METEORO:


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Original: Idem
País: Brasil/Porto Rico/Venezuela
Direção: Diego de la Texera
Elenco: Cláudio Marzo, Daisy Granados, Paula Burlamaqui, Maria Dulce Saldanha, Jairo Matos, Leandro Hassum, Daniel Lugo.
Duração: 117 min.
Estréia: 22/06/07
Ano: 2006


Estranho, muito estranho.


Autor: Cid Nader

Há um filme que foi rodado em 2002 (quase milênio passado). Há um diretor que, não satisfeito, filma mais algumas cenas extras dois anos após (2004) – sendo que as primeiras haviam sido feitas na Bahia e as seguintes no Ceará, para retratar o mesmo lugar. Esse mesmo diretor, que resolveu filmar essa história brasileira, é porto-riquenho (nada contra, aliás), e finalizou seu trabalho na Argentina. Cinco longos anos após o início da confecção de uma idéia, "Meteoro" aporta, assim, do nada e sem maiores avisos em nossas telas. Estranho todo esse trajeto; toda essa origem; todo esse complemento. Como estranha é a indefectível história real que originou e embalou a vontade de alguém em transformá-la em cinema – livremente, como dizem os envolvidos; bota livremente nisso, digo, modestamente, eu.

Estranhamente ruim resultou a obra que se originou dessa típica epopéia que é, quase sempre, o ofício de se confeccionar filmes por essas bandas latino-terceiro-mundistas. Durante a projeção do filme, vários mistos de indignação e ódio assomaram em minha cabeça e corpo – e ouvia muxoxos e risadas maldosas vindas de outras cadeiras da sala de projeção. "Meteoro" é um filme que vai se apresentando sem nenhum tipo de cuidado, sem nenhum tipo de respeito ao modo de confeccionar um bom cinema, sem roteiro razoável, sem reconstituição de época honesta, sem prestar atenção à passagem do tempo, sem muito esmero fotográfico, ou edição mais que razoável – no máximo. Conta uma história que poderia cair facilmente na conta das inacreditáveis – se não se confirmasse, ao final, sua veracidade, com nomes (o vilarejo de Nova Holanda, entre Bahia e Piauí), datas e algo mais. Fala de um grupo de trabalhadores contratados para construir uma daquelas estradas radiais que foram idealizadas para ligar a recém-construída capital federal aos outros estados do país (anos 60, obviamente) – no caso, a que leigaria Brasília a Fortaleza. Por circunstâncias políticas, principalmente as que advieram do golpe militar de 1964, esse grupo de pessoas (homens) se viu isolado do mundo, juntamente com um grupo de prostitutas que se encontrava por lá no momento do abandono, como benemérito do Estado aos trabalhadores.

Daí ao final, o filme vai se investindo do inverosímel para se contar. Apesar de baseado em "fatos reais", uma crescente sensação de "por que esses caras não saem daí andando?", foi me tomando e se ligando ao pouco cuidado com a arte cinematográfica que já se apresentara desde o início. E o tal "estranho" - para classificá-lo - vai se fazendo o mais fiel adjetivo. O diretor não teve muita paciência com o quesito atuações. A criação dos personagens beira o caricatural o tempo inteiro, com nuances exacerbadas, atuações sem refinamento, e pouco cuidado, inclusive, no modo de filmá-los – o que acentua de maneira fantástica a sensação de obra ruim. Então, quando se percebe que o tempo está passando dentro da história e as pessoas praticamente não mudam de caras e "corpos"; quando se percebe que a mudança de atitudes e o vestuário também são muito economicamente transformados; quando se percebe que o filme gira em falso, em torno de uma idéia, sem alguma ousadia – ao menos estética - para dar fé e credibilidade ao trabalho, algo de ruim parece já concretizado.

Mas valem alguns questionamentos: será que esse pouco cuidado "técnico" com reconstituição e mudança de tempo teria sido alguma atitude "estranhamente" planejada pelo diretor; porque é muito evidente que não poderia ter sido tão descuidada tal faceta do trabalho? Também tem a história das mulheres do filme: todas muito bem fornidas – bundões, peitões, e bonitas, ainda por cima – e que não estão nem a aí para o bom comportamento, arrancando algumas cenas que remetem a uma jocosidade sacana que, se não enxergada como vulgaridade burra e tacanha, podem ser uma idéia de que o filme talvez nunca quisesse ter transitado pelas vias fáceis e comuns de compreensão. Mas, esses questionamentos, teriam razão de ser. Ou teriam uma origem mais compreensível na indignação que remete à não crença em uma que obra tão ruim possa ter sido realizada a sério? Acho que estou querendo ser bonzinho, pois acabei de lembrar dos momentos em que os militares – sim – entram na história; quando dois deles – dos tipos mais caricaturalmente sacanas – agem com a maior das maldades e riso "torto". Isso é muiro ruim mesmo, sem dúvida. Acho que o filme é somente muito estranhamente ruim mesmo.

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