500 ALMAS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Joel Pizzini
Elenco: Documentário
Duração: 105 min.
Estréia: 29/06/07
Ano: 2006


A linguagem


Autor: Cid Nader

Como poderia ser classificado esse longa do diretor Joel Pizzini - logicamente, pensando da maneira simplista e reducionista que alguns jornais ou locadoras imaginam ser necessária para categorizar filmes (ou livros) em estantes ou colunas -? Ficção, documentário, documentário com elementos ficcionais? Na realidade, ao se perceber dúvidas quando da necessidade desse tipo de classificação, fica evidente demais - parece até coisa do acaso - que o diretor transita numa esfera à parte do que se imagina como normalidade no cinema atual. Tenho falado em textos anteriores aqui no site, quando comento alguns outros trabalhos de Pizzini, que ele realiza algo que se distancia do facilmente classificável; que sua obra tem uma coerência e ousadia estética que aponta seu caminho para a arte fina, bem elaborada; sempre digo que ele talvez seja um grande artista, com uma visão plástica muito particular do cinema; um "poeta imagético". Ele tem construído sua carreira de maneira muito mais vinculada ao mundo dos curtas-metragens, mas sempre muito próximo de uma narrativa que procura eximir-se da culpa que acarretaria o comodismo, enveredando na busca de outros modos de contar "histórias"; e nesse aparentemente e eterno processo, percebeu como poucos que dá sim para se contá-las através de imagens, músicas, colagens, poesia, vagarosidade (no melhor dos sentidos), decupagem; passou a colocar em prática as possibilidades que talvez somente o cinema ofereça, e que parecem assustar outros autores.

Pode até parecer engraçado se construir um filme de modo não obrigatoriamente conduzido via narração - como é o caso de "500 Almas", logicamente -, quando o próprio trabalho parte do pressuposto que a "língua", o modo "oral", talvez sejam o maior elemento de identificação, de união, de manutenção dos povos, de uma civilização. Joel parte dessa idéia universal - aditivando-a de outros elementos como a música, alguns costumes, instrumentos físicos - para contar como foi possível se perceber que um antigo, milenar, povo da região do Pantanal Mato-grossense não havia sido extinto da face da Terra como se apregoava desde a década e 60. Quando resolveu investigar, com seu modo muito particular de trabalho, a verdade dessa afirmação que falava em não mais remanescentes da tribo de índios Guatós, percebeu que além da ajuda valiosa de uma missionária, um padre e alguns outros "entendidos" no assunto, o maior de elo ligação, inclusive entre os próprios índios na tentativa se reconhecerem entre si, estava no resgate de palavras e seu modo de falar. Tribo caracterizada pelo instinto nômade, foram muito mais facilmente "perdidos" ante os olhos de quem ainda se interessava em algum tipo de proteção aos povos nativos da pátria Brasil. Como não mantinham tradição de propriedade e não se vinculavam a terras ou espaços únicos, por um instante sumiram do mapa e foram dados como instintos. E até por conta desse eterno deslocamento, não mantiveram tradição de relacionamento mais restrito com os seus, acabando por se miscigenarem além do imaginado - o que também resultou numa espécie de falta de reconhecimento próprio.

A história que o diretor conta deles é recheada de lirismo e poesia - Pizzini sabe como fazer isso. Mas não há um excesso de imaginação - e isso é ponto a favor do filme - no trabalho para "poetisar" e "ludicidar" o assunto. Sim, o filme é esplendidamente fotografado e montado num ritmo que por vezes beira o onírico. As passagens são aglutinadas de modo a capturar o espectador pela emoção originada da constatação de quão o simples pode ser o belo; e suficiente. Mas não há invenção. Quando se opta pela explicitação de algumas palavras recitadas por remanescentes - sempre com dúvidas quanto ao real significado ou sobre a pronúncia (sim, aí se percebe nitidamente que se eles não foram extintos totalmente, o que sobrou de autoconhecimento ficou muito nebuloso, indefinido - isso num "amplo" aspecto populacional, num extrapolar de pequenas famílias; fala-se de 500 almas, no filme) -, e quando se percebe que a mesma palavra que designa "galinha preta" também o é para "céu noturno" (a palavra única simplifica o dado que refere à escuridão, ao negro), por exemplo, percebe-se que o trabalho estará tomando a decisão de se amparar nas singelezas e simplicidades mais facilmente perceptíveis dos Guatós e de sua cultura, para delinear seu verdadeiro rumo. O diretor tem a capacidade infindável e quase inquestionável de trabalhar com registros "poéticos" como poucos, e, como já citei, tem feito disso sua marca registrada. Mas o que é mais notável nesse belo trabalho é perceber que ele sabe fazer isso sem se apoderar das nuances em benefício de uma estética própria. Muito ao contrário. O que ele faz é saber se ajustar aos temas que conta. No caso de "500 Almas", talvez isso fique mais nítido por se tratar de um longa-metragem. Talvez, porque a história seja linda mesmo. Talvez, porque identifica o traço da linguagem - principalmente, até porque não é somente nesse traço que o filme se ampara - como o maior e mais "pronto" modo de reconhecimento a remexer em nossos instintos, sentimentos, mais interiores.

Ah: e o tal lado ficcional também é bastante correto, não invasivo e respeitador.
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