EM BUSCA DA VIDA:


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Original: Still Life
País: China
Direção: Jia Zhang-Ke
Elenco: Han Sanming, Zhao Tao, Li Zhubin, Wang Wei Hong
Duração: 107 Min.
Estréia: 20/07/06
Ano: 2007


"Em busca da Vida": há novidade no mundo do cinema e no mundo dos homens


Autor: Cid Nader

Se quisermos, de maneira simples e rasteira, situar Jia Zhang-Ke junto ao cinema mundial, talvez fosse necessário posicioná-lo como o principal realizador à frente da novidade estética e conceitual que emana do extremo-oriente. Há uma espécie de "revolução" que vem de lá - China, Taiwan, Hong Kong, Coréia, Tailândia... - com um cinema afiado e de particularidades bastante interessantes, a tal ponto, que poder-se-ia dizer que não copiam modelos ou escolas de países mais tarimbados no assunto e sim, que passaram a ser alvo de atenção e até imitação (criando escolas?) por uma parcela de observadores e novos admiradores. Não que eles sejam isolados quanto à história do cinema - como foi o caso, em declarações polêmicas de diretores do Irã, em seu maior momento de exposição -, já que traços de conduta, utilizados com evidente conhecimento do que se passou no cinema mundial, estão, a olhos mais atentos, obviamente entremeados em alguns dos melhores produtos oriundos de lá.

Foquemos a China. Talvez seu representante mais respeitado internacionalmente, com a produção de um cinema nada comercial e muito longe de ser facilitador, seja o jovem cineasta (36 anos) da província de Fenyang, Jia Zhang-Ke, que emplacou alguns sucessos respeitadíssimos pela crítica em menos de seis anos: "Plataforma" (2000), "Prazeres Desconhecidos" (2002) e "O Mundo" (2004), entre eles. Sucessos que vieram com uma proposta nova, ousada pela sua opção de um cinema plácido na movimentação e na construção, de questionamentos tremendamente importantes - em um país que abandona velozmente tradições seculares (mantendo a rigidez comportamental do período Mao Tsé-Tung), para tentar posicionar-se como uma liderança capitalista frente ao mundo, às custas de sacrifícios enormes da população ou do "fechamento" (antagonicamente) das possibilidades, feéricamente iluminadas e atrativas, que um mundo "encantador" lança aos jovens do país - e de forte teor inconformado.

Devo confessar - envergonhadamente - que não consegui embarcar no que me propunha "Plataforma" quando o vi pela primeira vez; o cinema de Zhang-Ke não se faz apetitoso a paladares menos amadurecidos ou menos pacientes. Devo imaginar que, tanto quanto a mim, não deva ter agradado a uma outra porção de cinéfilos. Mas o tempo, a segunda visita a seu cinema, a revisão da minha primeira experiência, o "acostumar" a seu modo se contar as histórias de sua China, e uma certa maleabilidade a mais, por parte dele, no modo de construir seus trabalhos, só fizeram com que eu engrossasse as fileiras de seus apaixonados fãs. Esse "Still Life", então, beira a perfeição na maneira com a qual encontra os caminhos para se revelar. A história se passa numa cidade de mais de dois mil anos, Fengie, que está sendo derrubada, lentamente, a golpes de marreta, para ser inundada em favor do favorecimento de uma nova hidroelétrica. Esse primeiro subtexto se faz tão óbvio quanto importante como mais uma das pedras que sedimentam a carreira do diretor, na denúncia da destruição de uma ancestralidade milenar em favor da rapidez e fugacidade empobrecedoras. Dois personagens acorrem à cidade - cada um a seu tempo - em busca de companheiros passados, que na realidade significarão (dentro do contexto do filme) uma tentativa desesperada de um reencontro impossível de ser mantido; como parece ser impossível, mesmo se encontrada, a manutenção de um país de aldeias e de saudades, dentro das mãos.

As imagens de Jia são estruturadas com um rigor dos mais primorosos do cinema atual. Sua montagem, seu lento desenvolvimento cênico, seu passeio minucioso e atento, com câmera que desbrava locais que estão sendo demolidos, mas que desbrava também faces e expressões; a utilização do som local - que por vezes supera em intensidade e necessidade os diálogos, que passam a um justo lugar em um segundo plano de importância - ou o garoto que canta e que faz a ligação emocional, e um tanto non-sense, entre as "duas" história que ocorrem dentro da trama. O filme, afinal, parece mais do que mais um grande trabalho do diretor. Tem algo de amadurecimento notável. Mantido todo o impacto de seu recado, sim, sem dúvida. E mantidas algumas provocações estéticas - que mundo estranho é esse onde edifícios podem alçar vôos, por exemplo. Não dará para esquecer - espero que por muito tempo - a neblina que encobre as montanhas que circulam a cidade semidestruída. Não dá para esquecer, que de dentro da violência que empurra goela abaixo um novo mundo que cobra, exige, pede e quase nada oferece de bom para a "alma", de dentro dessas "disparidades humanas" é que surgiram os grandes movimentos transformadores na história da arte - e o cinema pode estar acompanhando algum tipo de transformação; de novidade.

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