ALÉM DO DESEJO:


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Original: En Soap
País: DINAMARCA
Direção: Pernille Fischer Christensen.
Elenco: Trine Dyrholm, David Dencik, Frank Thiel, Elsebeth Steentoft
Duração: 114 Min.
Estréia: 22/06/07
Ano: 2006


Eu não preciso


Autor: Cid Nader

Mais uma produção com cara de Dogma 95 – situação e impressão que ganha mais reforço ainda por ser obra que vem da Dinamarca, país que originou a criação do movimento que se auto-intitulava como "aquele que vinha para resgatar a pureza e a essência do cinema". À parte discutir novamente a sinceridade nas intenções dos criadores do movimento, que causou um certo rebuliço no meio dos cinéfilos e críticos mais engajados e atentos ao que passa ao seu redor – os que observam o cinema num aspecto mais amplo, mundial -, algumas más marcas parece que se fixaram de maneira quase indelével num segmento grupo de observadores mais xiitas e de pouco bom humor. "Além do Desejo", então, dirigido pela quase novata Pernille Christensen, parece chegar propositalmente com o cheiro e as cores de seu país – e uma compreensão muito mais superficial do movimento inventado Von Trier e Winterberg - como bandeiras a serem defendidas a todo custo; inclusive com o sacrifício do bom cinema.

Quando as câmeras digitais passaram a ser utilizadas na confecção do cinema - isso muito recentemente -, era evidente que seu maior mérito girava em torno do barateamento de um filme em seu resultado final. Junto com essa "vantagem", surgiu um leve e compreensível "modo trêmulo" nas imagens que assistíamos captadas através da nova técnica – o tamanho menor da câmera permitia uma utilização mais constante nas mãos (sem tripés ou outras ferramentas de sustentação) dos fotógrafos, fato que imprimia maior dinâmica e urgência ao novo cinema que se apresentava sem cerimônia a nós, e também tremedeira. Espertamente – como em qualquer outro tipo de arte, diga-se de passagem – tremer imagens, desfocar como se fosse sem querer os objetos filmados, enfim, criar barbaridades visuais através da utilização de uma "câmera nervosa", num verdadeiro atentado à secular arte do cinema, virou moda da pior qualidade. E o cinema "dogmático" foi "pródigo" nesse tipo de resultado – Von Trier já filmava assim antes da criação do movimento, é verdade; vide o modo de confecção do excelente "Ondas do Destino" –, o que passou a sugerir a alguns novos adeptos que essa seria a sua verdadeira marca registrada. Bem, nesse filme da diretora Pernille, toda essa má compreensão daquele evento nascido no distante 1995, se faz cartão de visita, tão exageradamente e tão descaradamente que a vontade real foi a de sair correndo da sala de cinema, intenção que só não concretizei por dever de ofício.

A câmera treme e teima em escapar do objeto a ser focado. Existe uma narração atípica, que não deixa dúvida alguma se tratar de homenagem à trilogia iniciada com "Dogville" (2003), pelo teor afetadamente fabulesco assumido – no caso aqui, a homenagem passa a ser explícita ao diretor dos dois filmes, mesmo devida e oficialmente afastado do movimento, num típico exemplo que desmascara uma compreensão equivocada das razões dele, anteriormente, e como tentativa de colocá-lo sobre um altar, para ser não questionado em suas opiniões e atitudes; afinal, estamos girando em trono de "dogmas".

A história? Ah, a história fala de uma mulher, Charlotte (Trine Dyrholm), madura em busca de uma nova vida; do seu relacionamento complexo com o novo vizinho, transexual e depressivo – não, não estou afirmando que sejam condições que caminham paralelas, somente descrevendo as características do personagem -, Veronica (David Dencik); e as insitentes investidas do antigo, perdido e violento companheiro, Kristian (Frank Thiel). A atuação sem nenhum tipo de expressividade alterada, da personagem feminina principal – a mesma cara e os mesmos olhos "esbugalhadinhos" o tempo todo; o mesmo sorrisinho bobo, idem (parece egressa da escola de atuação "Adriana Estevez") -, tudo isso e mais aquele "pouco" que remete o trabalho àquela "compreendida" Dinamarca dogmática (produção também da Suécia), denunciam que um filme falso está entrando em cartaz. O próprio mote da história parece perdido e desvirtuado no tempo. Imagino que não precisemos desse tipo de cinema. Mais modestamente, então: eu não preciso desse tipo de cinema e não recomendaria a algum amigo (apesar de não ser função minha recomendar; somente alertar).

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