INFÃNCIA ROUBADA:


Fonte: [+] [-]
Original: Tsotsi
País: África do Sul
Direção: Gavin Hood
Elenco: Presley Chweneyagae, Terry Pheto, Kenneth Nkosi, Mothusi Magano e Zenzo Ngqobe
Duração: 94 min.
Estréia: 07/06/07
Ano: 2005


produto do distante Oscar de 2006


Autor: Cid Nader

Parece até que é proposital. Na maioria das vezes, o filme ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (nesse caso, levando o prêmio no ano de 2006) surge bastante sustentado por situações pitorescas ou falsas (equivocadas para agradar "turistas"?) avaliações sociais, como motes a conduzir sua narrativa. Evidente – talvez nem fosse preciso relembrar – que o primeiro mundo procura expurgar suas culpas enxergando os mais pobres como seres necessitados de atenção e carinho, que somente eles "podem" suprir (colonização, expropriação, escravatura, exploração de recursos...). Através das artes, tais manifestações de abnegação por uma boa causa tendem a ganhar multiplicação aos olhos do mundo, num fato gerado pela evidente força das mídias pelas quais transitam e que os conduzem mundo afora – ou que podem agir como o veículo mais natural, como o cinema. Mais especificamente ainda nos Estados Unidos, o resultado de tal "bom samaritanismo" resulta em falhas grotescas, e o cinema - utilizado por lá como sua máquina de divulgação de maior alcance - toma para a pátria ianque tal papel, acabando por trazer para si a pecha de ser o maior culpado desses resultados; na imensa maioria das vezes, equivocado, digamos assim.

"Infância Roubada", filme rodado na África do Sul, o país mais "desenvolvido" do continente – segundo o que se costuma designar como desenvolvimento pelos padrões capitalistas, ocidentais, aqueles mesmos que se iniciaram com o desmanche de identidades "distantes e pitorescas" (e se mantém, na marra, à custa do desmanche dessas mesmas identidades) -, revela toda a sua intenção ao filmar os desprovidos, gerados nos subúrbios de sua maior cidade, Joanesburgo, e de paridade impressionante ao que acontece em outras grandes cidades do mundo pobre/capitalista/explorado. Mas revela sua má intenção: filmado de modo apelativo (adjetivação que pode parecer resumidora e facilitadora, mas que cabe como luva nesse caso) coloca despudoradamente seus personagens numa espécie de jaula para a apreciação da platéia internacional, iluminando-os com uma luz avermelhada que lembra bastante aquelas peças americanas que enfatizavam o "bom negro" – como "A Cabana do Pai Thomas", por exemplo -, fazendo com que tais personagens personifiquem caricaturas das mais exageradas do que deveriam representar, com situações muito mal resolvidas no roteiro devidamente acomodado (o que parece bastante óbvio, afinal estamos falando de um filme para exportação e co-produzido pelo Reino Unido - e novamente se percebe a necessidade do "ex-dono", tentando salvar sua alma do inferno; não sem antes faturar um trocadinho encima), e com música executada ao pior e mais horripilante estilo, copiado das produzidas pelos negros das periferias de Nova Iorque.

O destino do bandidinho - chefe de uma gangue de pós-adolescentes - que comete barbaridades na hora dos assaltos; a presença de um, no meio do grupo, com um pouco mais de cultura – aliás, por conta de um "respiro" desse personagem, ainda no início da película, quando ele fala em decência, o filme ameaça impregnar-se de importância e enriquecer uma possível essência discursiva sobre as mazelas e as razões da violência nessas grandes e empobrecidas cidades das periferias mundiais, mas, "cáspite", foi só um truque –; o encaminhamento da história que procura apaziguar seu trajeto inicial, ao amolecer, do nada, comportamentos formados na infância; e a utilização dessas razões pregressas para facilitar e angariar alguma empatia por parte do público. Todas essas questões reunidas e mais alguma coisa, enfim, se fazem suficientes para entendermos como funciona a cabeça da maioria dos votantes da Academia, e para compreendermos como alguns diretores imaginam a maneira de executar seu ofício, o modo como cedem às pressões dos produtores e da indústria (com o aceno da "fama"), e a "quem" oferecem seu resultado.

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