TREZE HOMENS E UM NOVO SEGREDO:


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Original: Ocean's 13
País: USA
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: George Clooney, Andy Garcia, Elliott Gould, Al Pacino, Don Cheadle, Brad Pitt, Matt Damon, Bernie Mac, Casey Affleck, Scott Caan, Eddie Jemison, Shaobo Qin, Carl Reiner
Duração: 122 min.
Estréia: 22/06/07
Ano: 2007


Diversão inteligente, acima de tudo


Autor: Cid Nader

Filmes sobre amizade entre machos – supostamente assumidos como tal - sempre foi uma das grandes incógnitas dentro do cinema de entretenimento norte-americano. Num país reconhecidamente conservador e puritanamente religioso, que sempre prezou a família como bastião da moralidade e base estrutural de sua sociedade, sempre soou como invenção de críticos e analisadores, a idéia de que intenções homossexuais ocultadas pela vigilância constante pudessem ter sido sutilmente difundidas pelo cinema local, principalmente no período de maior "identificação" nacional com a arte, que foi o período áureo dos westerns. Vistos, no período de sua criação, como filmes de entretenimento para toda a família e manifestação do povo forte e desbravador que ampliou as fronteiras do país, tiveram, essas obras, com o passar do tempo e o distanciamento suficiente, novas análises que as remetiam, também – sem excluir as "virtudes" observadas mais superficialmente nos primeiros momentos -, a manifestações enrustidas e camufladas de homossexualismo, provenientes, provavelmente, do fato de que os bravos homens de então tiveram que viver longos períodos isolados da sociedade comum, cercados por outros homens, com necessidades físicas urgentes... Quer dizer: a partir de um certo momento, começou a se tentar entender esses filmes de amizade íntima e incondicional por um viés muito particular, onde se entendia, inclusive, que a utilização e veneração de pistolas e armas de canos longos, o cuidado dedicado a elas, as conversas sobre elas, eram fruto de conversas "enviesadas" sobre a potência masculina e admiração masculina sobre essa potência.

"Treze Homens e um Novo Segredo" é um grande filme sobre amizade masculina – e isso já vem desde o primeiro filme da série, que aliás vem repetindo de maneira improvável alguns nomes de peso do cinema atual (George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon...) – se valendo disso de maneira contundente. Mas poderia ser observado – se visto de modo ranzinza e "imaginativo" – como um exemplo de filme que déia algumas suspeitas no ar. Há um excessivo amor dedicado pela gangue à figura de Reuben Tishkoff (Elliot Gould), que vê sua saúde despencar por conta de uma passada de perna exemplar que leva do ultra-esperto e ultra-bandido Willie Bank (Al Paccino). A trupe de malandros, comandada por Ocean (George Clooney), resolve que alguém tem que se vingar pelo amigo, assumindo isso de maneira muito familiar. Mas o diretor Steven Soderbergh – por jocosidade ou por provocação – acaba emprestando, sutilmente, alguns momentos mais carinhosos a essa relação; cartinhas enviadas, absoluta e irrestrita confiança entre um e outro, e o comparecimento da única mulher de importância história, Abigail Sponder (Ellen Barkin), como uma figura sem importância, subserviente e louca de amor pra dar quando provocada – totalmente rendida à superioridade masculina.

Deixando para o futuro análises mais estruturadas sobre uma possível comunhão desse filme com alguns princípios camuflados do homossexualismo, vale lembrar que essa nova obra tem ritmo interessante (inclusive exagerado, sem muito espaços para reflexão, sem espaços para respiro – mas, realmente, o filme não precisa deles mesmo; não faz parte de sua proposta), humor dos mais refinados e inteligentes, roteiro para lá de elaborado – com elaborações de utilização dos recursos mais modernos, num mundo todo computadorizado, tão espetaculares que, envergonhado pela minha inaptidão no assunto (e imagino que de quase todos os que virem o filme), jamais contestaria qualquer ação do grupo nesse sentido. O filme tem também uma intrincada relação do poder e do que se faz para atingi-lo das maneiras mais inescrupulosas; junto a isso cito um momento – que se dá no México -, em meio a um tom de piadinha, com conteúdo sensivelmente político em defesa dos oprimidos pelas grandes corporações que inicia de modo estranho mas é concluído bastante dignamente (aliás, Soderbergh adora discutir assuntos de um terceiro mundo explorado, embora nem sempre com qualidade).

O que resta, ao final, é um grande e bem humorado filme de ação e de amigos. Esperto e bem realizado tecnicamente – grandes e ousadas tomadas de câmera (inclusive com uma utilização de um super-zoom de maneira pouca vista em sua velocidade na busca dos alvos – e um excelente repertório musical -, atuações inquestionáveis (Brad Pitt aparece como o mais apagado, mas mesmo assim, bem), e efeitos dos mais mirabolantes. O caso da ligação dessa amizade inquebrantável a outras motivações de teor social/contestador? Deixemos para outra hora. Vale mesmo como grande diversão.

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