O PRIMO BASÍLIO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Daniel Filho
Elenco: Débora Fallabela, Reynaldo Gianecchini, Fábio Assunção e Glória Pires.
Duração: 100 min.
Estréia: 10/08/07
Ano: 2007


Amor mais que à flor da pele


Autor: Marcelo Miranda

A noção por trás do melodrama é a dos amores maiores que a vida, das façanhas pela conquista, da busca desenfreada pela felicidade e, acima de tudo, pelo afeto. Nessa busca, os personagens do melodrama se dispõem a enfrentar doenças, fenômenos da natureza, rivais, inimigos e até mesmo a morte – tudo para atingir o que, na própria concepção do subgênero, é inatingível. Vide os anti-heróis derrotados de Douglas Sirk, referência do melodrama no cinema, ou ainda de Rainer Fassbinder e – por que não? – Pedro Almodóvar.

"Primo Basílio", nova empreitada de Daniel Filho nos cinemas, ambiciona ser um exemplar típico dessa "escola sentimental". Só que, em vez de acreditar nos cânones que a regem, o diretor preferiu potencializar na tela o que é já exagerado e exacerbado. Não bastou a Daniel Filho realizar um melodrama. Ele precisava demonstrar ao espectador o que está tentando fazer e não deixar qualquer tipo de dúvida sobre suas intenções. Se existe dor em alguma cena, a música entra de forma ensurdecedora para catalisar essa mesma dor; se há um flagrante de algum delito ou atitude suspeita, um primeiro plano faz questão de enquadrar o rosto do meliante (junto à música, é claro); se a aguardada noite de amor dos pombinhos acontece, não basta que eles se amem propriamente: é preciso incidir mais luz sobre seus corpos, colocar umas frutas em close e obviamente insinuar através do fogo que a coisa ali está fervendo.

É esta a fórmula maior de Daniel Filho em "Primo Basílio": fazer do melodrama mais do que ele é. Hora alguma há tentativa de relativizá-lo ou mesmo de referenciá-lo simplesmente (como muito bem fez Todd Haynes em "Longe do Paraíso", ou então Nick Cassavetes no belíssimo "Diário de Uma Paixão"). Importa mais ao diretor colocar em cena a sua descrença na crença do público – como se fosse a este impossível acreditar no amor exposto na tela. E para forçar a crença, utilizam-se todos os artifícios mais grosseiros. É um mecanismo – para ficar no lugar-comum – típico da televisão. O telespectador não se coloca de frente à tela pequena para ter a mente embaralhada. Quanto mais direto ao ponto e quanto menos sutileza, melhor, porque não há tempo nem disposição de se ficar decifrando códigos de linguagem. OK, como negar isto à TV, que, por definição, é espaço maior de entretenimento e pouca reflexão? Mas a partir do momento em que essa linguagem chega ao cinema, a partir do instante em que ela se torna saída fácil para a mediocridade num universo em que o medíocre deveria ser ignorado ao máximo, aí a coisa muda de figura.

Surpreendentemente, "Primo Basílio" não é de todo destituído de interesses. Pelo contrário: em vista dos filmes anteriores de Daniel Filho (em que o ponto mais baixo foi "Muito Gelo e Dois Dedos D'Água"), "Primo Basílio" torna-se a sua obra-prima. Nenhum outro de seus trabalhos tinha tamanha sofisticação como agora – sofisticação de produção, de tratamento de elenco, de roteiro. Mas o maior achado do filme nem é responsabilidade do diretor. Está na história de Eça de Queiroz que originou o filme.

O romance "O Primo Basílio" é uma das narrativas mais fortes da literatura portuguesa – em tudo que ela tem de ironia, crueldade, sadismo e crítica à burguesia de classe média. Ainda que tenha modificado alguns elementos da trama original – o maior deles é a mudança de ambientação, saindo da Lisboa do século XIX para a São Paulo de 1958 –, o roteiro de Euclydes Marinho mantém certa essência do romance, em especial na relação invertida entre patroa e empregada que, a certa altura, toma todo o espaço na trama (e que remete, guardadas as proporções, ao antológico "O Criado", de Joseph Losey).

A força da criação de Eça consegue fazer com que "Primo Basílio" ganhe certa sobrevida. O longa poderia se tornar um pequeno marco do melodrama se de fato acreditasse em seu próprio universo e parasse de tentar, a todo instante, esfregar nos olhos do espectador mais do que está realmente acontecendo na tela. Na melhor das hipóteses, o filme serve como porta de entrada (ou de recordações) da literatura de Eça de Queiroz, esta sim uma obra-prima que sabia tirar do melodrama o que ele possui de mais intenso e verdadeiramente romântico e trágico.

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