CASA VAZIA:


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Original: Bin-jip
País: Coréia do Sul / Japão
Direção: Kim Ki-duk
Elenco: Lee Seung-yeon, Hee Jae e Kwon Hyuk-ho.
Duração: 95 min
Estréia:
Ano: 2004


"A Casa Vazia" - é difícil dizer se o mundo em que vivemos é realidade


Autor: Cid Nader

A imagem é a de estudantes enfrentando de peito aberto - e levando vantagem - tropas de choque, protegidas por escudos, spray de gás lacrimogêneo e todo o aparato necessário em ocasiões de confrontamento. Novamente, no noticiário, políticos se esmurrando, agarrando e unhando, papéis e pastas voando. Um pouco mais de atenção nestes momentos de exacerbação dos ânimos e nota-se que os personagens envolvidos têm os olhos puxadinhos, extremo-orientais, mais especificamente, coreanos.

Estranhos comportamentos esses, que mais parecem norma do que exceção, em região do planeta que, tradicional e reconhecidamente, é tida como berço da paciência, introspecção, meditação e até mesmo de um certo conformismo, exercidos ao máximo e raramente rompidos – sim, por vezes, rompe; ante situações extremas. Mas que parece norma - aventuro-me a imaginar e explanar - nessa Coréia, de civilização espiritualizada por forte mescla do cristianismo e do budismo, com seus contrastes de ordem, culpa e modos de contato com o divino; mescla que encara o pós-vida de maneira diferente, acabando por se projetar de maneira evidente nos momentos de reações explosivas e destemperadas - típica no latino-cristianismo.

O cinema tem sido usado como um dos veículos de divulgação desse modo de ser, um tanto diferenciado em relação a seus vizinhos. Kim Ki-duk destaca-se, ao menos para o ocidente, como o mais profícuo relizador, surpreendendo no ano de 2000 com seu filme, "A Ilha", que causou grande impacto e furor no Festival de Veneza, por seus personagens atormentados, de certa maneira doentios, suas relações de violência, tanto no tratamento dos seres quanto no sexo por eles praticados, momentos de imolação, porém, paradoxalmente, é uma obra poética e cruamente tocante - merecendo senão aplausos, atenção e uma boa discussão.

Em seu trabalho seguinte, "Endereço Desconhecido", usa como ponto de partida fato verídico, de mãe solteira que tenta contato com o pai de seu filho, funcionário americano durante a Guerra da Coréia (1950-1953), nos apresenta mais seres estranhos e desalinhados - novamente a "simbiose" oriente/ocidente determinando comportamentos - e compõe mais uma obra estranha, angustiada e principalmente singular.

Após "Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera Novamente", numa guinada em direção a um oriente mais contemplativo, menos visceral e literalmente mais budista, Kim Ki-duk surge, em 2004, com seu "Casa Vazia", que estréia hoje por aqui; seu trabalho "2 em 1", o mais oriental de todos - em minha modestíssima opinião. Basicamente, a história de um rapaz, que mora em casas por ele invadidas e acaba por encontrar o grande amor.

Um filme montado, até certo momento, com muitos cortes e cenas curtas, onde os dois principais personagens não se comunicam por palavras, nem entre si, nem conosco. Filme que se divide e transforma, tomando rumo inesperado, meio sobrenatural, meio fruto de concentração e método exercitados pelo jovem protagonista durante momentos da mais "ocidental" violência imposta a ele.

Filme que se divide inclusive na técnica adotada, quando deixa de usar cortes bruscos para compor cenas mais longas, com câmera que "flutua", como exige esse novo momento, nesse "novo filme", interpretado por um novo ser, "meio-desencarnado". Um parêntese: na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo do ano passado, um outro filme, "Mal dos Trópicos", da Tailândia, de maior impacto - merecidamente - entre a cinefilia "mais cabeça", cria uma cisão, fissura-se a certa altura, transformando-se, tal qual "Casa Vazia", num filme absolutamente budista na essência, no qual um tigre encarnado, ou renascido de outro ser que habita um outro corpo na parte inicial da obra, passa a vagar pelas florestas à procura...

A música, recorrente, talvez pudesse ter sido usada de maneira um pouco mais econômica. Uma bela, ritualística e simbólica seqüência de um pré-sepultamento, insere o filme de vez no mundo das tradições orientais e faz par com um final que relativiza o peso de corpos e almas, impondo força e valor a essa singela e bem filmada história.

Por ter citado no início do texto o fato de ser Kim Ki-duk um diretor profícuo, não poderia deixar de lembrar que no mesmo ano de "Casa Vazia", ele lançou, e de quebra abocanhou um "Urso de Prata" no festival de Berlim, com "Samaria", filme que fala do relacionamento de duas amigas que estudam em colégio religioso. Qual a lógica do mercado de distribuição, que, ao que me parece, não acena com ao menos uma previsão de lançamento, de obra premiada em conceituado festival, por aqui?

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