LEIS DE FAMÍLIA:


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Original: Derecho de Família
País: Argentina
Direção: Daniel Burman
Elenco: Daniel Hendler, Arturo Goetz, Julieta Díaz.
Duração: 103 min.
Estréia: 03/08/08
Ano: 2006


Mais maduro e mais atento ao valor da leveza


Autor: Cid Nader

Daniel Burman, esse jovem diretor argentino, aparece como um dos mais produtivos dessa nova safra de realizadores do país vizinho. Encarou desde o início que seu objetivo, sua carreira, seria fazer filmes de evidente teor familiar, onde retrataria sua comunidade (a judaica), relatando óbvias lembranças de infância, sensações adquiridas e armazenadas pelo convívio com os seus, numa situação "reverencial" à Woody Allen – aliás, o maior retratista contemporâneo específico de um povo imigrante, sem ter que adentrar no mundo dos relatos épicos para discorrer os "feitos" de sua gente. E acho que já aí dá para se notar um grande e importante diferencial entre os dois realizadores. Enquanto o genial Woody transcorre seus relatos com humor afiado – aliás, resgatado da tradição secular e reconhecidíssima do humor judaico, que tem um olhar carinhoso, malandro e auto-gozador para o próprio umbigo -, observações que contestam mas conduzidas por uma irreverência bastante esperta e lépida, o diretor argentino costuma fazer filmes mais "pesados" ("densos" não seria palavra que sempre se aplicaria bem), pois alguns resultados, realmente, acabam resultando superficiais na proposta, lentos e arrastados, de baixa densidade e com "retrogosto" um tanto impróprio.

Só que parece que o plano de carreira foi traçado para não ser modificado – ao menos por enquanto – e até um ator alter-ego ele tem usado sistematicamente, como que para dar mais aval à proposta: Daniel Hendler. Ator de expressividade contida, blasé, com olhar meio perdido, trejeitos de sorrisos entristecidos, que nunca se abre definitivamente – imagino, sem conhecer, que represente um ideal do diretor, se não ele próprio. Nesse novo filme, no entanto, o ator e o diretor se saíram melhor, e o resultado talvez indique ser este trabalho mais bem resolvido de Burman, até hoje. A narrativa "em off", é carregada de uma ironia um tanto mais afiada do que o tradicional - apesar de discorrer assuntos recorrentes a todo o pregresso de sua obra. Inicia falando de um pai advogado, judeu de Buenos Aires, com imagens "sub-postas" ao texto, transferindo, após um período, o foco da narrativa para o centro da trama, que é, na realidade, protagonizado pelo filho do advogado, Ariel Perelman (o próprio Hendler). As situações são bem boladas, desde o momento em que ele é apenas um professor, com intromissões cada vez mais raras do tal discurso "em off" – mas sempre recheados com um humor, no mínimo, ajustado e adequado -, e avançam sem muitos tropeços, com casamento e aparecimento de um filho.

A grande diferença está na "ligeireza" e leveza com que é tratado o amor que acomete Ariel durante os momentos em ele é professor e se apaixona – inadequadamente – por uma aluna, Sandra (Julieta Díaz). As situações pelas quais envereda em busca das probabilidades de encontros com a "garota", são de matiz mais leve, num distanciamento da "culpa", que de variadas maneiras sempre recheou e pesou a obra do diretor. Continua a utilizar sua comunidade como meio de deslocamento da narrativa, mas se aproximou muito mais do modo debochado que Woody Allen sempre utilizou para retratar o mesmo povo. Talvez, um pouco mais amadurecido, tenha perdido aquela "rigidez" e sisudez que embota as razões de jovens realizadores.

É o processo – o da vida mais comum – que serve aos planos do diretor nesse trabalho. Do começo ao fim. Mas com um ajuste mais adequado no tempo da comédia. E é bastante relevante e importante a "participação" do pequeno filho de Ariel na confecção do filme; com o diretor sabendo aproveitar-se, e bem, do inato humor infantil, evidenciando as situações que envolvem o menininho. O filme mais correto de Burman; e apesar de tratar também, em alguns canais, da finitude da vida, o mais bem-humorado.

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