AS TENTAÇÕES DO IRMÃO SEBASTIÃO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: José Araújo
Elenco: Rodolfo Vaz, Marcus Miranda, Luthyane D Montmartre e Aury Porto.
Duração: 147 min.
Estréia: 13/07/07
Ano: 2006


As tentações de um diretor com dinheiro na mão


Autor: Cid Nader

Uma curiosidade me atiçou a curiosidade ao final da apresentação de "As Tentações do Irmão Sebastião": filme realizado no Ceará, de arraigadas convicções religiosas, onde se batizam as crianças com nomes de santos, principalmente os de maior empatia na região - uma tradição católica que se estende mundo afora como, por exemplo, os Antônios, em Portugal ( que venera Santo Antônio de Lisboa), ou os Jorges, no Líbano de São Jorge (protetor do porto de Beirute) -, imaginei que na ficha técnica encontraria alguns nomes "Sebastião". E qual não foi minha surpresa quando constatei mais de trinta Franciscos (duas Franciscas, também), para chegar à estupenda conclusão de que o santo preferido por lá não é mesmo São Sebastião. Estou com jeito de quem está escapando de comentar o filme? Não . Isso, na realidade, só evidencia meu grau de falta de compreensão, de não conformismo, de questionamentos sobre a razão de esse filme ter sido realizado - fato que causou escapes durante a projeção e a dedicação de muita atenção aos créditos finais na tentativa de encontrar razões mais plausíveis; mais justificáveis.

Por um emaranhado de citações duvidosas, o diretor José Araújo conduziu essa sua história a um futuro desnecessário, para trazê-la, após, aos tempos mais cristãos da história em sua opção discursiva, quando na realidade o que queria contar mesmo é como age a "tentação " na cabeça - ou alma - de um ser atormentado por dúvidas. O Sebastião do filme carrega em si o "pecado " da violação, está para ser ordenado sacerdote e pede orientações a um velho padre moribundo enclausurado num leito de morte "futurista" - um exemplo físico e concreto de pura bobagem visual. Cinema é uma arte . Filmes de cinema funcionam bem quando realizados com conhecimento de causa e respeito a alguns tipos de atitudes ; funcionam muito mal (quase sempre, salvo algumas pouquíssimas e honrosas exceções) quando emprestam um ou mais elementos do teatro, diretamente daquela arte , sem nenhum tipo de cuidado ou atenção na transposição. Um dos grandes "pecados" do trabalho de José Araújo é esse tal tom teatral - sem trabalho para evitar a ligação direta - executado pelo ato principal, Rodolfo Vaz, que arregala os olhos e declama seus textos. Outro pecado é quando tenta fazer um espetáculo com características semelhantes àqueles grandes espetáculos religiosos, realizados a céu aberto - bastante comum no nordeste - tentando com que pareça cinema, sem uma razoável utilização dos macetes e da linguagem desse.

O pior de tudo, porém, é que se o diretor tivesse sido um pouco mais sincero e não quisesse ter realizado uma obra ficcional digna de fazer jus ao investimento emprestado a ela por uma instituição internacional que trabalha com as artes plásticas, se tivesse optado por enxugá-la do excesso de imaginação , mesclando-a claramente com alguns momentos documentais nela embutidos, talvez o resultado pudesse até ser satisfatório. As cenas de umbanda são muito boas, com a sinceridade estampada nas reações dos participantes - que aparentam entrar em transe verdadeiro por diversas vezes. As cenas de festejo e crença populares são bem registradas e teriam força suficiente para se sustentarem por si sós. Mas o projeto dele era muito ambicioso, teatral e oco. O que restou, e vai ficar marcado, é um filme com um amontoado de situações falsas e grotescas. E bastante apelativo, para completar.

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