CÃO SEM DONO:


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Original: Idem
País: Brasil
Direção: Beto Brant e Renato Ciasca
Elenco: Júlio Andrade, Tainá Muller, Márcio Contreras e Sandra Possani
Duração: 82 min.
Estréia: 15/06/07
Ano: 2007


"Cão sem Dono" - pode-se fazer mais com tão pouco?


Autor: Cid Nader

Em seu filme anterior, "Crime Delicado", Beto Brant já demonstrava que havia decidido – inconscientemente ou não – dar uma guinada em uma carreira de raro sucesso e consenso, entre crítica e público. O diretor, que surgiu para o cinema através dos curtas-metragens – mais especificamente ainda com seu segundo trabalho, o extremamente bom "Dové Meneghetti" (1987) - não necessitaria "radicalizar" propostas para continuar sendo bem visto, pois é dos raros realizadores nacionais que sempre conseguiu transitar dentro da "linguagem cinema" utilizando variados modos de olhar, através de variadas técnicas, sem repetição de estilo para marcá-lo (pelo bem ou pelo mal); e mesmo assim realizou filmes de alta e indiscutível qualidade. Em "Crime", algo já apontava para um "autor" surgindo, em substituição ao "somente" grande diretor. Lá, Beto começou um mergulho – ou busca, talvez – em direção à essência real do cinema, como a arte que permite espaços mais variados do que somente um contar histórias através do "correto" roteiro, da decupagem comportada, da fotografia bem e elaboradamente enquadrada, da atuação pontuada pelo bom desempenho do ator dentro da linguagem... O diretor se revestiu de coragem – poucos que já são sucesso a têm ou teriam – e construiu um filme que, mais do que nunca, o era desde a raiz, através da percepção da gama de variedades que a linguagem propicia, com pequenos esquetes bastante posados e artificiais (como retratar momentos de teatro de maneira mais fiel?), cortes mais ousados, enquadramentos mais "necessários", e um ousadíssimo desvio abrupto que deslocava a obra ficcional na direção de um momento documental inimaginado naquele momento.

Pois bem: agora Brant nos apresenta - juntamente com seu antigo amigo e companheiro, Renato Ciasca - a "Cão Sem Dono", baseado no livro de Daniel Galera, "Até o Dia em que o Cão Morreu" - vale uma lembrança: o diretor (no caso, Beto) demonstra eternamente um extremo respeito à literatura, com toda sua obra baseada em adaptações de livros de autores contemporâneos, a ponto de, nos créditos dos filmes, seus nomes aparecerem como os mais óbvios e respeitáveis dos destaques. Pois bem: agora, mais nitidamente ainda, temos um autor (novamente, no caso, Beto Brant, e aí fica um interessante exercício de se tentar se perceber qual o peso da "importância" de Renato) – não mais somente o diretor (a concretização da transposição, da mudança) – que resolveu demonstrar dessa vez que com pouco se pode fazer muito; que com quase nada se pode fazer tudo. Quando se observa a ficha técnica do filme – lá nos créditos finais – tem-se a impressão que ela só poderia ser de um curta-metragem, dada sua exigüidade, sua contenção. Já vi o filme, afortunadamente, algumas vezes, e tenho percebido o quanto ele cresce a cada revisão; o quanto ele revela de novidades, se contrapondo à aparência de obra enxuta e humilde na forma, para cada vez mais despejar pequenas porções de história, de "essência" - e então se percebe que a economia formalista não é tão econômica assim na verdade, só se fazendo perceber assim numa primeira olhada mais superficial, enquanto, no fundo, no fundo, é complexa e complementadora na maneira da obra entregue ao público.

Raramente se vê uma câmera se fazer tão "despercebida" como quando, a do filme, acompanha os encontros de Ciro (Júlio Andrade) e Marcela (Tainá Muller). Intromete-se na cama enquanto eles transam, percebendo os suspiros, os suores, os desejos; intromete-se, capta e não interfere; as atitudes se concretizam como se não houvesse uma equipe por trás, uma lente a observar. No segmento "relação amorosa entre Ciro e Marcela", que é um dos que se repete durante o processo da obra, fica muito nítida a qualidade do trabalho dessa câmera discreta. Nos momentos de solidão do personagem Ciro as lentes conseguem captar angústia, conformismo, incertezas. Nos instantes de contato com a figura ímpar do zelador Elomar (Luís Carlos V. Coelho) – talvez a grande "alma" da história, por trás de sua aparente simplicidade, com espírito de artista, sensibilidade e "ancestralidade" suficientes para se fazer de amparo e conselheiro ao protagonista central, ou para perceber a luminosidade que emana de Marcela – o modo de filmar ganha mais luz, como se fosse para reforçar que ali se encontra a opinião centrada, razoável, boa.

O espetáculo da simplicidade se transformando em "tudo", continua na opção do corte no filme, quando – invariavelmente, e principalmente nos momentos de passagem que conduzem os seres isolados em seus questionamentos e dúvidas – a tela escurece à espera de uma nova seqüência; o que não significa que as emendas trarão novos ares, mais iluminados ou distantes do momento anterior, muito ao contrário, quase sempre. Essa mesma câmera caminha por cenas, persegue de maneira leve os atores em alguns momentos, desde uma posição fixa, movimentando-se na mesma cadência exigida pelo momento, "depositada" ao final, numa técnica que empresta qualidade e definição exata ao que quis ser mostrado. Não há como deixar de lembrar o momento em que praticamente toda a história se concretiza em uma imagem fixa, com a lente parada focando a parede da "cozinha" do pequeno apartamento, onde um Ciro entregue está sentado numa cadeira junto á parede, com o seu cão (a figura mais emocionante de todas) deitado um pouco à sua direita, enquanto, à esquerda, se pode notar o quadro desenhado por Elomar e ofertado num primeiro momento de contato mais companheiro e protetor – se fosse o caso de escolher uma imagem para resumir as intenções da história, seria essa, que, ainda por cima, resume em si toda a força propositalmente escondida pela "falsa" simplicidade no modo em que "Cão Sem Dono" nos é apresentado via imagens.

Os atores de Beto Brant – e novamente aí, consigo perceber mais nitidamente a mão do diretor, sem conseguir determinar até que ponto Renato Ciasca também tem influência - sempre trabalham muito bem. Sempre foi bastante nítido o seu cuidado com esse aspecto, fruto de cumplicidade (e muito trabalho, obviamente) conseguida entre diretor que sabe o que quer, e ator que sabe por quem está fazendo. A solidão de Ciro, seu isolamento dentro de um mundo que não tem muito a ver com ele mesmo, suas angústias ou seu pouco caso com quem imagina se aproximar dele, todo esse aspecto tão pouco comum ao cinema mais de entretenimento, são devidamente passados ao espectador: sem forçar a barra, de modo fluido, natural, como se estivéssemos vendo seu comportamento através de um janela ampla, mas isolada o suficiente para não modificar seu comportamento retraído e tímido. A tentativa de aproximação de uma pessoa bela e "resolvida" profissionalmente – dentro do que sugere a sociedade, como é Marcela, que se apaixona por Ciro (nada a ver com ela, aparentemente) - tentando fazer dele, ou de seu modo de vida, o seu, é feito dentro de uma tranqüilidade "narrada" pelo diretor digna de alguém que está modificando algo na história do cinema nacional. Ciro é o obstinado que imagina ser possível encontrar em sua solidão interior todo o pouco de que necessita para continuar a viver, e Marcela vem na conta-mão desse conceito de vida imaginado por ele, alegre, pra cima, de beleza límpida - em todos os sentidos: exteriormente de maneira óbvia, e no aspecto interior, com pureza e transparência dignas de grandes personagens das artes. O que o filme (o livro?) tenta estabelecer, e mostrar - afinal -, como mote narrativo principal é a necessidade que um modelo humano precisa de verdade para ser completado por outro tipo de modelo (isso é a vida, na realidade). E aí, a figura do "irracional", do cachorro - do que está lá como o amortecedor, como o meio termo, como a balança mais facilmente regulável entre aparentes pesos e antagonismos de comportamento - ganha a dimensão de importância mais absurdamente sincera que a vida pode emprestar à arte.

Mas o "grande problema" é que não dá para deixar de destacar os outros personagens que jamais fazem o papel de simples complemento de cena ou preenchimento de espaço:já citei acima a figura ímpar do personagem do zelador/artista, que se faz o amparo inesperado nos momentos mais deprimidos de Ciro; o pai (Roberto Oliveira) e a mãe (Sandra Possani) são de importância emotiva inequívoca - que ganha surpreendente força pelo aspecto mais amadorístico resultado de suas atuações -; sem falar no genial desempenho do motoboy Lárcio (Marcos Contreras), que surge de repente, angaria com uma pureza de alma incrível o casal para si, e executa os momentos mais "leves", mais de escape, sem que isso diminua a força real de suas opiniões e de seus carinhos endereçados sem economia a Marcela e Cícero. São personagens trazidos do livro e tornados exemplo típico do que de melhor se poderia fazer no cinema com eles.

Tentando completar, por hora, esse texto, fica impossível se falar que uma obra cinematográfica é genial, sem citar algumas grandes cenas ou seqüências. E mesmo trabalhado dentro de um modelo intimista (quase nada), o filme não economiza, e nos surpreende com ao menos cinco grandes momentos (quase tudo). Há o momento em que Ciro chora a "perda" de Marcela e é amparado por Elomar (o zelador), que o abraça sinceramente e fala de amor, do tempo, com uma sabedoria digna. O instante - inclusive, me parece, onde surge a primeira música condutora de cena, como seria o trabalho de trechos de uma trilha sonora - em que o protagonista principal sai à rua, uma Porto Alegre impessoal e distante, em busca de um emprego, e contra todos os seus princípios. A cena do motoboy e do tradutor - sim, esqueci de citar que Ciro é tradutor, e Marcela modelo - bêbados de verdade, quando Lárcio ensina a ele o deve fazer para perder a capa de frieza, e como teria que agir para procurá-la. Ou quando ocorre um resgate, um vidro quebrado, após a perda - e próximo da perdição -, pela ausência do amor, com um exemplar modo de como o cinema pode impor curtas imagens ou soltos sons para resgatar alguém do mundo dos mortos. Sem falar na seqüência - que lembra o que já ocorrera em "Crime Delicado" - em que um surpreendente depoimento documental surge, de repente, do nada, com o mar ao fundo se fazendo de cenário, e o pai se expondo ao filho por um passado falho; como se fosse algo inevitável e de obrigatoriedade ao filme; pronto a ser mostrado a qualquer momento.

E há o cão; o cão. O filme exigirá muita reflexão, muita calma para ser dissecado. Beto Brant e Renato Ciasca construiram uma das grandes obras do cinema nacional; não tenho dúvidas. Tão grande que fica difícil fazer um texto à sua altura.

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