O TANGO DE RACHEVSKI:


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Original: Le Tango des Rachevski
País: França, Bélgica, Luxemburgo
Direção: Sam Garbarski
Elenco: Hippolyte Girardot, Ludmila Mikaël, Michel Jonasz.
Duração: 90 min.
Estréia: 29/06/07
Ano: 2003


Fragmentação e estereótipos na busca da felicidade pela contravenção


Autor: Anahí Borges

O primeiro plano do filme é ambientado em Israel (embora as filmagens tenham sido realizadas no Marrocos). Um senhor de idade, Dolfo, visita seu irmão rabino igualmente idoso, Sammy, pedindo-lhe que retorne para França visto que Rosa está mal de saúde. Não nos fica clara a relação de Dolfo e Rosa, mas pelo diálogo entre os personagens percebemos que os irmãos possuem uma rivalidade e que Rosa desrespeitou códigos da religião judaica, fato este que levou Sammy, seu marido, a abandoná-la junto com seus filhos. Dessa forma, dois conflitos do enredo estão apresentados: a rebeldia religiosa – temática central da história - e a idéia de um triângulo amoroso “ancestral”. Na seqüência seguinte, sem que fôssemos apresentados à Rosa, ela morre em seu quarto. A partir de sua morte e, mais diretamente ao fato de que antes de morrer Rosa comprou um jazigo no cemitério judaico, é que a história se desenvolve.

Cada membro da família Rachevski – o tio Dolfo, os filhos e as noras de Rosa, assim como seus netos – começam a questionar até onde o judaísmo está presente em suas vidas. As personagens não seguiam até então as tradições da religião e desconheciam grande parte de seus rituais, os termos hebraicos, etc. Há muitas situações cômicas na história devido à ignorância e deslocamento das personagens dentro desse universo religioso. A trajetória individual e coletiva dos membros Rachevski na busca da resolução da questão “ser ou não ser um verdadeiro judeu” encontra momentos bons de humor, alguns dramáticos, outros poéticos apesar de muitas vezes esbarrar em códigos comuns de representação do judaísmo, vulgo: estereótipos.

Os estereótipos e a fragmentação narrativa são as questões que mais incomodam no filme e colaboram para sua superficialidade. O que está posto como espinha dorsal da obra é o questionamento “ser ou não ser judeu” e para isso as personagens passam por diversas e inusitadas situações, regadas por simbologias consolidados de representação – como roupagens, comportamentos, rituais -, sem, contudo, terem bem firmadas as suas psiques e personalidades. Há uma predileção por excessos de situações em detrimento de um maior aprofundamento em cada personagem, no seu universo íntimo. Os conflitos são muito esquemáticos, e tentam abarcar diversas frentes, choques e respostas possíveis. Temos a sensação de conhecer pouco cada membro da família – até porque eles próprios estão se autoconhecendo – e não nos simpatizamos em absoluto por suas escolhas, sentindo-nos um tanto exteriores a elas. Um exemplo de conflito esquemático que se utiliza de códigos de representação primários é o romance entre os jovem judeu e a garota árabe: o neto caçula de Rosa, Ric, namora uma jovem árabe. Ambos se sentem inseguros com a relação e com as respectivas famílias – para apimentar mais o conflito, Ric revela ter lutado em Israel contra os palestinos. O fato é que tudo se resolve quando o tio-avô simpático, Dolfo, toma conhecimento da situação e conversa com o pai da garota. O que se sucede é uma cerimônia de casamento árabe, em que os Rachevski se divertem. É uma leitura de paz muito cartesiana dos conflitos seculares entre árabes e judeus, e, ao final, pouco sabemos dessas duas personagens que se casaram. O mesmo esquematismo é percebido, por exemplo, no desejo de Nina querer se tornar a todo custo uma judia a partir de seu luto pela morte da avó. O rapaz por quem se apaixona torna-se conivente com ela e, por amor a Nina, abraça a sua causa. Ambos, no final do filme, chegam em Israel e são acolhidos por Sammy, o rabino ortodoxo.

“O Tango de Rachevski” tem semelhanças com o filme de co-produção Brasil/México “Só Deus Sabe”, de Carlos Bolado que lida com aspectos da cultura mexicana e da brasileira, inclusive suas tradições religiosas, utilizando estereótipos: como objetos e rituais de sincretismo religioso no México, ou o candomblé baiano. Ainda que se utilize de muitos estigmas, “O Tango de Rachevski” consegue transmitir uma mensagem válida e coerente com a história: a graça da vida não está na rigidez imposta pelas regras religiosas, mas na flexibilidade com a qual você pode administrar os próprios valores, crenças, desejos e comportamentos. O enterro de Dolfe é uma cena que evidencia esse pensamento: no início do filme, quando Rosa foi enterrada num cerimonial judaico, Dolfe se manifestou contrário às roupagens pretas das mulheres e disse que no seu enterro elas teriam que usar branco. E na dita cena, no mesmo cemitério judaico, as mulheres estão vestidas de branco, transgredindo os paradigmas da religião. Nesse sentido, o filme consegue acontecer.
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