PARIS, EU TE AMO:


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Original: Paris, je t'aime
País: França / Alemanha / Suíça.
Direção: Alfonso Cuarón, Walter Salles, Daniela Thomas, Sylvain Chomet, Gérard Depardieu, Alexander Payne, Ol
Elenco: Vários
Duração: 120 min.
Estréia: 06/07/06
Ano: 2006


Retalhos de Paris


Autor: Cesar Zamberlan

Todo filme de episódios é por natureza irregular, uns mais, outros menos. A própria proposta de chamar vários cineastas para produzir pequenos filmes que formem um longa lhe dá essa característica nada uniforme. A questão é até que ponto ou o quanto essa irregularidade natural é prejudicial ao filme. No caso de “Paris, Eu te amo”, concordo com a crítica de Cid Nader (link nesta página), ela atrapalha e muito e a constatação que nasce das telas é que os episódios sobre a capital francesa pouco a iluminam. Os fragmentos assinados por vários cineastas não costuram um bom filme, o que temos são episódios soltos, uns mais felizes, outras menos; mas sem um texto coeso.

O subtítulo de “Paris, Eu te amo” é “Pequenos Romances de Bairro” e a idéia é que cada diretor faça o filme retratando um bairro, temos, portanto, 18 cineastas e 18 lugares da capital francesa. Cineastas famosos como Gus Van Sant, Joel e Ethan Cohen, Alfonso Cuaron, Walter Sales, Tom Tykwer e cineastas menos conhecidos como o francês Bruno Podalydes, o alemão Olivier Schmitz, o japonês Nobihuro Suwa, entre outros. Olhares quase que na sua totalidade estrangeiros, se é que se pode dizer isso de uma cidade tão turística e tão globalizada.

Não irei escrever sobre todos os episódios, mas sim sobre os que mais me chamaram a atenção. Conversando com amigos que viram o filme na Mostra ou em cabines realizadas pela Imagem, distribuidora do filme, percebi que gostávamos de episódios diferentes e que se o filme, unanimemente, não agrada no todo; também não consegue ser unânime em suas partes constituintes.

Os meus episódios preferidos são:

o de Gurinder Chadha, “Quais de Seine” que mostra com bastante simplicidade a multiplicidade étnica que existe em Paris e retrata o encontro e o encantamento de um jovem francês e uma jovem mulçumana.

O divertido “Tuileries” de Joel e Ethan Cohen com o ator Steve Buscemi que vive um turista na estação Tuileries de metrô e ao encarar um casal se beijando se vê às voltas de uma situação embaraçosa. A relação entre olhar e ser olhado, as leituras que esse olhar traz, a possibilidade ou não de encarar uma pessoa sem que esse olhar seja invasivo é tratada com muito humor pela dupla, que faz um paralelo interessante com o olhar persecutório da Monalisa.

Gosto muito de alguns momentos de “Place dês Fêtes” de Oliver Schimitz, mas o final do filme extremamente didático acaba estragando a força dos diálogos e a forma como a câmera aproxima os dois personagens. Outro registro de câmera bem interessante, sempre na mão e com cortes em planos em movimento é o do filme Olivier Assayas, mas o apuro técnico não encontra eco na história que narra.

Esse encontro é perfeito no episódio de Alfonso Cuaron, “Parc Monceau” com Nick Noite e Ludivine Sagnier. Um belo plano seqüência mostra os dois caminhando por uma avenida, a câmera os acompanha de longe e o diálogo aos poucos revela a ligação entre ambos. A medida que descobrimos quem são, sobre quem falam, a câmera se aproxima e nos revela os personagens na sua inteireza. Único episódio que constrói personagens que mereciam um filme, marcantes mesmo na curta duração do episódio. Apuro técnico e bom roteiro de mãos dadas. Nick Noite soberbo.

Interessantes também os filmes de Fréderic Auburtin e Gerard Depardieu e o de Alexandre Payne. Em “Quartier Latin”, de Auburtin e Gerard Depardieu, Gena Rowlands que também escreveu o roteiro, contracena com Ben Gazarra. O diálogo e as atuações são deliciosamente cassavetianas. Chega a ser tocante, pois os atores brincam em cena e tudo remete ao genial Cassavetes. Já Alexander Payne de “sideways” constrói um filme também simples e com uma personagem fantástica: uma carteira americana que descobre sua mediocridade em Paris e ao descobrir-se, se encontra.

Os outros episódios que merecem citação são: o de Walter Salles e Daniela Thomas com Catalina Sandino Moreno que quer ser mais singelo do que é e peca por isso. O de Gus Van Sant que é bonito, com planos bem legais, mas abusa do truque da barreira de idiomas e acaba caindo naquela história do curta piada. O de Tom Tykwer que tem Natalie Portman o que já é um atrativo, mas é pretensioso demais ao tentar dar conta de uma história longa demais num tempo curto, fazendo com que a narrativa se desenrole numa câmera rápida, mas pouco sedutora. Terríveis os episódios de Vincenzo Natali, um conto de terror e amor, tosco e sem graça e o incrivelmente feio episódio de Christopher Doyle; sim, o diretor de fotografia de Wong Kar-wai assina o episódio mais tolo e feio do filme.

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