MEDOS PRIVADOS EM LUGARES PÚBLICOS:


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Original: Coeurs
País: França/Itália
Direção: Alain Resnais
Elenco: Sabine Azéma, Lambert Wilson, André Dussollier, Pierre Arditi, Laura Morante, Isabelle Carré, Claude Rich, Françoise Gillard
Duração: 120 min.
Estréia: 13/07/07
Ano: 2006


"Medos Privados em Lugares Públicos", a triste humanidade de Resnais


Autor: Cesar Zamberlan

A chegada aos cinemas de um novo filme de Alain Resnais é sempre um marco. Da obra-prima “Hiroshima Mon Amour” de 1959 a este “Couers” ou “Medos Privados em Lugares Públicos” - o título do filme Brasil é o mesmo da peça de Alan Ayckbourn da qual Resnais adaptou o roteiro -, o cineasta dirigiu 16 longas, entre eles os míticos: “O ano passado em Marienbad”, “Muriel” e “Providence”. Isso sem contar nos curtas que antecederam Hiroshima e que são tão geniais quanto os outros filmes da carreira do diretor.

Em “Couers” ou “Medos Privados em Lugares Públicos”, Resnais centra sua câmera nas relações humanas e na busca de afeto e realização - e realizar-se aqui não é nada mais que se encontrar minimamente ou se adequar ao vazio que todos e a tudo cerca, ou seja, busca-se muito pouco.

Já cena inicial do filme, o diretor nos indica o que pretende. A câmera sobrevoa Paris e mergulha depois na cidade, invadindo a janela de um apartamento. Saímos da cidade vista de cima, do espaço amplo, coletivo, macro, para o micro, para o espaço do indivíduo, para o vazio e o ser humano que o habita ou que procura um espaço para habitar.

Todo o entorno do filme é como uma moldura para esse ser humano, seus medos e fragilidades. O artificialismo dos cenários - que beiram o fake, caso da imobiliária; ou o Kitsch futurista, bar do hotel; ou o rústico minimalista, casa de Lionel - só acentuam esse vazio do personagem no espaço, o não casamento entre o ser e o estar. Esse não lugar, esse desencontro, fica acentuado, sobretudo, na busca de Nicole pelo seu apartamento-vida idealizados, no tipo de apartamento que imagina necessitar e na descrição que ele faz dos imóveis que lhes são apresentados por Thierry.

O espaço físico é sempre estranho, nunca condizente com aquilo que se busca, apesar de ser sempre bem localizado, no coração da cidade. Mas, o coração da cidade, o coração coletivo não interessa ao filme. Tal qual a personagem Gaëlle que está no bar à espera do seu anunciado par, mas nunca está integrada a ele – a ridícula flor a destaca daquele e naquele ambiente -, o filme também se restringe a esses lugares internos dos personagens. O título original, “Couers”, corações, aponta, mais que o titulo da peça, que o pulsar da câmera, tão contido e mínimo no seu batimento vital, seja e esteja no individuo. O lá fora, o além da janela, interessa pouco a Resnais e ao brilhante fotógrafo Eric Gautier. A câmera nunca sai à rua e da janela só se enxerga a neve, isso quando a janela não é dividida em duas por uma surreal parede, como a que caracteriza um dos imóveis oferecidos por Thierry.

O filme é muito bem resolvido nesse encarceramento aos e dos personagens, não há nada que lhes seja externo, nem no espaço e nem no tempo. O universo deles, personagens, e do filme está restrito a esse aqui e agora. O passado, memória – algo tão presente na carreira do diretor - que conforma esses personagens enquanto seres hoje, já não lhes pertence mais à medida que não pode mais ser modificado ou de outra forma absorvido. Esse antes - o passado memória - está colado, fixo a eles, como a neve que irrompe o filme inteiro e que não desgruda dos casacos. Não é mais matéria a ser trabalhada, não serve mais como objeto de transformação ou reflexão. Dan que foi expulso do exército e Charlotte com seu passado misteriosa não querem falar sobre isso. O passado é matéria mineralizada, enrijecida, inerente aos personagens tais como são.

Por outro lado, os flocos de neve que tão artificialmente separam uma seqüência da outra, ao mesmo tempo em que evitam um corte mais seco, só aumentam essa sensação de desconforto, de inospitalidade com tudo que é exterior. A necessidade premente de preencher esse vazio, não no outro e muito menos no coletivo, mas numa esperança e num encontro por menor ou mais singelo que ele pareça é de uma enorme tristeza, porque há pouco espaço para uma mudança, para o novo. Há, sim, uma dura constatação do viver, do trágico da existência diante do qual pouco resta. E nesse contexto temos o encontro de Charlotte com a sua fé cristã, a resignação de Lionel com a sua pacata vida, o fim do azedo pai de Lionel, que nunca nos é mostrado, com a sua doce e santa morte, o abraço dos irmãos e os (des)encontros entre Dan e Gaëlle.

Resnais parece ter feito aqui um de seus filmes mais tristes. Tristeza que reside no pouco e fechado espaço que os personagens têm para vagar dentro do filme: no espaço físico e no espaço tempo, e no trabalho maduro e contido de fotografia e câmera de Eric Gautier. E o enclausuramento bressoniano dos personagens, o congelamento e a imobilidade só não são totalmente desesperadores porque existe em contrapartida um olhar muito humano de Resnais para os personagens. Mas, vê-los agora, fora do filme e da tela, é dilacerante. Os silêncios e vazios de Resnais em “Couers” incomodam tanto ou mais que a reflexão alucinante e os corpos mutilados de Hiroshima.
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