BUBBLE:


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Original: Há-Buah
País: Israel/França
Direção: Eytan Fox
Elenco: Ohad Knoller, Yousef Sweid, Alon Friedman e Daniela Virtzer.
Duração: 117 min.
Estréia: 17/08/07
Ano: 2006


Pisando em ovos


Autor: Anahí Borges

Eytan Fox ao realizar “Bubble” esteve diante de dois riscos principais: retratar o universo homossexual de Tel Aviv, assim como os conflitos seculares entre judeus e palestinos. Dois terrenos delicados de serem explorados pelo cinema de modo original, seja porque por si só são temas fomentadores de debates em muitas sociedades, seja porque o cinema é a arte que está mais atrelada aos códigos de reprodução do real e em ambos os casos os riscos de pisar no lugar-comum da abordagem desses temas é algo incomensurável.

Como filme político-histórico, “Bubble” concentra os poucos bons momentos nas cenas que se passam na fronteira da cidade, interessantes pelo caráter documental que possuem: a câmera na mão, iluminação contrastada, e, principalmente, a opção de intercalar o olhar do narrador com imagens em sépia captadas pela câmera da personagem são os elementos que caracterizam esse discurso documental. Além disso, as imagens em sépia nessas cenas também criam tensão na história, como se a câmera da personagem fosse revelar algo que os espectadores não têm acesso pelo olhar oficial do narrador. No entanto, os demais momentos em que Eytan Fox elabora um discurso político ele perde a mão e a criatividade e passa a transitar por clichês na retratação do conflito no Oriente Médio, por exemplo, ao caracterizar o cunhado de Ashraf como terrorista e um dos chefes do Hamas. A personagem é estereotipada, cheia de características negativas e estabelece um contraponto maniqueísta na narrativa que culmina no atentado liderado em Tel Aviv. A partir desse instante o filme se torna desinteressante e pouco convincente, com ações esquemáticas de violência, retaliação e tragédias.

Como filme gay, “Bubble” também resvala nos chavões do que vem sendo produzido comercialmente: personagem em crise com a sexualidade, enfrenta dificuldades para se assumir e no final, depois de muitas situações de dor, conflitos e paixão, o casal não fica junto, ou seja, não há final feliz. Em “Bubble” o final do filme é o pior possível, completamente incoerente, gratuito e fatalístico. O palestino resolve virar homem-bomba e se explodir junto com o amado judeu num atentado em Tel Aviv para desta forma resolver dois conflitos emocionais: o amor proibido que sente pelo parceiro e a raiva que sente de sua irmã ter sido assassinada por soldados judeus. Tal saída dramática, entretanto, não convence visto que esses conflitos de Ashraf não são desenvolvidos na obra a ponto de justificar o suicídio da personagem. Pelo contrário, as atitudes que ele tem ao longo da narrativa apontam justamente para o oposto - a resolução de seu mal-estar: quando fala para sua irmã sobre sua sexualidade, ou mesmo, minutos antes de decidir morrer, quando liga para Noam e declara seu amor. E de repente, Eytan Fox opta pela inversão de expectativas alla “deus ex maquina” e cria um final apocalíptico e mal fundamentado. Final este muito conservador por sinal e que toca no incômodo do público GLBTS com a produção cinematográfica recente de temática gay que opta sempre pela tragédia e infelicidade do casal homossexual, pela impossibilidade da realização amorosa.

Apesar de ter ousado abordar temas tão delicados, o que “Bubble” tem de melhor não é a temática da homossexualidade e tampouco o modo como explora os choques culturais entre árabes e judeus, mas o retrato que faz da juventude de classe média contemporânea em Tel Aviv: suas cores, desejos, conflitos, ansiedades. Eytan Fox ama, respeita e admira suas personagens. Colocando-se ao lado delas em cada instante (com exceção aos vinte últimos minutos) o diretor compõe uma rede de situações corriqueiras e despretensiosas em que todos convivem em consonância e bom-humor. Independentemente de serem jovens consumistas e economicamente privilegiados que vivem numa cidade tida como “bolha” eles buscam ao seu modo compreender as dificuldades político-sociais que os cercam, reagindo a elas com vitalidade, afetividade, emoção e criatividade. Eytan Fox faz uma composição romântica, sensível, colorida e afetuosa dessa juventude de maneira legítima por acreditar naquilo que diz e faz. Por isso mesmo, voltando aos minutos finais do filme: a opção de deixar Yale aleijado e matar Noam e Ashraf, prometendo-lhes o “Paraíso” foram opções incoerentes e desonestas do cineasta com sua obra, pois, durante pelo menos noventa minutos ele se colocou ao lado de suas personagens, prometendo-lhes cumplicidade. Se um dos méritos de “Bubble” é a sinceridade com a qual o diretor o realiza e o modo como acredita no que acontece na história, os seus momentos derradeiros pecam pelo artificialismo, descrença e orfandade, em prol de um discurso panfletário com pitadas de melodrama. Quem Eytan Fox quis emocionar com isso?
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