OS SIMPSONS - O FILME:


Fonte: [+] [-]
Original: The Simpsons Movie
País: EUA
Direção: David Silverman
Elenco: Animação
Duração: 90 min.
Estréia: 17/08/07
Ano: 2007


"Os Simpson - O Filme" - Querida, estiquei a tela.


Autor: Marcelo Lyra

Logo no início de Os Simpsons, Homer está no cinema assistindo Comichão e Coçadinha, versão para tela grande do sádico desenho de TV favorito de seus filhos, uma espécie de Tom & Jerry versão Punk Rock. A auto-referência óbvia termina com Homer gritando “Somos otários por pagar por algo que podemos assistir de graça na TV!”. É uma auto-gozação típica de Matt Groening, criador da série, mas que de certa forma cria a expectativa que o espectador de verdade vai assistir a algo mais que o oferecido pelo desenho na TV, o que não ocorre.

Na tela pequena a série se caracteriza não apenas pela crítica social e pelo aguçado senso de humor, mas também por uma impressionante utilização do quadro, cuja dinâmica influi diretamente na dramaturgia. No entanto, não houve sacadas visuais na utilização da tela grande. O desenho apenas cresceu. Estão lá, assim como sempre estiveram na série de TV, os enquadramentos exóticos (como um sanduíche sendo comido, visto de dentro da boca); os planos ousados, travelings, zoons e movimentos de câmera inusitados. Um espanto, descoberta ou explosão podem fazer a perspectiva sair para fora do planeta, por exemplo. O plano do sanduíche citado lembra o rosto de Hommer vendo um bolo de carne no microondas mostrado de dentro do aparelho, no episódio Todo Mundo Morre um Dia, da segunda temporada, a melhor de todas.

Também estão lá, como na série, gozações para todos os lados. O filme ecológico do ex-vice Al Gore, o desenho Bambi, a candidatura de Hilary Clinton, as propagandas do canal Fox (produtor da série) em plena programação, nada escapa ao humor ácido de Groening.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas realmente, após pouco mais de meia hora, os fãs habituais da série, a despeito de algumas boas risadas, começam a ter uma sensação de filme repetido. A história do desastre ecológico que ganha grandes proporções lembra o episódio O Peixe de Três Olhos, também da segunda temporada, que tem o mesmo clima pró-natureza do filme. Só que lá, quem contamina o lago da cidade é a usina atômica do sr. Burns. Até o tal peixe lembra muito o esquilo mutante de 20 olhos que aparece no filme.

O desastre provocado por Hommer lembra o episódio Definindo Homer, da terceira temporada, no qual ele leva a usina à beira de um acidente nuclear e vira herói por acaso. E a cidade contra a família foi tema do episódio em que Bart quebra a cabeça do fundador da cidade.

Com a série no ar há 18 anos, é mesmo quase impossível achar algo que ainda não tenha ocorrido à família Simpson, de modo que isso nem chega a ser um grande problema, ainda mais quando se sabe que o público médio do cinema quer sempre mais do mesmo. Mas, de um fã da série para outro, há episódios da TV bem mais divertidos. Além dos já citados no início deste texto, lembro de cabeça os antológicos Bart o Destemido (2ª temp), com Bart querendo ser skatista radical (a cena em que Homer pula o desfiladeiro de Springfield de skate se repete no filme com uma moto); Homer Contra Lisa e o 8º Mandamento (2ª temp) em que Homer consegue uma conexão pirata de TV a cabo; Homer, o Herege (4ª temp), onde ele decide não mais ir à igreja; Moe Flamejante (3ª temp), sátira à fórmula secreta da Coca-Cola, com Homer criando uma bebida que vira mania nacional; sem falar em Margie Contra o Monotrilho (4ª temp), que tem uma das melhores aberturas, parodiando Os Flintstones, com direito a Homer gritando Yabadabadú na versão original. Qualquer um que assista a esses episódios se converterá em mais um fã.

Já que falamos em versão original, é inevitável comentar a questão da dublagem. A voz que dublou Homer nas primeiras temporadas brasileiras é mesmo imbatível. Atrevo-me a dizer que é melhor que a original. Sua exclamação de felicidade (Hu-hú!!) é impagável. O dublador entendeu bem certas nuances do comportamento do personagem e traduziu isso para a voz com inteligência. Houve um segundo dublador brasileiro, que tinha um tom mais próximo do original, mas ainda assim frustrante para quem curtia o primeiro. Esse que dubla o filme parece uma mistura dos dois. Não é bom nem ruim, mas nos lembra que é um absurdo o personagem trocar de voz no meio do caminho. Coisas do dinheiro, da ganância que afeta artistas e executivos de seriados duradouros. A Feiticeira não trocou o ator que faz James, o marido de Samantha de uma temporada para outra? Os Monstros não trocou a atriz que faz a filha bonitinha? Paciência, fã detalhista, paciência.

Colocando prós e contras na balança, a conclusão é que vale arriscar uma visita a Os Simpsons na tela grande. Seu principal mérito é manter o ritmo ágil da narrativa do seriado, driblando bem a armadilha de torná-lo cansativo a quem estava habituado aos 21 minutos da TV. De fato, os 80 minutos fluem com muita facilidade, a ponto de ser uma surpresa quando sobem os créditos. Sem ser nenhuma obra prima, o filme funciona bem não só para fãs da série, mas para qualquer um que saiba apreciar um roteiro inteligente e divertido. E qual comédia, dentre as que estão em cartaz hoje, provoca tão boas risadas?

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