TRANSFORMERS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: EUA
Direção: Michael Bay
Elenco: Shia LaBeouf, Megan Fox, Josh Duhamel, Rachael Taylor, Tyrese Gibson, Anthony Anderson, Jon Voight, John Turturro, Kevin Dunn, Julie White, Bernie Mac.
Duração: 144 min.
Estréia: 20/07/06
Ano: 2007


Duelo de titânios


Autor: Érico Fuks

“Isso aqui é mais emocionante do que Armageddon!”. Essa frase proferida no meio do tiroteio diz muito mais do que um chiste auto-referente. É uma vontade, ainda que embrionária, do diretor Michael Bay reafirmar suas teses cinematográficas por meio da desconstrução de seu histórico e de uma reciclagem necessária. Como no cinema pós-qualquer coisa nada se perde e nada se cria, tudo indica que alguns dos primeiros passos dados caminham para a ruptura da mesmice usando a própria mesmice como material para o novo. Parodiar a si próprio e colocar o pretérito num patamar qualitativo mais enfadonho é, em suma, uma vontade intransigente de transformar.

Essa mudança começa nos meandros anteriores ao que se vê na tela. Bay colocou o comparsa de todas as batalhas Jerry Bruckheimer pra escanteio. Quem assume a produção executiva em “Transformers” é o poderoso chefão dos estúdios de Hollywood, o holocausto-família Steven Spielberg. O resultado não é uma coisa nem outra, mas isso é muito bom para o cinema de Bay. Como toda transformação, o processo é árduo e os peelings e as próteses não se enxergam de imediato. O diretor não consegue se desvencilhar completamente dos tiques nervosos e brucutus de Bruck, tampouco se aproxima do universo choramingas de Spielberg. Mas é nessa lacuna, é nesse campo desértico que ele pode encontrar sua inspiração e seu aprendizado para um futuro trabalho verdadeiramente autoral. Em “A Ilha”, o melhor e mais incompreendido filme do diretor, já havia um comichão por não se entregar às fórmulas manipuladas pela indústria, muito embora este trabalho anterior estivesse longe de ser independente. Lá existe uma projeção esquizofrênica e atabalhoada do que poderia ser o futuro de uma sociedade bélica e prisioneira. Em “Transformers” assume-se com total liberdade o mea culpa de se regressar, sem o menor rancor, ao passado adolescente e machista dos anos 80.

Analisado com frieza, “Transformers” não sai do lugar em relação a uma geração de filmes bélico-patrióticos. A cena inicial, o exército norte-americano invadindo o Oriente Médio sem conhecer o inimigo, é patética do ponto de vista ideológico. Já não se fazem mais soldados como na Guerra do Vietnã, desiludidos e conscientes da roubada em que foram se meter. Aqui a miscigenação pacífica de raças e de idiomas, tão hipócrita quanto inverossímil, é um revés do filme. O comboio camuflado parece acreditar em Bush. Releve-se também a participação de Jon Voight como Secretário da Segurança Nacional, tão atônito quanto a cena escolhida por Michael Moore para retratar o Presidente da maior nação do mundo a continuar prestando atenção nos desenhos de um aluno de escola infantil logo após a notícia do 11 de Setembro. Ainda bem que o foco de “Transformers” não é a ideologia belicista e republicana de quem o realizou. Esse punhado meio que se perde diante de tanta mistureba de situações e conflitos. Tem os robôs do Mal correndo atrás de um cubo, tem o namorado musculoso da bonitinha, enfim, uma horda de facções-clichê diante da destruição do planeta. Tem até a risível organização secreta que o próprio governo desconhece.

É justamente espremendo-se nas americanices vangloriantes da nação estadunidense que Bay encontra a maior força de seu olhar cinematográfico. Há um carinho tão grande pelos robôs quanto seu desprezo pelos protagonistas. Diante dos autômatos a carne humana, além de fraca, fica invisível. Quando se diz que a máquina assume características de seu proprietário, e que para que haja o direito de posse deve haver uma química entre criador e criatura, Michael Bay parece estar falando sério mesmo. Ainda que permaneça a dureza de movimentos resgatada do imaginário pueril de 20 anos atrás, em “Transformers” a máquina vira gente e vice-versa. Esse é o verdadeiro transformismo que dá graça ao filme. Mais do que uma homenagem, colocar The Cars e Marvin Gaye como trilhas-atores é quase uma ousadia no meio dos baticuns do restante da fita. O tratamento dado aos hot wheels é mais do que respeitoso, é lascivo. Esbanja-se uma sexualidade metálica digna de Cronenberg. A expressão conotativa “troca de fluidos” assume um ar bastante literal. Conceitos metafóricos mais subliminares, como o carro representando a extensão do falo masculino, ou a cena metonímica do balanço das rodas sinalizando um ato carnal sobre os bancos de couro, pontuam o filme de modo quase didático. Há uma expressão de gozo nos rostos cromados que compensa os olhares gélidos e apáticos dos atores. Eles é que são o retrato inspirado do diretor. É nos amassa-latas que se nota o verdadeiro encantamento. Clímax e anti-clímax se encontram num ritual de prazer e destruição intercalados. As britadeiras guerreiras não só possuem cérebro e coração, mas principalmente genitálias. É com muito feromônio que os projetos de Asimov destroem os Estados Unidos, reduzindo-o a pó. A briga entre os rivais, ainda um resíduo brutamontes do passado do diretor, não tem nada de coreográfico. É uma sucessão de atraques com a leveza e a graça de lutadores de sumô. Se estivesse preocupado em fazer amor, Bay traria o Playmobil para as telonas. “Transformers” é coito e queda. O que se faz é sexo, catastrófico ainda por cima. Está nascendo um novo Tinto Brass da próxima década. Pena que nem Michael Bay sabe disso.

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