PERSON:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Marina Person
Elenco: Docuumentário
Duração: 74 min.
Estréia: 10/08/07
Ano: 2007


"Person" – digno retrato.


Autor: Cid Nader

Documentar num longa, personalidades que têm facilíssimo trânsito no imaginário e no reconhecimento de alguns segmentos - mesmo que possam ser totalmente ignoradas em sua existência e em sua obra por grandes parcelas de quem assistirá a esse trabalho -, requer coragem, bom jogo de cintura e bom conhecimento dos meandros de como se confecciona cinema documental. Marina Person é uma pessoa que curte cinema, dá palpites, se interessa – por ser alguém de alto reconhecimento dentro do mundo midiático, tem as portas mais facilmente escancaradas para o exercício de suas opiniões -, e não se fez de rogada quando resolveu que iria fazer um trabalho registrando a vida de seu pai: o grande e quase mitológico cineasta, Luís Sérgio Person. Revelar aos desavisados – e principalmente aos "avisados" - meandros da vida e da obra do diretor, que é considerado por alguns como um dos maiores da história do cinema nacional (um dos maiores representantes paulistas do que se imagina como cinema de invenção, transgressão, transbordamento das regras – há Tonacci, Sganzerla -), no mesmo patamar de genialidade dos grandes mitos, já imporia respeito e temor a quem quer que fosse o encarregado de fazê-lo. Quando se imagina que alguém tão próximo quanto um filho (no caso aqui, filha) tenha tomado para si tal tarefa, uma certa desconfiança – talvez, receio pela isenção que o "afastamento" empresta aos retratistas seja um termo mais correto - não deixa de pairar no ar. A possibilidade de um "enfoque" familiar demais, sentimental demais, é algo absolutamente possível de acontecer nesses casos – junto com uma contaminação do trabalho que poderia comprometê-lo, principalmente, a título de informação.

Mas Marina, a cineasta, mostrou em seu filme que talvez tenha herdado algo da carga genética do pai, apresentando algo que resultou singelo, mas também informativo; com reminiscências familiares, mas com informações e depoimentos elucidativos (e informativos). Com uma bem-vinda alternância não calculada e não matemática entre cenas de arquivo, cenas de filme e declarações de amigos, o documentário caminha fácil e fluido por toda a sua extensão. Há um detalhe que veio por caso e chancela um padrão de qualidade inovadora ao trabalho, por conta dos momentos "atuais" de imagens, que se fazem interessante porque não são atuais verdadeiramente – os depoimentos que ela colhe, a interação com a mãe Regina ou com a irmã Domingas, foram feitos há alguns anos, e suas feições um pouco mais jovens criam um clima surpreendente e até certo ponto inédito. Emprestam ao filme, em seu lado intimista, algo que não se vê normalmente.

Todas as pessoas que falam de Person, o fazem com admiração. Admiração mesmo. Parece que ele era um ídolo entre o pessoal do cinema e entre os amigos; uma figura ímpar é revelada a quem não o conheceu, ou somente por sua obra, e isso constitui uma das possibilidades que documentários devem executar – ponto a favor. As cenas de seus filmes são costuradas sem deixar caroços – elas inserem-se em meio às "atualidades" de forma muito natural, não criando o precipício reverencial que normalmente ocorre, em busca de catarses místicas e adoradoras (fato comum, cartilhinesco, bastante utilizado por veteranos documentaristas como meio de "elevação" da figura retratada – principalmente se for meio cinematográfico -, do qual Marina escapou com sobriedade e bom senso). Ela, Regina e Domingas demonstram um carinho autêntico por ele – rola até um certo saudosismo em suas conversas que poderia parecer exagerado se o trabalho não fosse tão "sincero" ao explicitá-los. Além do mais, a diretora/filha, demonstra que entende do riscado – e aí poderia pensar-se na garota que tem sua imagem vinculada à MTV, já muitos anos, atuando-, também, pela interessantíssima opção musical que permeia e conduz o filme, chegando a um auge de qualidade e arrebatamento quando, sonorizando imagens familiares antigas, a voz de Jorge Benjor entoa a bela música que leva o nome de Domingas.

O próprio Luís Sérgio agradeceria tanta singeleza e cuidado com sua imagem.

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