HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX:


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Original: Harry Potter and the Order of the Phoenix
País: inglaterra / EUA
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Michael Gambon, Imelda Staunton, Alan Rickman, Emma Thompson, Gary Oldman, Maggie Smith, Evanna Lynch, Jason Isaacs, Katie Leung
Duração: 138 min.
Estréia: 11/07/07
Ano: 2007


Câmeras que respiram e humanizam.


Autor: Cid Nader

Talvez para quem não está acostumado a acompanhar a saga e a vida do jovem bruxo pelos caminhos e vias da palavra escrita - onde surgiu, a ponto de tornar-se referência como um fenômeno que, acima de tudo, foi o responsável por fazer com que uma garotada já não tão acostumada à leitura em livros passasse a ocupar-se dessa mais nobre distração com afinco e sofreguidão, ante a expectativa do próximo que viria - fica mais evidente o quanto é sofredor esse personagem quando ele surge na tela grande . Ele encarna um monte das angústias existenciais que assolam as mentes dos adolescentes, que normalmente conseguem através das atitudes espivetadas e recheadas de atitudes bobas, uma grande válvula de escape para essa reação mais hormonal do que se pode imaginar. Mas Harry - Danile Radcliffe cada vez com mais jeito físico de quem se afasta da adolescência e se aproxima dos traços adultos mais definidos e duros - é daqueles que se isola, sofre pelos outros e raramente busca o escape para aliviar (tem um quê de obrigatoriedade em seu comportamento, como se ele "percebesse" que carrega uma carga enorme e que é o responsável pelo bem estar de seus colegas), para evidenciar um sorriso mais longo, ou emitir uma boa gargalhada. Esse tipo de comportamento abnegado guarda uma certa similaridade com o de alguns super-heróis, que tendo como primeiro plano e projeto a necessidade de proteger a humanidade e acabam por se tornar elementos taciturnos e em constante sofrimento.

Esse novo episódio da série remete cada vez mais os jovens bruxos que aprendem bruxarias na escola, na direção do obscuro , do mal - fica cada vez mais nítido que o futuro não será bom, ou do bem, e a carga de leveza que deveria acompanhar por naturalidade os adolescentes, vai ganhando linhas duras e evidenciando que, de um modo ou de outro, envelhecer nem sempre traz somente vantagens. O jovem diretor David Yates assumiu a recompensadora empreitada após a recusa de Mira Nair e de Jean-Pierre Jeunet. E obteve evidentes e inegáveis bons resultados quando se constata a fita concluída. O clima sombrio que ele conseguiu emprestar ao episódio resultou de uma boa compreensão do avançar do personagem lá em seu mundo literário. O que ele consegue de amargura nas expressões e reações de Harry são evidente fruto de quem estudou a obra e compreendeu que ela avança em complexidade, tanto como avançam as idades dos personagens.

Uma das virtudes do diretor está justamente nessa justa adequação de um clima que se adensa, usando - e entendam essa repetição como inevitável - densidade sincera no relato; recusando um pouco as facilidades que o uso da técnica e da tecnologia poderiam oferecer como muletas facilitadoras - não que ele abdique das possibilidades totalmente, mas deixa claro que quando as utiliza é para o benefício do andamento do película, em busca da cooptação de um público que exige "movimento", adrenalina, plástica, para se fazer fiel e atento ao que se passa na tela . O filme antepõe verdades e mentiras mais além do que a anteposição natural e usualmente comum de duas definições milenarmente antagônicas. Consegue um certo clima político quando coloca dúvidas. Quando não deixa claro dentro da história quem está tentando o quê - mostra justamente como é construída a política e de que armas ela se utiliza para bens e idéias particulares . Tem ministro da magia, tem nova professora, Dolores Umbridge (Imelda Staunton) que vem com um papel obscuro em defesa de censuras , ataques a pequenas liberdades e enfraquecimento das aulas e, conseqüentemente, das defesas dos que poderiam lutar contra o mal que avizinha cada vez mais. Há todo um jogo político por trás desses personagens e das situações da nova obra, devidamente explorado pela boa compreensão de Yates.

Não há como negar que o filme utiliza um bocado os efeitos especiais que tanto podem agradar aos que adoram, quanto afastar quem imagina esses excessos como algo que somente compromete a compreensão e a identificação com algo sério que uma história pode contar. E são utilizados, dentro das possibilidades, de maneira "respeitosa"; sem interferir no relato (como já citei, inclusive). Mas se há uma outra grande virtude do diretor nesse trabalho, essa está justamente dentro do quesito técnico (que abrange entre vários , os tais efeitos) e é antagônica com a modernidade: está, como se fosse uma peça pregada nas possibilidades, na maneira corajosa da utilização da câmera em alguns momentos preciosos da trama. Há a lente que invade espaços em momentos de tensão, atrás ou em busca dos que protagonizam tais momentos, alcançando-os e fixando-se no resultado final. Há uma manipulação segura da câmera, que lembra - numa comparação talvez estranha - um carro de corrida, conduzido, no braço , pelo mérito de quem o guia, e sem sistemas de tração inteligentes ou computadores que indicam todas as atitudes a serem tomadas. Essa câmera é muitas vezes incisiva, veloz , certeira, invasiva e até reveladora; parece que respira, porque conduzida por mãos mesmo, resultando em imagens de verdade - faz a vez técnica de revelar como o filme foi bem idealizado e concretizado por David Yates. Talvez o melhor filme da série.

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