econômicos não têm cunho democrático nem representação popular.

Tendler assume não buscar um cinema mais elaborado – já era assim em “Glauber, o filme: Labirinto do Brasil”, em especial. Interessa a ele expor suas crenças e apresentá-las da forma mais “acessível” possível. Há, nisso, uma questão bastante complexa: o cinema também deve ter a função de educar? Outra questão ainda mais profunda: um filme é político apenas por falar de política? Um festival como Brasília coloca na competição um longa que questiona os rumos da democracia e dos famigerados ajustes fiscais, baseado nas idéias de um dos maiores nomes da geopolítica mundial – Milton Santos. Isso é suficiente para qualificá-lo como obra a figurar num evento que privilegia justamente o debate político? Não será este humilde crítico a responder tais questões, mas ao menos elas estão na mesa. Goste-se ou não de “Encontro com Milton Santos”, ele suscita mais controvérsias do que suas reais intenções pretendiam.

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