A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS:


Fonte: [+] [-]
Original: La Vida Secreta de las Palabras
País: Espanha
Direção: Isabel Coixet
Elenco: Sarah Polley, Tim Robbins, Javier Cámara, Eddie Marsan, Steven Mackintosh
Duração: 117 min.
Estréia: 15/06/07
Ano: 2005


Torre de Babel sem nada a dizer


Autor: Cid Nader

"Sobe a música". Com essa expressão, alguns apresentadores de noticiosos radiofônicos ou programas mais antigos costumavam solucionar um problema temporário, que, normalmente, girava em torno do não ter o que dizer naquele momento específico; da falta de assunto. Em "A Vida Secreta das Palavras", uma produção espanhola dos irmãos Almodóvar, falada em inglês, rodada no meio do oceano – mais especificamente em uma plataforma marítima de extração de petróleo -, e que insere uma protagonista sobrevivente do período sangrento ocorrido nas Bálcãs no fim do século XX, Hanna (Sarah Polley), que lá aporta para cuidar de um ferido em trabalho interpretado pelo norte-americano Tim Robbins. A falta do que dizer já parece aparente desde o início do trabalho pela verdadeira Torre de Babel envolvida em todas as camadas da concepção do filme. Numa não velada homenagem a Inge Genefke (Julie Christie) – fundadora de uma organização mundial que luta pela reabilitação de torturados de guerra -, a opção da diretora parece ter sido a de criar realmente uma metáfora à já metafórica Torre, envolvendo "recantos" do planeta, representados por protagonistas de diversas origens, variadas formações profissionais e divergentes olhares sobre o mundo.

Só que o pretenso discurso bem intencionado naufraga no próprio oceano que é adotado para servir de cenário à história, por um excesso de "boas intenções" e nada a dizer de maneira mais contundente. No início percebe-se nitidamente que Hanna não é uma pessoa feliz, e quando "obrigada" a tirar férias resolve que será muito mais importante expiar "suas culpas" - há um discurso próximo do final do filme em que Genefke profere uma avaliação sobre a "culpabilidade por terem sobrevivido" assumida pelos sobreviventes daquele quase genocídio – embarcando rumo a uma plataforma marítima para cuidar do acidentado Tim Robbins. O excesso de personagens com nuances e características ostensivamente diferenciadas entre si – na marra - não ajudam para dar credibilidade ao discurso da diretora. Ela inventou um contratado para avaliar as conseqüências das ondas sobre a estrutura da plataforma, que se dedica à criação de mexilhões e avaliação dos malefícios causados pela extração de petróleo à vida local; há um casal que, na falta do que fazer, se beija sob a luz da lua; ou o cozinheiro espanhol que prepara verdadeiras iguarias não compreendidas pelo paladar bruto dos trabalhadores (como dar pérolas aos porcos). O envolvimento de Hanna com todos os personagens tem intenção de representar um passeio de uma entidade, que já passou por todos os percalços e violências possíveis e está lá para "ensinar" – mesmo sem se propor a isso -, para mediar as diferenças, para refrescar e servir de escape; apesar de toda a pesada carga própria. E isso não soa natural.

Nos momentos em que se aguarda tomadas de atitudes mais específicas para o bom desenvolvimento da trama em busca do respaldo a seu proposto "político", o filme se escora em momentos musicais, que acabam por preencher os vazios discursivos, e angariar a simpatia de espectadores mais interessados no lado romântico ainda obscurecido pelo "sofrimento" interior e exterior dos personagens. Utiliza boas músicas para isso, mas fica evidente tratar-se de um truque para preencher vazios. Talvez eu não esteja tão sentimental ultimamente para abraçar tal tipo de proposta, quando se desvia de seu caminho à procura dos mais "sensíveis". Talvez eu não esteja tão sentimental para engolir perfumarias – aliás, deves ser indigesto mesmo -, ou aceitar que me vendam uma bijuteria no lugar da jóia anunciada.

Leia também:


Profundo e humanista