FABRICANDO TOM ZÉ:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Décio Matos Jr.
Elenco: Documentário
Duração: 89 min.
Estréia: 13/07/07
Ano: 2006


Organizando na tela, alguém que teima em não facilitar


Autor: Cid Nader

Tom Zé não é um músico de fácil assimilação, nunca foi, apesar de ser uma pessoa afável , de bom trato , educado e gentil como um bom nordestino do interior. Percebe-se esse seu trato afável com o ser humano, muito diferenciado e mais próximo quando comparado a outros artistas de sua geração, em dois momentos ou ocasiões bem específicos dentro desse documentário realizado ao longo de quatro anos por Décio Mateus Jr. No caso de amor que vive com sua esposa já há algumas décadas: Tom Zé se mostra preocupado com ela e reverente também, por diversos momentos do filme, relatando e louvando sua (dela) abnegação e a opção pelo desprendimento da própria vida profissional para cuidar um pouco melhor do "velho " músico baiano ; ou quando a câmera capta os dois andando de mãos dadas por uma rua européia, numa visão que lembra um misto de amor juvenil com amor cuidadoso . Em outra ocasião, quando se percebe que o músico adotou a cidade de São Paulo como seu porto - diversamente dos outros baianos que junto com ele se lançaram por aqui e preferiram paragens mais belas, menos cáusticas, quando atingiram a fama -; esse amor e apego à grande, difícil e feia metrópole , só pode caber na cabeça de uma pessoa que evita o glamour , por simplicidade natural, por desapego do supérfluo , por simplicidade e reconhecimento (típicos atributos de pessoas afáveis).

É um documentário que quase não ousa esteticamente, tentando simplesmente pegar carona na fama do artista ousado - tem uma ou outra imagem captada com baixa resolução de luz (o que provoca aquele efeito granulado e meio desbotado), e umas duas ou três ingerências na película de uma pequena animação que , longe de parecer estranha e oportuna (como disse um amigo meu ), só lhe emprestam um ar carinhoso. O trabalho do documentarista deve ser reconhecido pela tenacidade e persistência em acompanhar um artista tão instável em seus trajetos, por conta de shows. E tal dedicação resultou alguns momentos exemplares para se tentar definir qual a verdadeira função de um trabalho com tal teor jornalístico. O principal desses momentos acontece no ensaio para o Festival de Montreaux ( Suíça), ao revelar um artista perfeccionista e irritado com o descaso por parte dos engenheiros de som no momento da passagem de som - Tom Zé reclama, brada contra o que detecta como manifestação de descaso por racismo; espuma e chega quase que às vias de fato ( ponto para a persistência).

Um outro bom momento do trabalho - na realidade vários vão se acumulando perto do final - é quando se nos é revelado um artista amargurado com o que ele chama de traição por parte dos ídolos do movimento tropicalista perto do início da década de 70 - e o trabalho tem a capacidade e a coerência de passar ao espectador, que visto pelo outro lado (o dos "traidores"), essa acusação forte de traição ganha conotação diferente , reservando ao artista retratado o papel de alguém que teria se amargurado e se isolado das possibilidades de sucesso que se apresentaram quando da volta deles do "exílio " (estou falando mais especificamente de Caetano Veloso e Gilberto Gil). A partir daí, surge uma pessoa nitidamente mais insegura na tela; triste, com o peso da idade tomando vulto. E tudo numa seqüência bem planejada e concretizada na mesa de montagem . É difícil acompanhar os excessos do cantor/músico durante os shows: ele não consegue manter qualquer linearidade ou ordem pré-programada, o que resulta em música "caótica" de teor moderno/ genial com "jeito" de algo ultrapassado., e revela uma inegável capacidade do diretor em organizar o que poderia parecer "inorganizável". Mas quando falo, "jeito de algo ultrapassado", já estou entrando um pouco com a minha opinião, e não com a de quem se mostrou entusiasmado na ocasião em que tive a oportunidade de ver o filme; e muito menos de alguns entendidos que ainda o proclamam como dos poucos sopros de inventividade e ousadia que restam dentro de nossa música popular.

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