A COMÉDIA DO PODER:


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Original: L´Ivresse du pouvoir
País: França
Direção: Claude Chabrol
Elenco: Isabelle Huppert, François Berléand, Patrick Bruel, Robin Renucci, Marilyne Canto, Thomas Chabrol, Jean-François Balmer, Pierre Vernier, Jacques Boudet, Philippe Duclos, Jean-Christophe Bouvet.
Duração: 110 min.
Estréia: 03/08/08
Ano: 2005


A Comédia do Poder – um Chabrol que repete a França, mas não a si.


Autor: Cid Nader

Se alguém tem a pachorra, ou a ingenuidade, de imaginar que corrupção é exclusividade nossa: engano. Se alguém, um pouco mais inteirado, sabe que corruptores e corrompíveis existem em qualquer rincão do planeta, mas imagina que tratar do assunto indignada e abertamente é coisa de nossos hermanitos argentinos – sempre dispostos a comprar uma boa briga -, ou de algum cineasta "engajado" norte-americano sempre disposto a cumprir o papel de "defensor" das causas dos povos pobres: segundo engano. Será que alguém nesse mundo deixou de ouvir algo a respeito da famosa operação "mãos limpas", que tomou políticos e industriais italianos pelas orelhas conduzindo-os em grande número para trás das grades, num exemplo a ser seguido por quem se imagine honesto? Pois é, a França, da civilização iluminista, da igualdade e fraternidade, também sofre em seus interiores racionais com o problema, a ponto de fazer com que um dos mestres do cinema francês ainda em atividade, Claude Chabrol, se aventurasse por caminho tão árduo, em busca de esclarecimentos e paz interior.

Talvez a motivação maior a levar o veterano cineasta a tratar do assunto tenha sido a oportunidade de tratar e falar do poder (aquela coisa muito mais forte do que o simples roubo de galinhas, e que afeta muito mais gente do que simplesmente o vizinho de chácara)– algo que caminha, descaradamente, par-a-par com os participantes dessa modalidade de crime. O poder e os poderosos tem valor suficiente e lugar garantido na história das artes narradas. Chabrol sentiu a possibilidade de tratar do assunto por vias muito mais próximas do que histórias de época, abraçou um famoso caso de escândalo financeiro em seu país e resolveu tentar puni-lo com a atriz fetiche de alguns cineastas e dos francófilos espalhados mundo afora, Isabelle Hupert. Ela faz a juíza (Jeanne Charmant-Killman) que se encarrega de denunciar os envolvidos no escândalo, e começa a caça aprisionando o empresário Michel Humeau (vivido por François Borléand), mais como um exemplo de como deveria agir uma justiça dura e punitiva que se abateria sobre o restante dos envolvidos – com muito maior carga de responsabilidade do que o engaiolado empresário -, do que por convicção de sua culpabilidade exclusiva. Ela demonstra, também, abuso do poder que tem em mãos para conduzir as investigações e o início do inquérito, e isso acaba por evidenciar o duplo sentido que faz contra-peso interessante ao poder emanado pelos envolvidos no crime.

Só que Chabrol não estava com a mão tão calibrada quando aceitou tal empreitada, e acabou conduzindo-a por vias muito menos densas e interessantes do que as obtidas em seu trabalho anterior, "A Dama de Honra", por exemplo, onde demonstrou porque é considerado mestre por alguns e de onde retirou uma obra exemplar. Sei que o diretor consegue exercitar algumas de suas marcas registradas – principalmente as utilizadas em obras mais recentes, como o distanciamento "frio" captado matematicamente pelas lentes, por exemplo –, mas isso, se o reconfigura como um grande esteta que sabe "contar" coisas através dos movimentos de câmera ou de opções seqüenciais na montagem desses seus trabalhos mais próximos no tempo, o impede um pouco na opção (novamente matemática, reta, fria) pelos modelos de atuação.

O filme não tem aquele "algo a mais" - a que modestamente chamo de essência para angariar confiança - e caminha por vias bastante comuns, esbarrando diversas vezes em situações com alto teor de clichês (creio que protagonistas muito "desenhados" tendem a nos fazer referir a figuras outras na história do cinema; daí a "clichesismos", um passo. Além do mais – e já me imagino crucificado por algumas dezenas de conhecidos por tal afirmação – utilizar Hupert em filmes é mais ou menos como disputar um campeonato inteiro de futebol dentro do mesmo estádio – moderno, elegante e respeitado, sim, mas com a mesma cara, a mesma grama, os mesmos buracos se repetindo durante todo o torneio (as tais repetições de atuação). A atriz, muito senhora de si, é incapaz de criar tipos muito diferentes do que imagino ela seja na realidade. Com cara de poucos amigos, olhar enojado e de superioridade, vem conduzindo sua carreira com um quase repetir eterno de modelos de interpretação. Nesse filme até que tenta travestir-se com nuances mais sarcásticas e de humor ferino, mas a sua marca registrada se sobrepõe a tudo e, ao final, resta a certeza de que vimos um filme com Isabelle H., e não com a juíza Charmant Kilmann. Atriz "chabrolinana" por excelência?

E mais um sobrinho dela sem muito sentido em sua falta de objetivos. Para mim um Chabrol menor, viciado pelos piores entorpecentes da parte ruim do cinema francês. Não o Chabrol francês que tem tudo do cinema francês em seu cinema, mas que ganhou vida própria e respeito por ser quase criador de uma sub-escola.

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