RATATOUILLE:


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Original: Ratatouille
País: EUA
Direção: Brad Bird
Elenco: Animação
Duração: 110 min.
Estréia: 06/07/06
Ano: 2007


Olhares sobre Paris


Autor: Érico Fuks

Estréia nesta semana no circuito brasileiro uma compilação de curtas, em que diretores de diferentes nacionalidades lançam uma diversidade de olhares sobre a cidade de Paris, colocando sua relação de amor e ódio num patamar ainda mais ambíguo. Estréia também, na outra ponta e com qualificações mais questionáveis, um documentário independente e oportunista de auto-ajuda que versa sobre a existência de Deus. “Ratatouille”, longa de animação da Pixar dirigido por Brad Bird (“Os Incríveis”), consegue em uma tacada só abranger em multifocal ambos os temas. Também pudera. O próprio nome da iguaria culinária, um feliz trocadilho com o lamacento roedor, significa em sua raiz um ragu de legumes, um guisado multicolorido de diversos ingredientes, cada um com seu sabor peculiar mas que, amontoados, dão um sabor especial ao prato.

“Ratatouille” é uma visão idílica e ao mesmo tempo crítica de Paris. É a cidade do romance, dos bons costumes e, principalmente, da melhor gastronomia do mundo. Mas é também uma cidade empesteada de ratos, um burgo que, mesmo que carregue a alcunha de cidade-luz, ainda vive os resíduos sombrios das trevas e dos esgotos medievais. Esse perfil marginal aparece apenas nas brechas, nas sarjetas e nos subtextos. Em destaque está o pedantismo francês, os gestos educadamente afetados e a falta de bom-humor da parte viva da Torre Eiffel. Paris em “Ratatouille” é também a cidade que, mesmo resistindo aos anglicismos vocabulares, caiu nas garras dos efeitos da globalização. Auguste Gusteau, considerado o melhor chef do mundo, cai em depressão após ter recebido constantes resenhas negativas na imprensa de seu arqui-inimigo Anton Ego, um crítico pernóstico, esnobe e recluso. Depois de seu estabelecimento perder algumas estrelas nos guias gastronômicos, vem a falecer de desgosto, deixando como legado apenas os ensinamentos culinários de seus livros. Quem aprende suas receitas é Remy, um rato sofisticado que procura se diferenciar de sua família que se contenta com qualquer tipo de gororoba. Remy treina e aperfeiçoa seus dotes culinários debaixo do chapéu de Linguini, um ajudante de cozinha desengonçado que precisa do emprego. Linguini, desprezado pela nova e gananciosa diretoria do bistrô (uma alusão velada aos modernos processos corporativos), lava pratos e recolhe o lixo enquanto sonha em dar seus toques artísticos às carnes e ás aves.

Talvez fazendo um mea culpa, ou pregando uma hipócrita apologia à ética de comportamento e à igualdade de valores, muitos filmes atuais estão retomando temas antigos do cinema norte-americano diretamente relacionados à auto-estima. Afinal a Sétima Arte, como propagadora de idéias e de sentidos, teve um papel fundamental nos períodos pós-Depressão e pós-Segunda Guerra. “Shrek Terceiro”, o patinho feio do terceiro milênio, traduz a mensagem de que você deve ser você mesmo, e encontrar a felicidade nessas condições. Os filmes da Pixar também estabelecem uma relação crítica com a sociedade, muito embora se sustente através dela. A superação das limitações etárias naturais para o exercício dos superpoderes dos Incríveis é o anti-espelho de uma sociedade que se enquadra na ditadura estética de venerar o novo, o moderno. O revigoramento da potência dos motores dos automóveis antigos em “Carros” vai diretamente contra os mecanismos de sobrevivência da indústria. Em “Ratatouille” vive-se em um ambiente classista, de poucas oportunidades, onde o buraco da parede é minúsculo e as ratoeiras são muitas, mas o livro do gastrônomo afirma que qualquer um pode se tornar um bom cozinheiro. E aí fica a saudável dúvida: quem é o derrotado que merece esta chance? O incapacitado aprendiz ou o faminto das latrinas?

Essa frase otimista do livro, dependendo do contexto, pode parecer uma leitura cafona dos mandamentos dos métodos desgastados de auto-ajuda. Aqui ela ganha contornos mais obscuros e, portanto, mais brilhantes. Não há uma trilha sonora vencedora de Rocky Balboa, mas o filme inteiro mantém o alto-astral mesmo que debaixo das penumbras de um restaurante envelhecido 12 anos. Linguini num plano mais afastado das câmeras parece um fantoche dançarino. Ou sente cócegas das unhas comandatórias de seu roedor-chefe, ou está feliz com seu trabalho, ou é apenas um títere abobalhado que pensa em chamar a atenção, depende de quem o vê. O menu foi oferecido, a escolha é do freguês. O forte do filme é isso: permitir várias interpretações a partir da concisão de imagens únicas.

Igualmente multifacetário é o resultado estético. A parte estanque e inanimada do trabalho beira o hiper-realismo. Dá quase pra se sentir o cheiro e o gosto da comida preparada. Alho tem cara de alho, alecrim tem cara de alecrim. Tanto é que, para se ter uma idéia, foram criados mais de 270 tipos diferentes de comida no computador, sendo que cada alimento era preparado e decorado numa cozinha verídica e depois fotografado para referência. Para criar uma pilha de composto orgânico de maneira realista, foi pesquisado o processo de apodrecimento de 15 tipos de alimentos frescos, deixados expostos para serem fotografados. Não fosse a sã consciência de se tratar de um filme Disney, as explicações teóricas sobre a hierarquia dentro de uma cozinha e a definição de sous-chef soariam quase como um documentário. Em compensação, os dedos alongados do crítico, o olhar franzino e caricato do novo chef, os movimentos e trejeitos dos protagonistas caminham para a hipérbole do irreal. “Ratatouille” é a síntese caótica da delícia de uma cozinha cheia e bagunçada. É o deixar se levar pela imaginação esquizofrênica de Remy que pensa estar ouvindo vozes do chef que foi dessa pra melhor. Tamanha a quantidade de roedores, talheres e perspectivas, parece mesmo querer falar de Paris de 18 jeitos diferentes, um mais saboroso que o outro.

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