CONCEIÇÃO - AUTOR BOM É AUTOR MORTO:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: André Sampaio, Cynthia Sims, Daniel Caetano, Guilherme Sarmiento e Samantha Ribeiro.
Elenco: Jards Macalé, Augusto Madeira, Isabel Tornaghi, entre outros.
Duração: 78 min.
Estréia: 27/07/07
Ano: 2006


"Conceição - Autor Bom é Autor Morto" - ao cinema, pelo cinema


Autor: Cid Nader

Pensar em filme de autor. Paro por vezes para imaginar qual seria meu maior motivador para continuar a escrever textos - pretensas críticas - sobre obra alheia. Várias motivações me incitam a deixar de exercer tal ofício. Poucas - para não dizer que uma, somente - me tocam a fronte, incentivam, e sussurram: continue, vale a pena. Pensar em filme de autor, afinal, seria essa uma.

Falar do filme/experimento/teorização, colocado na prática/obra escrachada/ação entre amigos, "Conceição - Autor Bom é Autor Morto", me remete automaticamente à figura de um de seus diretores, Daniel Caetano, um dos veteranos (apesar de não ser tão velho mesmo) da revista eletrônica Contracampo, grande teórico do cinema e suas maneiras, e maior defensor ainda do cinema brasileiro - principalmente aquele que caminha pelas vias menos "iluminadas" e mais marginais; menos comportadas e conformadas; mais autorais - sob minha ótica de entender o que é autoria e trabalho autoral, sem a imprecação mais acadêmica do tema. O próprio Caetano costuma debater e combater a idéia do autor no Brasil, imaginado-a como algo muito distante dentro de nossa realidade, e muito mais ligada a um modelo europeu de cinema. Num debate ocorrido a respeito do filme, lembrou que no mesmo momento histórico em que a literatura ou a música "condenavam" tal figura, o cinema adotava-a, por "razões não muito nobres". É um crítico e estudioso que procura, nesse caso, entender ao pé das letras o sentido mais exato da expressão, ao passo em que eu imagino possível contextualizá-la em espaços mais restritos, enxutos, fazendo possível imaginar que quem realize uma obra tão na contra-mão do convencional médio, está agindo como autor - nem que seja por sua briga, por independência.

Quando se conhece uma figura dessas (a de Daniel) e seus métodos de raciocínio, e quando se ouve a história de que está apresentando seu primeiro filme (de forma coletiva, novamente, e vale, e é justo, citar que também são co-realizadores, André Sampaio, Cyntia Sims, Guilherme Sarmiento e Samantha Ribeiro), dando aquele salto nada fácil que o desloca do patamar concreto da análise para o muito mais instável da arte dos eternos analisados, as sensações tornam-se muito mais "atentas", e o desejo de que tal trabalho fique pronto acaba por tornar-se mais um sussurro de incentivo.

E eis que finalmente o grande momento se materializa. Vejo as cenas desconexas sucedendo na tela. Ouço a reação da platéia, que ri, grita, aplaude, além de se mexer incessantemente em seus assentos. A tela volta a ser o alvo ideal de minha atenção. Desconexas são as imagens por ser obra não só de Daniel, afinal, mas de vários outros autores. A aparência de descontinuidade, de não costura, vai ganhando seu verdadeiro significado, que tem de ser procurado, escarafunchado, pois é de obra de referências que estamos tratando. Trabalho de quem pensa no cinema e o entende, mas não quer ser chato para evidenciar erudição, em obra, de maneira academicista, optando pelo non-sénse; onde muitas das idéias sobre a arte podem ser discutidas e demonstradas via imagens.

Há a evidente homenagem aos autores malditos em "Conceição - Autor Bom é Autor Morto" - mesmo que naquele debate citado acima, todos os realizadores insistissem em dizer que qualquer referência, se existiu, ocorreu de forma intuitiva (uma óbvia brincadeira) -; fato mais notado ainda por algumas soluções sujas e cenas bem específicas. Há a evidente homenagem/satirização aos "grandes pensadores" do assunto (Daniel incluído), colocados em torno de uma mesa onde a discussão divaga sempre de forma grave, regada a cerveja bem gelada (Conceição), com uma eventual paquera surgida no momento e outras cositas mais - aliás, uma das grandes sacadas do filme acontece nessa mesa, quando a luz é apagada e se discute o cinema sem a imagem (algo muito comum e profundo quando se questiona em tais momentos de "embate" e "seríssimas" discussões, as formas de concretização do veículo). Há um evidente desfilar de personagens "mitológicos" - do cinema mais comum, ou do mais provocador - que são o que mais se aproxima de algo parecido a elos de ligação entre as seqüências.

Alguns momentos documentais dão a cara mais formal ou comportada à película, pois é através de depoimentos de pessoas comuns que declinam suas idéias sobre como fariam cinema, que os autores "inventam" uma certa lógica para a história. Mas outra coisa séria - e essa não é apenas invenção - que salta aos olhos é a qualidade na captação das imagens, com câmeras que caminham, por vezes de maneira muito elegante, ou que buscam, em outras, ângulos inusitados, sempre de forma bastante justa, correta (qualidade que se estende à montagem eficientíssima, feita na moviola). Algumas piadas vão ao extremo e testam a verdadeira capacidade do público - que na sessão em que vi o filme, não negou fogo e reagiu com uma contundência que evidenciou a empatia com a obra (fato raro em cinemas de tais pretensões). Há, também, mais uma grande sacada, quando se coloca uma música interpretada pelo cantor Cauby Peixoto durante os créditos finais, que não é "Conceição", afinal. Todos ao cinema, pelo bom cinema.

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