BOBBY:


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Original: Bobby
País: EUA
Direção: Emilio Estevez
Elenco: William H. Macy, Anthony Hopkins, Heather Graham, Elijah Wood, Laurence Fishburne, Helen Hunt, Martin Sheen, Joshua Jackson, Christian Slater, Sharon Stone, Demi Moore, Lindsay Lohan.
Duração: 119 min.
Estréia: 27/07/07
Ano: 2006


Robert Altman F. Kennedy


Autor: Érico Fuks

Robert Altman está vivo. Essa boa notícia transparece no novo filme escrito e dirigido por Emilio Estevez. Mais do que um legado ou uma simples homenagem, algumas das principais características do falecido diretor transpiram todo o decorrer da trama. Altman fez escola, o que é um bom aviso para Hollywood. Muitos diretores copiam trejeitos e imitam fórmulas, em sua superficialidade e não-compreensão, mas parece que Estevez realmente captou o espírito da coisa. É sabido que o ganhador do Oscar pelo conjunto da obra (aquele prêmio mea culpa que a Academia concede) tinha trânsito livre pelos corredores do meio artístico e carta branca para a concretização de uma série de intenções. Seus filmes eram notados pelo elenco, na sua quantidade e na grandeza. Muitos atores do primeiro escalão queriam trabalhar com ele. Dividir o montante evitando-se ao máximo as sobressalências e invisibilidades, fragmentando-se as cotas de egos individuais e unindo personalidades tão distintas, foi um mérito do mestre em seu conjunto. Não deve ser fácil administrar as idiossincrasias e os chiliques tanto de celebridades de altos cachês como com promessas artísticas e com aquela parcela entrando em declínio. Mas isso é como tudo na vida. E Altman entendia bem isso: partia do estrelato utópico e imaginário pra refletir sobre questões que ocorrem até mesmo nos minúsculos escritórios de pocilgas.

“Bobby” é igualmente um filme que une um elenco de diversas faixas etárias e zeros à direita no holerite nos mais variados níveis. Tem sim seus veteranos: Anthony Hopkins é o porteiro aposentado do hotel de luxo Ambassador, local que acolherá o então candidato a presidente, Senador Robert F. Kennedy. Hopkins continua freqüentando o hotel para jogar xadrez com seu amigo Nelson (Harry Belafonte). Sir Hopkins é a velhice enxergada com saudosismo e um ar nostálgico. Já Belafonte interpreta esse estágio da vida como o inevitável, a fase em que as doenças começam a se agravar e a única opção de lazer é perder no tabuleiro para o amigo. Hopkins, branco, Belafonte, negro. Assim como as pedras no quadrado de madeira, essa convivência é possível e pacífica (provavelmente, o único lugar onde há paz no filme). A rivalidade é apenas lúdica. Numa época em que o racismo era um dos temas mais discutidos na América do Norte, a calma e a frieza do ambiente em questão soam até irônicas.

Altman tinha a seu favor o crédito de já ter realizado uma extensa lista de filmes. Difícil é entender como Estevez conseguiu a proeza de trazer uma seleção desse porte em seu segundo trabalho atrás das câmeras. Como ator, nunca se destacou. Emilio era mais o retrato de uma geração perdida nos anos 80 do que a força de uma interpretação célebre de papéis marcantes. Isso nunca ocorreu. Por outro lado, também não se escondeu nas sombras de sua família de atores, acomodando-se e incomodando-se com isso. Paralelamente à velhice do hall do hotel está a vitalidade dos novatos Jimmy e Cooper (Brian Geraghty e Shia Lebeouf, ator de “Transformers” e queridinho de Spielberg), voluntários de campanha que acreditam nas mudanças do país. É o fim dos anos 60, época de transformações, do movimento hippie, da ruptura lisérgica com os padrões comportamentais. Jimmy e Cooper são janotas engravatados, caxias, mas se dão o direito de ver a mutação genética e política norte-americana a começar por si próprios. Procuram drogas no apê do traficante vivido por Ashton Kutcher. Elijah Wood e Lindsay Lohan também completam a escalação pré-adulta no papel de um casal que assina os papéis matrimoniais para que o rapaz não tenha que lutar no Vietnã.

Mas a grande força interpretativa fixa-se na geração Coppola contemporânea ao diretor. Sharon Stone, a cabeleireira Mirian casada com o gerente do hotel, Paul (William H. Macy), contracena com Demi Moore num dos momentos mais marcantes e metalingüísticos. Moore faz Virginia Fallon, uma cantora alcoólatra decadente que aceitou fazer o bico de cantar no hotel. Ela se olha no espelho, e aquela imagem parece fazer um flashback de toda a carreira artística da atriz.

Com bons contatos, bons agenciadores e um bom lobby, daria para outros diretores se firmarem no competitivo cenário hollywoodiano estampando a recheada ficha técnica como cartão postal. Mas o que torna o “Bobby” de Estevez longevo e acima da média é essa presença rechonchuda não como um fim por si mesmo, mas como um meio para se alcançar determinado resultado. O dado mais aparente de Altman é sim a presença eqüitativa de um time caro. Mas a garra e os traços mais autorais do mestre voltam-se para o lado mais obscuro e conturbado da fama, que são os bastidores. A leveza de um bem-estar coletivo é apenas aparente. Altman destrincha os processos criativos nos meandros daquilo que, em tese, não se vê. Em “Prêt-à-Porter” a fogueira das vaidades fica mais clara. Mas em “De Corpo e Alma” e em seu último filme, “A Última Noite”, nota-se também que, para ele, o que importa são os mecanismos de chegada mais do que a própria chegada. Convocar a calçada da fama para fazer filme de camarins não seria uma maneira de mostrar o próprio processo de concepção? Quais são os limites da representação e da catarse? Sobre esse conceito, um aprofundamento com aspecto de superficial, Emilio Estevez parece ter aprendido a lição com competência e criatividade. A grandeza de “Bobby” não está na suíte presidencial. Está em cada cômodo, nos corredores, nos elevadores, nas telefonistas, na cozinha. Existe uma crença coletiva de vitória eleitoral dos Estados Unidos, uma vontade de comemorar os resultados das urnas, mas o que mexe com os sentidos naquele momento tenso é a receita caseira da sobremesa. O que menos importa em “Bobby” é a presença do senador e os dados de reconstituição dos fatos que culminaram em seu assassinato. Tem lá as cenas documentais, o discurso de posse e tudo. Mas cadê o Bobby Kennedy? Tudo gira em torno dele, até o nome do filme. Mas, aqui nesse caso, fictício é o próprio candidato.

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