SANEAMENTO BÁSICO: O FILME:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Jorge Furtado
Elenco: Fernanda Torres, Wagner Moura, Camila Pitanga, Bruno Garcia, Lázaro Ramos, Janaína Kremer, Tonico Pereira, Paulo José.
Duração: 112 min.
Estréia: 20/07/06
Ano: 2007


Pra que pensar?


Autor: Cid Nader

O diretor gaúcho, Jorge Furtado, passados vários anos de seu surgimento, à época bombástico, com o "curta-metragem denúncia" - que se tornou, inclusive, referência e objeto a ser imitado por uma infinidade de diretores mundo afora -, "Ilha das Flores", continua alçando alguns vôos pela seara do cinema, tentando firmar imagem como alguém que quando o faz (alçar esses aleatórios e descompromissados vôos), é de maneira independente, alheio às exigências da indústria, com temas de aparência pouco impactante (um modo de determinar a quem o assiste, que encara essa arte de maneira prosaica e achegada), como quem não tem obrigação e trabalhará sempre por puro prazer.

Não colocando totalmente em dúvida esse clima diletante que passa ao mundo freqüentador da telona, coloco sim algumas situações que, a princípio, oporiam tal comportamento ao modo optado de sobrevivência. Furtado, logo após o estrondoso impacto de "Ilha das Flores", aceitou convite de emprego oferecido pela poderosa Rede Globo de Televisão, tornando-se logo um dos maiorais no setor de dramaturgia da empresa - nada contra às boas possibilidades de uma evidente boa remuneração que deve advir de empresa tão solidamente estabelecida num mercado de arte absolutamente instável, mas não há de se esquecer que quando a empresa resolve tratar do assunto cinema, os quesitos "qualidade", "respeito à inteligência" e "respeito ao formato", são devidamente jogados no lixo, em prol de uma evidente ânsia no lucro; no retorno do investimento. Furtado, em alguns debates acalorados a que assisti - por conta do filme "Cidade de Deus" (Fernando Meirelles), por exemplo - "saltou na jugular" de alguns representantes incontestáveis de nossa cinematografia, rebaixando-os a simples figuras pitorescas que confeccionavam um cinema pitoresco em busca de reconhecimento internacional; aí, nada contra opiniões, como contestar, (havemos sempre que respeitá-las; isso é praxe dentro de sistemas livres), mas começava a ficar configurada uma imagem de alguém que não bate muito com meu modo de entender cinema, nem ao seu jeito que de executá-lo.

São somente duas colocações minhas, que imagino razoáveis para tentar entender qual a verdadeira maneira do diretor entender e realizar filmes. Caio talvez em dúvida, quando admito ainda hoje que seu famoso curta tem virtudes inquestionáveis - principalmente se remetido e observado naquele seu momento de surgimento (1989), não esquecendo do anterior e tremendamente bom também, "O Dia em que Dorival Encarou a Guarda" (1986) -, e que realizou anteriormente a "Saneamento Básico" dois longas bem razoáveis, "O Homem que Copiava" (2003) e "Meu Tio Matou um Cara" (2004). Mais complexo fica entender minha "acusação" de falsa simploriedade nos discursos do diretor, quando os coloco lado-a-lado com o resultado obtido em seu primeiro longa, "Houve uma Vez Dois Verões" (2002) - esse sim um trabalho que resultou cumplicidade e coadunação com um discurso alardeado de um cinema simples, de idéias, pouca grana e a toque de caixa.

Mas para não ficar com cara de tacho e somente elogiando quem comecei colocando em dúvidas por atitudes e idéias, o próprio Jorge acabou por se trair com esse seu novo empreendimento. Realizado sem qualquer tipo de ousadia, o filme é o que mais empresta os vícios da televisão. "Saneamento Básico" transita pelos caminhos do humor pouco elaborado, que obtém riso fácil de quem não está a fim de pensar um pouco dentro da sala escura, construído através de um modelo que procura evitar o bom planejamento, e amparando-se em situações surgidas de uma facilitação empobrecedora que somente a televisão com seu modo invasivo "deveria" oferecer. Quando finalmente realiza um filme que tem muito mais ver com seu cotidiano, com seu modo de vida, Furtado não compra essa sua "realidade" - e aí o coloco em dúvida -, criando aparências que distanciariam esse seu novo trabalho da ligação "nefasta" à telinha. Fazer de toda sua obra um "estendido" do modo gaúcho de ser, é compreensível por conta de sua origem; mas o que fica mais evidente em "Saneamento, é que talvez nas obras anteriores essa atitude tenha sido uma espécie de véu utilizado para disfarçar seu verdadeiro modo de compreender cinema - em "Saneamento Básico" não há como dizer que isso seja somente uma demonstração de apego ao seu local e a um modo mais típico e independente de dirigir.

Se não há como negar virtudes a seus trabalhos anteriores - mesmo ressabiado -, não há como atribuí-las a esse. Um filme fácil - ao pior modo de compreender a expressão -, que tenta o truque da metalinguagem, que não pede a necessidade de qualquer tipo de raciocínio mais elaborado, e que ataca algumas instituições, sem convencer no ataque.

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