CARREIRAS:


Fonte: [+] [-]
Original: Idem
País: Brasil
Direção: Domingos Oliveira
Elenco: Priscilla Rozenbaum, Domingos de Oliveira, Fábio Florentino e Paulo Carvalho.
Duração: 72 min.
Estréia: 22/06/07
Ano: 2005


Carreiras: Metalinguagem e Baixo-Orçamento


Autor: Anahí Borges

A metalinguagem é a expressão da modernidade de um objeto artístico. O artista moderno é aquele que opera sobre o código da linguagem, estabelecendo conceitos e questionamentos sobre essa mesma linguagem, aludindo ao processo criador, a própria figura do artista, a termos técnicos, dificuldades/qualidades de expressão, etc. “Carreiras”, de Domingos Oliveira, conta a história de uma jornalista em crise com sua profissão e com o Sistema; é um filme moderno, de concepção metalingüística, que através dos significantes visuais e sonoros do cinema e do teatro, traduz e define os significados do cinema, do teatro e da televisão, assim como os papéis e atividades específicas dos respectivos profissionais e artistas que atuam dentro dessas estruturas. Os créditos iniciais apresentam o tom e a proposta do filme: bom humor, ironia, críticas às grandes estruturas de poder, aspectos autobiográficos, a auto-referência como componente dramático e estético: imagens dos bastidores são intercaladas com letreiros explicativos sobre “como o filme foi feito e à que ele veio”. “Carreiras” foi realizado com baixíssimo orçamento, em seis diárias, equipe pequena e boa vontade. B.O.A.A. (Baixo Orçamento e Alto Astral) informam os créditos. Domingos, já desde seus últimos filmes, se propõe ser um cineasta militante que questiona a democratização do acesso aos meios de produção para buscar seu lugar dentro da estrutura do mercado.

Logo no início do filme personagens estão numa conversa informal, de mesa de bar, discutindo a questão: cinema versus teatro - suas diferenças e semelhanças, qualidades e limitações. E desde então “Carreiras” prossegue com aspectos ora teatrais, ora cinematográficos, em sua construção estética e narrativa. De teatral existem os planos fixos e longos nos quais se desenvolvem verdadeiros monólogos da atriz Priscilla Rozenbaum no papel de Ana Laura, a jornalista. Por exemplo, as cenas em que ela está ao telefone – grande parte da história – são teatrais na concepção de espaço/tempo, nos gestos, falas e tempos dramáticos da personagem. Não se vêem os interlocutores de Laura ao telefone, sequer ouvimos suas vozes. Vemos apenas a personagem situada em um único espaço, segurando um telefone e atuando em qualidade de monólogo. Até suas falas possuem o didatismo e o excesso de informações que a linguagem teatral exige. Por outro lado, “Carreiras” possui momentos extremamente cinematográficos, de composição plástica da imagem, experimentação da linguagem digital, relação imagem e movimento. Por exemplo, na cena em que a jornalista desmaia: enquanto a personagem vivencia o delírio, a câmera se afasta de seu corpo no chão e o efeito de pós-produção deixa a imagem negativada, recurso este que atribui à situação um aspecto estranho, macabro, fantasmagórico e pertence exclusivamente ao código do cinema. Em determinadas ocasiões a câmera está inquieta, realizando movimentos instáveis ao redor da personagem a fim de representar suas perturbações emocionais e psicológicas, a velocidade de seus pensamentos. Isso é cinematográfico. Há também os closes em Ana Laura, como na cena em que ela está fumando. O movimento da fumaça do cigarro, aliada aos tons e cores da imagem de seu rosto, e o efeito de “câmera lenta” são aspectos que atribuem à cena qualidades fotográficas, plásticas e cinematográficas. É um momento de suspensão espaço-temporal na história, característica específica da linguagem do cinema.

“O Cheiro do Ralo”, de Heitor Dhalia, também suscitou discussões a respeito de seu aspecto teatral – mais pelo fato da história se desenvolver a maior parte do tempo em uma única locação e com base em diálogos entre as personagens do que por uma construção de linguagem diretamente teatral. Do mesmo modo, “Escola do Riso”, de Mamoru Hoshi, para citar um filme ainda em cartaz, possui aspectos formais do teatro – a composição das personagens, o espaço cênico e o tempo narrativo real - como opção estética para espelhar a sua temática: um dramaturgo querendo que o censor libere a montagem de sua peça. “Carreiras”, por sua vez, é antes de tudo uma reflexão, como já foi dito inicialmente, sobre o fazer cinematográfico e teatral, e mais especificamente, aquele de Domingos Oliveira. Ele próprio aparece no filme como uma personagem cineasta e se auto-representa quando diz sobre a facilidade financeira de montar um texto seu no teatro ou ainda quando diz: “meus filmes estão cada vez mais independentes”. "Carreiras" excede em auto-referência, sendo um dos males estruturais e dramáticos que lhe confere um aspecto vicioso e pretensioso. No entanto, acerta em suas doses de humor e na qualidade dos diálogos, além de acertar na aposta de experimentar a leitura relacional entre as linguagens de duas formas de arte cujos conjuntos de signos também mantém relações de pertença.
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